Minha memória seletiva é mais emocional do que racional, a cronologia dos acontecimentos não se prende ao calendário. Quem comanda as desordenadas lembranças é meu relicário coração vagabundo, que tem razões que a própria razão desconhece, porém, por mais bagunceiro que seja, bate no compasso ritmado do amor, forevis! O carinho que tenho e sinto por certas pessoas é fruto de uma primordial admiração, desperta naturalmente num primeiro encontro, nem sempre marcado, mas eternamente marcante e gravado no meu coração e mente. Recordar estes momentos é pura felicidade e contentamento, enche o peito de alegria e orgulho por ter tido a sorte de cruzar com tanta gente que nasceu pra brilhar! Como o querido Lelo Filho. Nos conhecemos em meados da década de 90, claro que não sei dizer a data, mas garanto que foi um inesquecível encontro, lembro que era verão no Rio de Janeiro, ele acompanhado pelos patifes de sua CIA lotava, no palco principal, o Teatro dos 4, eu, ladeado pelos subversivos Aloisio de Abreu e Marcia Cabrita, arrebentava a boca do balão no Café do Teatro, palco alternativo do mesmo teatro, no Shopping da Gávea, no Rio, num verão de meados da década de 90, puro êxtase!
As Noviças Rebeldes e Subversões Unplugged eram o sucesso da temporada e a aproximação das duas quadrilhas, de patifes e subversivos, foi inevitável, afinal pertencíamos todos a mesma facção, do humor, da irreverência e da alegria. Virou hábito chegar cedo no teatro para assistir a sessão dos baianos, assim como depois de tirar o hábito das rebeldes noviças os patifes ficarem por lá se divertindo com o trio subversivo, depois saiamos pelas noites cariocas, comemorando o sucesso de nossas bilheterias, que delícia! Juntos na pista do Galeria Café amanhecíamos os dias, extasiados (sem trocadilho, por favor). Lelo brilhava no palco e paralelamente era produtor das Noviças e tão talentoso quanto competente, mandava bem nos dois quesitos, sou grato a ele por anos depois ter colaborado de forma tão grandiosa na vinda de meu espetáculo solo – Salem da Imaginação – para os palcos soteropolitanos. Hoje, residente em Salvador e morando paralelo a Lelo não nos vemos tanto quanto eu gostaria, mas vibro toda vez que vejo seu desempenho e empenho na militância do Teatro Baiano, mantendo em cena, a mais de 30 anos, a CIA Baiana de Patifaria, orgulho para todos nós atores, baianos ou não. Fui noviça relâmpago, certa noite lá no Rio, entrei em cena, na abertura do espetáculo, como uma subversiva freira, de botas de cano alto. Em um de nossos rápidos encontros pela cidade de Todos os Santos, Lelo me disse que tem gravado minha participação em vídeo, bom...aguardo o convite para rever a cena e matarmos saudades de nós. Aproveito para convidar todos a prestigiarem o programa de rádio de Fanta e Pandora na Globo FM, divertidíssimo, inteligente e competente como ele e, por aqui fico, mandando um beijo carinhoso paralelo, para Lelo.
A gente se vê na subida ou descida da ladeira.
Luís Salém é ator e um #NovoBaian



