8 de janeiro: Fachin elogia atuação de Moraes e diz que ato foi "premeditado, pautado pela negação do diálogo"
Presidente do STF discursou durante evento em alusão aos três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, elogiou a atuação do colega Alexandre de Moraes na condução dos processos que envolvem a tentativa de golpe de Estado ocorrida em 8 de janeiro de 2023.
Ainda de acordo com Fachin, ato foi "premeditado, pautado pela negação do diálogo".
A declaração ocorreu durante evento em alusão aos três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes. Na ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou decreto para vetar integralmente o projeto de lei da Dosimetria, que reduziria as penas dos condenados pelos ataques do 8 de janeiro.
Segundo Fachin, o Brasil está dando grande exemplo de resiliência pelo mundo. "É preciso resistir, sempre dentro dos marcos democráticos. O preço da democracia e da liberdade é mesmo, como já se disse, uma eterna vigilância".
Confira o discurso na íntegra:
Senhoras e senhores, servidoras e servidores do Supremo Tribunal Federal. Jornalistas.
Autoridades do Poder Judiciário e demais integrantes das carreiras do sistema de justiça.
Há três anos, no dia 8 de janeiro de 2023, vivíamos, nas palavras da Ministra Rosa Weber, então presidente do Supremo Tribunal Federal, o “Dia da Infâmia”, quando esta Casa, projetada por Oscar Niemeyer, foi invadida e depredada em um ataque sem precedentes em seus mais de 130 anos de história. O Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, espaços de consagração e vivência diária da democracia, também foram atingidos.
Assombrados e consternados, vimos a destruição do patrimônio material e imaterial de instituições pilares da República, um ato premeditado, pautado pela negação do diálogo, da convivência pacífica, e do próprio Estado de Direito Democrático.
No dia seguinte, após o conhecimento da dimensão dos danos causados a esse patrimônio, irmanados pela resiliência, mas com muita serenidade, fez-se a pé a travessia do Palácio do Planalto ao plenário do Supremo, travessia essa que, também nas palavras da Ministra Rosa, precisou se desvencilhar de “pedras, cacos de vidro e cartuchos de borracha que abarrotavam o chão da Praça dos Três Poderes”.
O Ano Judiciário de 2023 despontava no horizonte, e por meio da firmeza de espírito da presidente do Tribunal, decidiu-se que o início dos trabalhos da Corte não seria adiado. Seguiríamos em frente. E se é verdade que o caminho se faz ao caminhar, também é certo que seria preciso, neste caso, haver quem retirasse, uma a uma, as pedras, os cacos de vidros e os cartuchos de borracha que devassavam o caminho.
O caminho se constrói com pés de caminhar, mas se há caminho a ser trilhado, é porque houve, e há, mãos que reconstruíram, limparam, restauraram e defenderam esse caminho – literalmente. Tais homens e mulheres aqui estiveram no dia seguinte, e nos dias que se seguiram, fizeram cumprir a promessa feita pela Ministra Rosa de que, no dia 1.º de fevereiro de 2023, apenas 24 dias depois, aqui estaríamos para dar continuidade à nossa tarefa primordial: realizar a Justiça e conferir concretude à nossa Lei Maior.
Portanto, imbuídos pelo sentimento de gratidão, inauguramos hoje a exposição “Mãos da Reconstrução”, no átrio do Espaço do Servidor, uma declaração pública de reconhecimento às servidoras e aos servidores que defenderam e reconstruíram espaços físicos do STF vandalizados no dia 8 de janeiro de 2023.
Além dessa exposição, que traz os rostos e os nomes desses trabalhadores e trabalhadoras, também lançamos hoje o documentário “Democracia inabalada: mãos da reconstrução”, onde poderemos testemunhar o que pensaram, sentiram e fizeram aqueles que limparam os entulhos, restauraram obras de arte, reinstalaram vidraças e defenderam este espaço naquele fatídico domingo da infâmia.
Hoje, este Tribunal se dirige com respeito e afeto a essas pessoas que, como tenho dito, também guardam, diariamente, a Constituição. Ao defenderem este prédio, defenderam também a Lei Fundamental do nosso país. Que possamos nos inspirar nelas e neles: comprometidos, discretos, resilientes, dedicados e profundamente guiados pelo espírito público.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis vaticina que “o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a memória das coisas”. O dever desta Corte, guardiã não apenas da Constituição, como também da memória institucional jurídica do país, é ir de encontro às palavras do nosso maior escritor, evitando que o tempo anestesie nossa sensibilidade e faça desaparecer não apenas a memória do malfeito praticado, mas de quem se levantou contra ele.
E neste trabalho de preservação da memória do Tribunal, e do que se passou naqueles dias, devemos também mirar para fora, em permanente interlocução com quem relatou e reportou aqueles acontecimentos, e com estudiosos e estudiosas que se dedicam a pensar os desafios contemporâneos da democracia constitucional, a importância de se preservar a memória institucional e edificar caminhos para a consolidação da paz democrática.
Neste sentido, faço o convite para que também prestigiem, logo após a veiculação do documentário, uma Roda de Conversa com profissionais da imprensa, que ocorrerá no Museu do STF, e que tem como objetivo escutar as percepções e sentimentos de jornalistas que cobriram os acontecimentos do dia 8 de janeiro. Contaremos com a presença de Wesley Galzo (Estadão); Gabriela Biló (Folha de São Paulo) e Marina Dias (Washington Post), com mediação de Gabriela Guerreiro, hoje secretária de comunicação do CNJ e coordenadora de imprensa do STF à época.
Em seguida, no Salão Nobre, teremos a Mesa-Redonda “Um dia para não esquecer”, com o teólogo, pesquisador e diretor do Instituto de Estudos da Religião Ronilso Pacheco, com o historiador, pesquisador e escritor Carlos Fico, com a advogada, cientista social e integrante do Instituto Ibirapitanga Juliana Maia, e com o jornalista, escritor, pesquisador e fundador do Jota Felipe Recondo.
Permitam-me agora enaltecer o trabalho do Ministro Alexandre de Moraes na condução dos inquéritos e das ações penais que surgiram desse dia infame — e frisar, precisamente, o caráter exato de sua atuação.
Há quem confunda e tome a firmeza por jactância. E o Ministro Alexandre de Moraes colocou-se firme por dever do ofício, com sacrifícios pessoais e familiares que não me cabe inventariar, e esteve onde precisava estar. Não por bravata, mas porque era o seu ofício — aquele mesmo que juramos exercer, com a vida se preciso for, na impermanência de nossos cargos.
Que o exemplo de sua atuação no 8 de janeiro — a atuação que hoje rememoramos — nos lembre que defender a Constituição é também defender aqueles que, com generosidade e abnegação, puseram as instituições à frente.
Faço votos de que, sob esse exemplo, saibamos igualmente honrar os servidores e membros desta Casa que, com espírito de serviço, dedicaram parte de suas vidas à custódia das instituições.
Como afirma Sua Excelência o Ministro Celso de Mello recordando a advertência de Karl Popper: a tolerância ilimitada conduz, paradoxalmente, à destruição da própria tolerância. Por isso, recordar é resistir.
Agradeço à Secretaria de Altos Estudos, à Secretaria de Comunicação e à Assessoria de Cerimonial pela realização deste evento que recorda com lucidez o ocorrido, e finalizo estas breves palavras reafirmando que a Constituição permanece sendo, ao mesmo tempo, nosso limite e nosso horizonte. Que este Tribunal seguirá na defesa intransigente da democracia e do Estado de Direito Democrático, assim como de um diálogo respeitoso e republicano com os demais Poderes, também atacados naquela data, e que também se levantaram contra o autoritarismo.
Reitero o compromisso deste Tribunal com a segurança jurídica; com a diversidade, igualdade e respeito à pluralidade; com a colegialidade e os princípios éticos que regem a magistratura, a qual deve ser a guardiã silenciosa e cautelosa da República; com a independência e harmonia entre os Poderes; com a liberdade de imprensa e de expressão; e com o devido processo legal e a ampla defesa de todos os cidadãos e cidadãs.
Há vez e voz para todos e todas em uma sociedade plural, desde que respeitados os limites impostos pela Lei Maior. Diferentes valores a respeito de como alcançar e consolidar os objetivos fundamentais da República podem e devem conviver, mas nenhum valor pode vir a ser invocado para obliterar a democracia.
Governantes e governados estão submetidos às mesmas regras, e todas essas regras estão submetidas à Constituição. Manifestações políticas legítimas não amparam ações que coloquem em risco pilares fundamentais da vida em democracia: eleições livres; voto direto e secreto, com valor igual para todos; pluralismo político; soberania estatal; proibição de toda forma de discriminação; e defesa das liberdades públicas.
Iniciei este breve pronunciamento falando do “Dia da Infâmia”, mas finalizo-o lembrando que o 8 de janeiro não pode ser resumido ao vandalismo do patrimônio público, ao ódio à democracia, à intolerância frente ao dissenso legítimo. O 8 de janeiro – assim como os dias que se seguiram – também diz respeito à vontade de reconstruir, à dedicação, à resiliência, à fraternidade e ao compromisso inabalável com a democracia.
O Estado de Direito democrático está em crise no mundo contemporâneo. É preciso resistir, sempre dentro dos marcos democráticos, e o caminho é a institucionalidade. O Brasil está dando grande exemplo de resiliência. Nada obstante, a memória é um alerta e uma advertência, porquanto o preço da democracia e da liberdade é mesmo uma eterna vigilância.
A Praça dos Três Poderes e as três instituições que aqui coexistem e dialogam de forma respeitosa e republicana não serão, jamais, resumidas a pedras, cacos de vidro e cartuchos de borracha; essa é apenas uma fotografia, para a qual certamente devemos olhar, a fim de nunca esquecermos o que aqui se passou. Não desviemos o olhar, pois desviar o olhar é também calejar a sensibilidade e varrer a memória das coisas.
A obra, no entanto, é maior do que essa fotografia. Ela é o pacto que firmamos há 37 anos, nesta mesma Praça, quando se promulgou a Constituição da democracia, da cidadania e da justiça social. É ela que nos sustenta, nos constitui diariamente e nos fez chegar até aqui.
Pelo Estado de Direito, pela democracia e pela Constituição sigamos com o olhar de Janus: memória e compreensão do que foi para manter o discernimento sobre o futuro a construir em paz, com liberdade, justiça e solidariedade.
Muito obrigado pela vossa atenção.


