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ACM Neto captou dinheiro da previdência de servidores públicos para o Banco Master, apontam mensagens de Vorcaro

Junto com Rueda, ex-prefeito de Salvador atuou em favor de Vorcaro em troca de 10% dos valores aplicados

Por Da Redação
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ACM Neto captou dinheiro da previdência de servidores públicos para o Banco Master, apontam mensagens de Vorcaro

Foto: Reprodução/Instagram | Divulgação/Banco Master

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, apontam a atuação do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, e de Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, em articulações para captar dinheiro de institutos de previdência de servidores públicos para o banco. As informações foram divulgadas pelo UOL.

Em uma proposta de delação premiada rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro afirmou que os dois políticos atuaram em favor do banco em troca de 10% dos valores aplicados pelos fundos. As mensagens, porém, não comprovam pagamentos de comissões diretamente aos dirigentes.

Segundo as informações divulgadas, o Banco Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto. A PF solicitou mandados de busca e apreensão em endereços relacionados aos dois políticos, mas a operação não foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


Mensagens citam viagens e captações milionárias

As conversas entre Rueda e Vorcaro começaram em novembro de 2023. No dia 12 daquele mês, o diretor comercial do Master, Fernando Mascarenhas, informou ao banqueiro que havia recebido uma ligação do político e sugeriu um encontro no banco.

Dois dias depois, Mascarenhas pediu autorização para viajar a estados onde a instituição buscava captar recursos de fundos previdenciários. A viagem, realizada no jato de Vorcaro, previa reuniões em Rondônia e no Amazonas. Segundo a lista de passageiros enviada ao banqueiro, estavam a bordo Mascarenhas, Rueda e dois intermediários.

Na noite de 21 de novembro, Mascarenhas escreveu que o negócio seria grande e que “nosso amigo” resolveria R$ 1,2 bilhão até o fim do ano. Vorcaro respondeu: “Foguete”.

Foto: Reprodução/UOL

Rueda negou ter participado da viagem e afirmou que estava em São Paulo na data mencionada.


Conversas sobre operações no Amapá

Em abril de 2024, as mensagens passaram a registrar avanços em uma captação no Amapá. Mascarenhas informou a Vorcaro que havia confirmação de R$ 400 milhões. Em julho, quando uma notícia sobre uma crise envolvendo títulos do Master na Caixa Asset veio a público, o tesoureiro do banco, Alberto Felix, disse que a operação poderia ser adiada.

Felix afirmou que Rueda havia dito que seguraria as operações. Na mesma conversa, o dirigente enviou a Vorcaro a mensagem “Apaga essas mensagens” e apagou dez mensagens consecutivas. Cerca de uma hora depois, Mascarenhas informou que R$ 200 milhões haviam sido aprovados no Amapá.

Foto: Reprodução/UOL

Foto: Reprodução/UOL

Em outra mensagem, o executivo listou captações em andamento: R$ 400 milhões no Amapá, R$ 350 milhões no Rio de Janeiro, R$ 250 milhões no Amazonas, R$ 160 milhões em Campos dos Goytacazes, R$ 500 milhões em Maricá, R$ 100 milhões em Belo Horizonte e R$ 200 milhões em Alagoas.

As conversas também mencionam uma comissão relacionada à operação no Amapá. Felix registrou o valor de R$ 8,9 milhões pela consultoria de dois intermediários, Ricardo e Raphael. No dia seguinte, Vorcaro autorizou uma nota de R$ 8 milhões. Em agosto, a tesouraria do banco registrou o pagamento de R$ 11 milhões em contas a pagar, descrito como comissão do Amapá.

Foto: Reprodução/UOL

A consultoria é atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela PF como lobista de Vorcaro no Rioprevidência. As mensagens indicam que a consultoria praticava comissões de 10%, percentual semelhante ao que Vorcaro atribuiu a um suposto acordo com Rueda e ACM Neto em sua proposta de delação. Não há, contudo, registro nas conversas de pagamento direto desse percentual aos dois políticos.

Rueda nega ter participado das negociações.


Amazonas, Rio de Janeiro e benefícios citados nas conversas

Em junho de 2024, Mascarenhas informou a Vorcaro sobre uma captação de R$ 50 milhões ligada à Amazonprev, instituto de previdência do Amazonas. No ano seguinte, o lobista Julio Cezar Avelino escreveu que a operação no estado daria certo porque Rondônia pertenceria ao mesmo grupo de influência, acrescentando que ali haveria um sócio de Rueda.

O executivo Luiz Rennó também mencionou a atuação do dirigente do União Brasil ao afirmar que ele seria uma pessoa importante para o banco e teria influência em diferentes estados.

As mensagens ainda mostram Vorcaro oferecendo benefícios a Rueda. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou seus jatos executivos à disposição do político. Em maio de 2024, um avião foi enviado para transportar a família de Rueda à Fórmula 1, em Miami. Em outra conversa, após o dirigente pedir que Vorcaro cuidasse dele, o banqueiro mencionou um apartamento e uma hospedagem no hotel Rosewood, em São Paulo.


Foto: Reprodução/UOL

Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Master apresentou a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados em quatro ações, por um total de R$ 15,4 milhões.

As conversas também apontam uma aproximação entre Vorcaro e o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. Em julho de 2024, após visitar a casa de Rueda, o banqueiro enviou uma mensagem a Costa. Dois dias depois, Rueda escreveu: “PH precisando falar c vc”.


ACM Neto aparece em conversas com Vorcaro

ACM Neto também aparece nas mensagens relacionadas ao ex-banqueiro. Em setembro de 2024, ele e Rueda passaram um fim de semana na casa de Vorcaro, em Trancoso, no sul da Bahia, junto com o deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA).

No mês seguinte, ACM Neto pediu uma conversa com Vorcaro e Rueda. O encontro ocorreu em uma sala privada de uma charutaria em São Paulo. Nove dias depois, o ex-prefeito de Salvador escreveu ao banqueiro que a situação em Brasília estava consolidada e que “saiu tudo como desejávamos na política”.


Foto: Reprodução/UOL

Na semana seguinte, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, informou que estava sendo procurado por Marcos Moura, empresário conhecido como “rei do lixo” e integrante da Executiva do União Brasil. Vorcaro orientou Zettel a procurar pessoas identificadas nas mensagens como Gustavo e Minas.


Foto: Reprodução/UOL

A proposta de delação de Vorcaro, divulgada pelo UOL, afirma que ACM Neto recebia dinheiro em espécie de recursos supostamente gerados por Antônio Carlos Freixo Júnior, apelidado de Minas. As mensagens citadas, entretanto, não especificam o que teria sido entregue nem os valores envolvidos.

O material também aponta que ACM Neto teria atuado para ampliar o acesso do Master a institutos de previdência. O banco atribuiu ao dirigente a inclusão da instituição em uma lista do Ministério da Previdência de entidades elegíveis para receber recursos de regimes próprios de previdência social.


Políticos negam irregularidades

ACM Neto afirmou que nunca participou do governo federal e, por isso, não teria como interferir em decisões administrativas do Ministério da Previdência ou na inclusão do Banco Master na lista de instituições elegíveis. Também negou ter atuado para que institutos previdenciários aplicassem recursos no banco, incluindo a Amapá Previdência.

O ex-prefeito disse ainda que não conhece Fabiano Zettel e classificou como “absurda e criminosa” qualquer tentativa de associá-lo a conversas das quais afirma não ter participado. Segundo ele, os valores recebidos do Master decorreram de serviços de consultoria efetivamente prestados desde janeiro de 2023, com contratos, notas fiscais e recolhimento de impostos. ACM Neto afirmou que está à disposição das autoridades desde março de 2026 para prestar esclarecimentos.

Rueda declarou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente profissional”. Em nota, afirmou lamentar o uso de trechos isolados de informações sigilosas, que, segundo ele, foram retirados de contexto para criar suspeitas e atingir sua reputação. O dirigente disse que adotará medidas para resguardar sua honra e imagem.


Investigações sobre os fundos previdenciários

Na proposta de delação rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro atribuiu a Rueda articulações para aproximar o Master de institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

Os órgãos previdenciários dos três estados foram alvos de desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master.

No Rio de Janeiro, o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes foi preso pela PF em fevereiro de 2026. Segundo a investigação, ele teria sido indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador Cláudio Castro (PL). O órgão destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Master, conforme informações da PF.

No Amapá, um aporte de R$ 400 milhões foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que o indicou ao cargo.

No Amazonas, a autorização de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente empossado 28 dias antes, ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

As mensagens e as informações sobre a proposta de delação integram o material divulgado sobre as relações entre o Banco Master, intermediários financeiros, políticos e fundos de previdência. As acusações atribuídas a Vorcaro não equivalem, por si só, a comprovação judicial de responsabilidade dos políticos citados.

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