Bilhões de reais, máscara mortuária de Mário de Andrade e tênis de corrida: o que declaram os candidatos
Ao menos seis postulantes informaram patrimônio superior a R$ 1 bilhão

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
EDUARDO MOURA, MARINA PINHONI E NICHOLAS PRETTO - Com o início da campanha eleitoral, estão disponíveis para conferência pública os patrimônios de todos os candidatos das eleições 2026. Além de quantias bilionárias, que podem ser fruto de erros, chama a atenção a especificidade de alguns bens declarados: a lista vai de obras de arte incomuns a coleções de selos e tênis de corrida.
A autodeclaração de bens é uma exigência para o registro da candidatura, mas não há um cruzamento automático de sistemas para que as informações sejam checadas, tampouco uma conferência da autoridade eleitoral. O objetivo da prestação não é fiscal, como no Imposto de Renda, mas de dar transparência ao eleitor, além de permitir o monitoramento da evolução patrimonial dos candidatos.
Nesta eleição, ao menos seis postulantes informaram patrimônio superior a R$ 1 bilhão, mas alguns já vieram a público dizer que houve erro no preenchimento da ficha. Caso de Pablo Marçal (PRTB), que, mesmo inelegível, protocolou sua candidatura à Presidência com R$ 7,4 bilhões em patrimônio. Depois, disse em entrevista ao site Brasil Paralelo se tratar de "óbvio erro de digitação" e que enviou uma correção à Justiça Eleitoral, alterando a cifra para R$ 150 milhões.
A candidata a vice-governadora de Tocantins Lúcia Viana (PSOL) também aparece com patrimônio de R$ 2 bilhões, com imóveis e veículos de valores milionários. Em nota, o partido afirmou que o valor correto é de cerca de R$ 2,07 milhões e que "a divergência ocorreu exclusivamente em razão de equívoco na inserção dos dados".
A correção de Lúcia Viana ainda não constava no site Divulgacandcontas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) até as 11h30 desta segunda-feira (24).
OS BENS
Candidatos devem declarar bens como imóveis, veículos, participações societárias em empresas e aplicações financeiras, mas ficam de fora salários e rendimentos, que não são considerados patrimônio. Embora exista a orientação do TSE para que dados sensíveis como endereço e placa de veículos não sejam informados, o nível de detalhamento fica a critério de cada um.
Enquanto alguns incluem de forma genérica a categoria "joias e objetos de arte", outros entram em detalhes, como o professor Mauro Rosa (PL), candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ele declarou uma máscara mortuária do modernista Mário de Andrade, avaliada em R$ 150 mil. Máscaras mortuárias são modelos de um rosto moldados logo após a morte da pessoa.
De acordo com o candidato, a máscara pertencia a um colecionador que morreu por volta do ano 2000 e Rosa a arrematou num leilão, há mais de 20 anos. O artista que extraiu a máscara de Mário era um escultor chamado João Scuotto, "que se notabilizou fazendo bustos e esculturas de grandes personalidades da época", diz o postulante.
O candidato também soma à lista telas de Carlos Bracher, Alberto Guignard, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Aldo Bonadei que precifica em R$ 120 mil o conjunto, além de "uma biblioteca particular de 8.000 volumes, dos quais ao menos 500 são considerados obras raras", no valor de R$ 200 mil.
"Sou um homem dedicado à educação e à cultura, sempre fui um formador de bibliotecas", afirma o candidato, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com doutorado em literatura.
Alexandre Baldy (PP-GO) é o primeiro suplente da candidata ao Senado Gracinha Caiado (União), casada com Ronaldo Caiado (PSD). Baldy tem entre os bens declarados um relógio de R$ 1,35 milhão. Procurado pela reportagem, o candidato preferiu não dar detalhes, "por segurança, por viver num país complexo". Afirma, porém, que são vários relógios, não somente um.
Outro entusiasta dos relógios de luxo é o deputado Adriano Coelho (MDB), que tenta a reeleição no legislativo do Pará. Entre os bens, há um relógio Patek Philippe no valor de R$ 549 mil.
O candidato a vice-presidente na chapa de Renan Santos, Coronel Medina (Missão), declarou uma espada, de R$ 10 mil, descrita como uma espada de oficial de carreira de Polícia Militar do ano de 1988. À reportagem, o coronel afirma que a adquiriu na Eberle, indústria metalúrgica em Caxias do Sul. Trata-se de "uma relíquia" de seu acervo, original e adamascada, com 110 centímetros.
Medina declarou ainda uma medalha de ouro maciço alusiva ao centenário do Colégio Militar de Porto Alegre, no valor de R$ 200 mil.
Benedito Corrêa (PSB), postulante à vaga de deputado estadual em São Paulo, disse ter R$ 138 mil em bens, dos quais R$ 9.000 de doze pares de tênis de corrida, e R$ 10 mil de duas bicicletas. Há uma série de candidatos adeptos do colecionismo. Silvio Sanzone (PSD), que concorre ao cargo de deputado estadual em São Paulo, declarou uma coleção de miniaturas de trens (ferromodelismo) no valor de R$ 150 mil.
Já o Professor Fernando Moreira (Solidariedade), que tenta uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo, afirmou ter uma coleção de selos postais, também no valor de R$ 150 mil. Paulo Horn (PSB), que concorre a uma vaga de deputado estadual no Rio de Janeiro, soma uma "coleção de moedas, selos e quadros" no valor de R$ 80 mil.
O escritor Antonio Hohlfeldt, do MDB do Rio Grande do Sul, ex-vice governador, declarou uma "coleção de 30 mil livros de biblioteca particular, discos de vinil e CDs", no valor de R$ 40 mil.
"A pessoa pode considerar que um quadro é digno de ser registrado, que faz um investimento nos tênis de corrida. Então, tudo que tem relevância patrimonial para ele, é importante fazer declaração. Mas também é importante que os candidatos estejam atentos, porque isso se torna uma informação pública de relevo", diz o advogado eleitoral Hélio da Silveira.
Entre os bens, há muito dinheiro em espécie (mais de 1.800 declaram esse patrimônio), declaração de iPhone 17 PRO Max, de linha de telefone fixo, de 6,6% de um Ford Ka (caso do candidato a deputado estadual Marcelo Bolsonaro, PL), de aeronaves ou porcentagens de aeronaves, entre outros.
ENTRE A CRUZ E A ESPADA
Precificar obras de arte ou artefatos históricos costuma ser uma tarefa subjetiva e elástica. Há ainda casos em que bens são inseridos no sistema de forma não muito cartesiana. Por exemplo, na subcategoria "outros bens móveis", vários candidatos descreveram o oposto do que o campo pedia: declararam imóveis.
Para Amanda Cunha, especialista em direito eleitoral, a declaração dos bens da forma como é, sem a exigência de detalhes, é adequada, sobretudo por uma questão de competência. "Não cabe à Justiça Eleitoral avaliar a regularidade do patrimônio", afirma.
O órgão só vai atuar caso haja algum ilícito relacionado à própria gestão de campanha eleitoral, "como por exemplo uma movimentação financeira incompatível que possa indicar um caixa dois de campanha", diz.
A Justiça Eleitoral pode, por iniciativa própria ou quando provocada, exigir a declaração de bens original para verificar a veracidade das informações prestadas pelo candidato.



