Cleo Pires, terapia e o desafio de voltar a ser quem se é!

Especialista em autoamor e autodesenvolvimento, analisa os mecanismos de proteção construídos ao longo da vida e explica por que cada vez mais mulheres estão revisitando a própria história

Por Michel Telles
Às

Cleo Pires, terapia e o desafio de voltar a ser quem se é!

Foto: Redes Sociais

Cleo Pires contou recentemente em uma entrevista que iniciou seu processo terapêutico aos 17 anos e que esse caminho foi determinante para que pudesse se encontrar. “Comecei a fazer terapia porque, desde criança, tinha coisas que me acompanhavam, nos meus sentimentos, na minha forma de ver o mundo. E eu sentia que não conseguia acessar essas coisas, não conseguia elaborá-las”, relatou.

"Não tem como não haver dor. Ou você tem a dor de ser você mesma – porque as pessoas vão querer que você seja outra coisa -, ou você tem a dor de ser outra coisa. Eu escolho a dor de ser eu. O resto é problema das outras pessoas”, concluiu a atriz.

Para Renata Fornari, especialista em autoamor e autodesenvolvimento, muitas mulheres chegam à vida adulta carregando estruturas emocionais que foram fundamentais para enfrentar desafios do passado, mas que hoje limitam escolhas, relacionamentos e projetos pessoais. "Quando somos crianças, criamos recursos emocionais para lidar com aquilo que sentimos. Algumas aprendem a controlar tudo para não se decepcionar. Outras se tornam invisíveis para evitar rejeição. Há quem transforme a independência em proteção e quem interrompa os próprios sonhos antes de correr o risco de fracassar. Tudo isso faz sentido dentro de uma história. O problema surge quando essas estratégias passam a comandar a vida inteira", afirma.

Segundo Renata, essas armaduras emocionais costumam ser confundidas com traços definitivos da personalidade. A mulher que acredita ser naturalmente controladora, por exemplo, muitas vezes está apenas reproduzindo uma forma de proteção construída há anos. O mesmo acontece com quem evita pedir ajuda, se cala para não gerar conflitos ou abandona projetos importantes pouco antes de concretizá-los. "Nenhuma mulher nasceu para viver aprisionada em personagens. Essas versões surgiram porque foram necessárias em algum momento. Elas ajudaram a sobreviver. Mas existe uma diferença enorme entre sobreviver e viver".

Para Renata, essa busca crescente por terapia, autoconhecimento e desenvolvimento emocional revela uma mudança importante na forma como as mulheres enxergam suas próprias histórias. "Durante muito tempo, muitas mulheres foram ensinadas a serem fortes, eficientes, disponíveis e agradáveis. Hoje existe um movimento silencioso de mulheres que estão questionando essas exigências. Elas não querem apenas funcionar bem. Querem viver com mais verdade".

Renata também faz uma ressalva em relação à ideia de que ser autêntica necessariamente precisa ser doloroso. "Eu entendo o que a Cleo quis dizer, porque realmente existe sofrimento quando uma pessoa decide deixar de atender expectativas externas. Mas, na minha visão, a dor está justamente no movimento contrário: quando você passa anos tentando ser quem não é para conquistar aprovação, começando muitas vezes dentro da própria casa. É um esforço constante para descobrir o que esperam de você, como deve agir e quem precisa se tornar para ser aceita. O processo terapêutico ajuda justamente a libertar a mulher dessa prisão. Quando ela se permite ser quem veio ser, encontra mais leveza, verdade e paz consigo mesma. A autenticidade não é o problema, é a solução, e quando ela acontece, não existe mais dor".

Essa mudança também altera a compreensão do que significa autoamor. Na visão da especialista, o conceito tem pouco a ver com frases motivacionais ou fórmulas prontas de autoestima. "Autoamor é ter coragem para olhar para si sem máscaras. É reconhecer os lugares onde você se abandonou para atender expectativas externas. É voltar a ocupar a própria vida".

Segundo a especialista, a resposta nem sempre é confortável, mas pode ser transformadora. "Existe uma geração inteira de mulheres cansadas de sustentar versões de si mesmas que já não representam quem elas são. Cansadas de provar valor, de carregar responsabilidades excessivas e de corresponder a expectativas que nunca escolheram. Talvez uma das mudanças mais importantes deste tempo seja justamente essa disposição de deixar algumas armaduras para trás".

Para Renata, tornar-se dona de si não significa eliminar medos ou alcançar uma versão perfeita de si mesma. Significa recuperar a liberdade de fazer escolhas alinhadas com a própria essência. "Você não precisa mais ser forte o tempo inteiro. Não precisa carregar tudo sozinha. Em muitos casos, o maior ato de coragem não está em continuar se protegendo. Está em permitir que as armaduras caiam”.

E conclui: "As armaduras cumpriram sua função. Elas ajudaram você a chegar até aqui. Mas a mulher que você veio ser não precisa passar a vida sobrevivendo. Ela está pronta para viver".

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