Colômbia, Rússia e China condenam na ONU ataques contra Venezuela; 'não estamos ocupando um país', dizem EUA
Entre os países que já se pronunciaram, China, Rússia e Colômbia condenaram os ataques em Caracas

Foto: Onu News
O Conselho de Segurança das Nações Unidas teve início a sessão, nesta segunda-feira (5), que debate a legalidade dos ataques americanos à Venezuela e da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Entre os países que já se pronunciaram, China, Rússia e Colômbia condenaram os ataques em Caracas. Já o embaixador dos Estados Unidos, Mike Waltz, negou uma guerra contra a Venezuela e justificou a prisão alegando que Maduro enriqueceu as custas da miséria de venezuelanos. "Não há uma guerra. Não estamos ocupando um país", afirmou Waltz.
A representante da Colômbia, Leonor Zalabata, afirmou que o país condena os ataques na Venezuela e afirmou que a ação representa "uma evidente violação da soberania e independência política e integridade territorial". "Essas ações constituem uma grave violação do direito internacional e da carta da ONU", disse.
"A Venezuela merece viver em paz, em prosperidade, democracia e dignidade com um governo que é definido pelo próprio povo", afirmou Zalabata.
O embaixador da China, Fu Cong, afirmou que a potência está profundamente chocada e condena fortemente as ações ilegais e os atos de bullying dos EUA que já acontecem há algum tempo. Ele também pediu que os EUA devem garantir a segurança pessoal do presidente Maduro e de sua esposa.
"Nenhum país pode agir como polícia do mundo, nem qualquer Estado pode se arrogar o papel de juiz internacional. Nenhum país pode agir como polícia do mundo, nem qualquer Estado pode se arrogar o papel de juiz internacional", afirmou o representante da China.
A Rússia, representada por Vasily Nebenzya, afirma que não é possível permitir que os EUA proclamem como um tipo de juiz supremo, que tem liberdade de invadir qualquer país.
O embaixador dos EUA, Mike Waltz, justificou a ação americana e questionou que se a ONU conferire"m legitimidade a um narcoterrorista ilegítimo" e lhe derem o "mesmo tratamento previsto nesta carta que a um presidente democraticamente eleito ou chefe de Estado, que tipo de organização é essa?"
Ele relembrou que, em 2024, mais de 50 países não reconheceram a legitimidade das eleições venezuelanas e considera que Maduro é um fugitivo da Justiça. "Ele é o chefe de uma organização terrorista estrangeira violenta, o Cartel de los Soles. Essa entidade, patrocinadora do regime, se coordena e se apoia em outras organizações criminosas violentas, como o Tren de Aragua, entre outras, com o objetivo de usar narcóticos ilegais como arma contra os Estados Unidos."
Na fala de abertura, a subsecretária geral da ONU para Assuntos Políticos, Rosemary DiCarlo, leu uma declaração de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas.
"Estou profundamente preocupado com a possível intensificação da instabilidade no país, o impacto potencial sobre a região e o precedente que isso pode estabelecer para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas", disse o secretário.
"Os acontecimentos mais recentes ocorrem após um período de tensões elevadas, iniciado em meados de agosto, conforme discutido neste Conselho em duas ocasiões anteriores", disse.
"Continuo profundamente preocupado com o fato de que as normas do direito internacional não foram respeitadas."
Já Jeffrey Sachs, presidente da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU e diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade Columbia, destacou que a discussão não é sobre o caráter da Venezuela.
"A questão é se algum Estado-membro tem o direito, por meio da força, da coerção ou do estrangulamento econômico, de determinar o futuro político da Venezuela ou de exercer controle sobre seus assuntos", afirmou.
Ele afirma que o Conselho deve decidir se irá manter ou abandonar o Artigo 2º, Seção 4, da Carta das Nações Unidas, que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.
Já Mercedes De Freitas, fundadora e diretora executiva da Transparencia Venezuela, disse que organizações criminosas mantêm uma relação simbiótica com o regime de Maduro e utiliza estruturas do Estado para o tráfico de drogas, extorsão e tráfico de pessoas.
Segundo ela, a corrupção drenou as finanças públicas, deixando os cidadãos com serviços precários, insegurança alimentar e extorsões diárias praticadas por grupos armados. Ela ainda destacou que famílias dependem de apenas uma refeição por dia e acrescentou que o agravamento da impunidade alimenta a repressão, a tortura e mortes por falta de atendimento médico.
Ao defender a responsabilização, ela pediu a criação de "um Estado transparente" e a libertação de todos os presos políticos.
A sessão de emergência foi agendada após uma solicitação formal da Venezuela, que é a parte afetada, e da Colômbia, que agora é membro do conselho e crítica aos ataques dos Estados Unidos. A reunião começou às 12h. Outras nações também se manifestaram, como Libéria, Panamá, Latvia e Dinamarca.
Como a Folha de S.Paulo mostrou, apesar de o Brasil não ser um membro permanente do Conselho, existe a expectativa de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se manifeste na reunião.
Apesar do Brasil não ocupar um assento permanente no conselho, as regras da ONU permitem que Estados não membros discursem em reuniões se assim solicitarem.
Após o ataque, Lula criticou a ação dos EUA e disse que os ataques ultrapassam uma "linha inaceitável". Em sua conta na plataforma X, Lula escreveu que "atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo".
"A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões", disse o presidente.
A Colômbia, membro não permanente do conselho, também foi ameaçada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou na noite deste domingo (4), que gosta da ideia de uma operação militar contra a Colômbia.
"A Colômbia é governada por um homem doente, que gosta de produzir e enviar cocaína aos Estados Unidos, e ele não vai fazer isso por muito mais tempo", disse o republicano a repórteres a bordo do Air Force One, o avião presidencial dos EUA, referindo-se a Gustavo Petro, presidente da Colômbia.
Uma reunião que aconteceu no domingo, comandada pelo Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), terminou sem consenso e com apelo da Venezuela por libertação de Maduro.
A organização está rachada e tem países que apoiam abertamente a ação militar ordenada por Donald Trump, como é o caso da Argentina de Javier Milei. Dessa forma, o encontro de domingo terminou sem a publicação de um comunicado conjunto algo já esperado por negociadores, justamente pelas posições divergentes já serem conhecidas.
O chanceler chavista, Yvan Gil, afirmou que o governo Trump está interessado nos recursos naturais da Venezuela. Ele disse que Maduro foi sequestrado pelos americanos.
Ainda nesta segunda, às 14h, o ditador venezuelano deve comparecer a sua primeira audiência, perante um juiz de Nova York. Tanto Maduro quanto sua esposa serão apresentados ao magistrado Alvin K. Hellerstein sob diversas acusações, como narcotráfico, posse ilegal de armas e narcoterrorismo.


