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De olho em Trump, Islândia faz referendo sobre adesão à UE

Suspenso após as eleições locais em 2013, o processo de adesão era uma disputa política interna adormecida

Por FolhaPress
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De olho em Trump, Islândia faz referendo sobre adesão à UE

Foto: Divulgação

JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Algo acontece quando até o Canadá cogita fazer parte da União Europeia. Neste sábado (29), quem pode decidir se aproximar da Europa e se afastar dos Estados Unidos de Donald Trump é a Islândia, que decide em referendo sobre a retomada das negociações para aderir ao bloco.

Suspenso após as eleições locais em 2013, o processo de adesão era uma disputa política interna adormecida. Porém, como quase tudo no mundo nestes últimos dois anos, ganhou renovado impulso graças às bravatas do presidente americano, notadamente seu desejo de anexar a vizinha Groenlândia.

A Islândia até foi citada algumas vezes por Trump, mas por erro do bilionário, que trocou o nome do território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca pelo do país insular em manifestações à imprensa e discursos. Um equívoco de ao menos 300 quilômetros, a distância entre a Islândia e o ponto mais próximo da costa groenlandesa.

Instado ou não pelo lapso, em março passado o assunto saiu da gaveta por iniciativa do governo islandês. Além de Trump, as aventuras de Rússia e China pelo Ártico cada vez mais derretido pelas mudanças climáticas também preocupam o gabinete da primeira-ministra, Kristrún Frostadóttir.

A Islândia não tem Exército. Desde sua independência da Dinamarca, em 1944, empresta seu território estratégico e remoto em troca de proteção. Com menos de 400 mil habitantes, população de uma cidade média no Brasil, não tem gente suficiente para compor forças de defesa. Ainda assim, é um dos 12 países fundadores da Otan, a aliança militar ocidental criada em 1949, e tem acordos de cooperação com os EUA desde 1951.

"Trump tem sido bastante eloquente, não apenas no ano passado, mas repetidas vezes. Isso é algo que faz as pessoas nas ruas pensarem", afirmou em entrevista ao site Politico Dagur Eggertsson, um dos líderes da campanha pelo "sim" e ex-prefeito de Reykjavik.

Segundo as últimas pesquisas, o "sim" aparece numericamente à frente nas intenções de voto, 51,3% contra 48,7%, diferença inferior à margem de erro. O placar apertado, segundo especialistas, reflete divisões antigas que o assunto suscita na sociedade islandesa, não qualquer tipo de condescendência em relação a Trump.

Aderir à UE, por exemplo, significa passar a obedecer a uma série de regulações no setor de pesca, que há décadas afasta Reykjavik de Bruxelas. No caso da Islândia, um dos três países do mundo que ainda permitem a caça de baleias, a pesca é atividade econômica importante (40% das exportações) e um dos fundamentos de sua identidade cultural.

Uma discussão que também envolve o conceito de soberania, milenar no caso do país insular. Seu Parlamento, Althing, é um dos mais antigos do mundo, estabelecido por volta do ano 930, auge da era viking.

Ao mesmo tempo, um pensamento pragmático, principalmente de eleitores mais jovens, trabalha com a possibilidade de ganho econômico com a adesão. O euro é mais estável do que a moeda local, a coroa islandesa, e a inflação do bloco é mais baixa, assim como os custos de crédito e habitação.

Para Bruxelas, uma vitória do "sim" seria um presente. Desde a ascensão de Trump e de sua política ambígua em relação à guerra da Ucrânia, são raros os momentos de boas notícias para o bloco. Na busca por alternativas ao mercado americano e à competição chinesa, fechou ou concluiu acordos com Mercosul, México, Indonésia e Índia.

A Islândia já faz parte da Área Econômica Europeia (EEA, na sigla em inglês), que estende o mercado comum a países não membros do bloco. Uma eventual adesão, que teria de ser ratificada após as negociações por nova consulta popular, poderia trazer um bônus: pressionar a Noruega, outro país da EEA, a também avançar na integração.

Os noruegueses, que alimentam um debate interno semelhante ao dos islandeses em relação à UE, já recusaram a adesão ao bloco por meio de dois referendos, em 1972 e 1994. O eventual agravamento do cenário geopolítico, porém, pode, como na Islândia, servir de gatilho para uma nova campanha pró-UE.

Restaria então o Canadá, convidado a compor o bloco por um eurodeputado durante um discurso no Parlamento, em Estrasburgo, no ano passado. Uma anedota contra as ameaças de Trump, já que apenas países europeus podem fazer parte do bloco.

Sinal dos tempos, Mark Carney, primeiro-ministro canadense, foi convidado a acompanhar na mesma Casa, em 16 de setembro, o discurso anual de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Será o primeiro chefe de Estado estrangeiro a participar do evento.

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