Do Credicesta à Compliance Zero: como Jaques Wagner passou a integrar o caso Master

Entenda os principais acontecimentos que explicam como a investigação chegou no senador

Por Ane Catarine Lima
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Do Credicesta à Compliance Zero: como Jaques Wagner passou a integrar o caso Master

Foto: Divulgação/ Jefferson Rudy

A Polícia Federal (PF), por meio da Operação Compliance Zero, segue colocando no olho do furacão figuras públicas ligadas às fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. Na mais recente fase da investigação federal, realizada no último dia 18, o alvo foi o senador Jaques Wagner (PT).

Um dos petistas mais próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Wagner se viu sem saída após a PF acusá-lo de atuar no Legislativo em favor das demandas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro — principal acionista do Banco Master, atualmente em liquidação pelo Banco Central.

Como moeda de troca, segundo as investigações, o senador baiano teria recebido um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões e ingressos para o camarote de um show em Los Angeles, que teriam custado mais de R$ 60 mil. Em outro movimento de suposta propina, a empresa da esposa de um enteado de Wagner teria sido agraciada com um repasse milionário de R$ 3,5 milhões.

O impacto das revelações foi tamanho que, apesar de negar as acusações, Jaques Wagner perdeu o posto de líder do governo no Senado Federal

Para entender a ligação do senador com o caso Master, o Farol da Bahia reuniu os principais acontecimentos da investigação em uma linha do tempo.

Confira abaixo:

• 2007 (criação do Credicesta)

O governo da Bahia, sob a gestão de Jaques Wagner, cria o Credicesta, cartão de benefícios com crédito consignado destinado aos servidores estaduais. Inicialmente, o programa é operado pela Empresa Baiana de Alimentos (Ebal).

• 2018 (privatização da Ebal)

Após sucessivos prejuízos, o governo da Bahia decide privatizar a Ebal. Para viabilizar a venda após leilões sem interessados, o Estado altera o edital, assume passivos da empresa, amplia o prazo de gestão e concede exclusividade na margem consignável dos servidores.

O controle do Credicesta é adquirido pelo empresário Augusto Lima.

• A partir de 2018 (aproximação com o Banco Master)

Para ampliar as operações do Credicesta, Augusto Lima firma parceria com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a investigação, a relação aproxima os interesses do grupo financeiro do núcleo político ligado a Jaques Wagner.


Foto: Divulgação (Jaques Wagner e Augusto Lima)

• Agosto de 2024 (reuniões e atuação no Congresso)

Mensagens e áudios obtidos pela Polícia Federal mostram Jaques Wagner convidando Augusto Lima para reuniões reservadas em seu gabinete, em Brasília, para discutir assuntos relacionados ao Banco Master.

No mesmo período, a PF afirma que o senador atuou para buscar apoio à proposta que elevava o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. Segundo os investigadores, a medida beneficiaria investidores do Banco Master.

• Novembro de 2024 (repasses sob investigação)

Relatórios da PF apontam que uma empresa BN Financeira Ltda., ligada à esposa de Eduardo Mendonça Sodré Martins (enteado do senador Jaques Wagner), recebeu R$ 3,5 milhões por contratos de consultoria jurídica classificados pelos investigadores como "nebulosos".

• Março de 2025 (mensagem polêmica de Augusto Lima)

Augusto Lima envia mensagem a Jaques Wagner afirmando: "Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso".

Segundo a PF, a conversa ocorreu enquanto Wagner atuava politicamente junto ao governo federal em defesa da proposta de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

• Meados de 2025 (apartamento de luxo)

Mensagens extraídas pela investigação apontam negociações para a aquisição de um apartamento de alto padrão em Salvador, avaliado em R$ 2,4 milhões, que, de acordo com a PF, seria destinado a familiares de Jaques Wagner por meio de ocultação patrimonial.

• Fim de 2025 (liquidação do Banco Master)

Após enfrentar uma grave crise de liquidez e ser alvo de investigações por supostas fraudes, o Banco Master entra em processo de liquidação determinado pelo Banco Central. As apurações avançam e passam a alcançar agentes públicos e políticos.

• 4 de março de 2026 (prisão de Daniel Vorcaro)

Na terceira fase da Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro é preso pela Polícia Federal. A quebra de sigilos e a análise de mensagens apreendidas ampliam a investigação e abrem uma nova frente de apuração sobre a atuação de agentes políticos.

• Junho de 2026 (Jaques Wagner entra na mira da PF)

Na nona fase da Operação Compliance Zero, Jaques Wagner torna-se alvo da investigação. A Polícia Federal cumpre mandados de busca em sua residência oficial e apreende relógios de luxo e US$ 49 mil em espécie.

Uma semana depois, sob pressão política, o senador deixa a liderança do governo no Senado após reunião com o presidente Lula. A justificativa apresentada é a dedicação integral à defesa no processo.

O que diz o senador

Jaques Wagner nega qualquer irregularidade. Segundo o senador, a negociação do apartamento de luxo se restringiu a uma promessa de compra e venda que não foi concluída.

Ele afirma ainda que orientou a bancada do governo a votar contra emendas que favoreceriam o Banco Master e sustenta que o dinheiro apreendido em sua residência era proveniente de diárias parlamentares.

Wagner também classificou como "patacoada" a divulgação da foto com cédulas de moeda estrangeira apreendidas pela Polícia Federal no apartamento onde mora em Brasília. O senador admitiu, porém, manter relação com o banqueiro e ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima.

Veja o resumo no infográfico:

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