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Dois de Julho e a emancipação nacional: a história celebrada e as memórias em disputa

Historiadora contesta o holofote exclusivo em Cachoeira na luta pela emancipação da Bahia

Por Kaylane Matos
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Dois de Julho e a emancipação nacional: a história celebrada e as memórias em disputa

Foto: Kaylane Matos

O feriado do Dois de Julho, celebrado no Bairro da Lapinha, em Salvador, nesta quinta-feira (2), marca a expulsão das tropas de Portugal na Bahia. Enquanto os livros didáticos tradicionais contam a história da Independência do Brasil selada às margens plácidas do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, o povo baiano lembra que a liberdade foi conquistada sob o rastro da pólvora, sangue e da união popular no 2 de julho de 1823.

Historiadores recordam que, sem a vitória baiana sobre as tropas portuguesas, o Brasil teria se fragmentado mantendo o Norte e o Nordeste colônias de Portugal. Todos os anos, a força dessa história é celebrada no tradicional desfile cívico do 2 julho nas ruas, em um cortejo que toma as ruas, o centro histórico de Salvador  e as principais cidades do interior do estado, celebrando uma conquista popular.

Mércia Lima frequenta o evento há muitos anos, ao lado do seu filho Pedro Akil de 17 anos desde sua infância. Segundo ela, o desfile é "um universo de música, de canto e que expõe a continuidade da luta do povo baiano para perpetuar o poder que nós temos de liberdade", declarou. 

Para a historiadora e mestre em Memória Social, Dra. Priscila Cabral, todo esse engajamento e o peso simbólico da data no estado acontecem por conta do protagonismo popular na luta. " O 2 de julho é uma festa popular, são as pessoas que fazem a festa, assim como no passado foram os populares, essa diversidade que compõe a sociedade baiana, com seus conflitos, contradições e com seus ideais de liberdade distintos, mas que foram fundamentais para esse processo acontecer.", declara Priscila. 

Mais de dois séculos após a conquista, os bastidores da historiografia vivem uma disputa de narrativas: se por um lado Salvador celebra a glória da festa e Cachoeira detém o título de coração da resistência, um novo debate sobre a participação de outras cidades do recôncavo na libertação da nação. Pesquisadores reivindicam o resgate da memória de Santo Amaro no pioneirismo político e militar da batalha de emancipação. 

Santo Amaro e a batalha oculta

A tese que confirma que a luta armada e política iniciou apenas em 25 de junho de 1822, na Vila de Cachoeira, vem sendo contestada. Documentos históricos e  trabalhos de pesquisadores do Recôncavo revelam uma história muito mais complexa, rasurada por conveniências políticas modernas e pelo apagamento institucional. 

No dia 14 de junho de 1822, Santo Amaro tomou uma decisão audaciosa, a Câmara assinou uma ata de vereança apoiando Dom Pedro I e rejeitando às ordens opressoras de Lisboa. Para a historiadora e estudante de direito Ilmara Cecília, a história comete uma grande falha ao atribuir apenas a Cachoeira o holofote exclusivo da resistência. Ilmara revela que a narrativa que coloca o início dos combates em Cachoeira, no dia 25 de junho, esconde uma convivência incômoda.  

"Cachoeira não entrou na batalha por vontade própria. Ela foi conivente com as tropas portuguesas, aceitou o navio de guerra da corte lá desde o dia 24, ela não só não é protagonista, como nem queria entrar nessa guerra; ficou sem escolha quando os tiros começaram. E quem vai para lá e ganha aquela batalha é Santo Amaro, junto com São Francisco do Conde. Cachoeira leva um mérito que eles nem merecem.", dispara a professora.

Cecília destaca como a mudança de holofote e, consequentemente, o apagamento de Santo Amaro trouxe perdas práticas, culturais, turísticas e de investimento para a cidade. "A cidade foi sendo varrida para fora da história, ficando meramente como o lugar do entretenimento, de Caetano e Bethânia. O Brasil deve sua soberania a Santo Amaro." .

Apesar das provocações trazidas pela historiadora santamarense, Priscila Cabral lembra dos avanços recentes que permitem rever esse passado e entender os processos históricos das lutas emancipatórias. "O grande lance do 2 de Julho é que ele se contrapõe a essa narrativa oficial que foi estabelecida lá atrás por Dom Pedro e seus correligionários, é a oportunidade de trazer à tona uma justiça histórica para atores que normalmente ficam apagados.'' pontua Cabral.

Entre os avanços, Priscila pontua ainda o decreto federal do governo Lula (PT) que reconhece o 2 de julho como uma data da consolidação da independência do país, marcando presença constante nos desfiles. No entanto, neste ano, o presidente Lula não participará dos cortejos por razões médicas .É a primeira falta desde que era pré-candidato à presidência em 2022. 

Confira a programação do festejo

Terça-feira (30/06) -
Manhã (7h)
: Saída dos Fogos Simbólicos de Cachoeira (Recôncavo Leste) e Mata de São João (Recôncavo Norte) rumo a Salvador. 
Quarta-feira (01/07)- 
Manhã (9h): Celebração do Te Deum e encontro dos Fogos Simbólicos em Simões Filho
Tarde: Chegada do Fogo Simbólico ao Largo de Pirajá com hasteamento de bandeiras, e execução do Hino Nacional
Noite: Show do Cortejo Afro. 
Quinta-feira- 2 de julho
Manhã (6h às 8h)
: Alvorada com queima de fogos na Lapinha, seguida pelas cerimônias cívicas de hasteamento das bandeiras com a Banda da Marinha. 
Manhã (9h): Início do grande desfile cívico com os Caboclos de Itaparica, fanfarras, filarmônicas e grupos populares 
Tarde (16h): Desfile no Campo Grande e Encontro de Filarmônicas
Sexta-feira (03/07)-
Noite (19h):
 palco no Campo Grande, acontecem os shows de Gerônimo e Banda Montserrat 
Domingo (05/07)-
Tradicional Volta da Cabocla: retorno dos carros dos caboclos do Campo Grande para o Pavilhão da Lapinha, com a participação da orquestra do maestro Reginaldo de Xangô. 

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