Dólar fecha em alta com aumento das tensões entre EUA e Irã; Bolsa recua

Por FolhaPress
Às

Dólar fecha em alta com aumento das tensões entre EUA e Irã; Bolsa recua

Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

O dólar fechou em alta de 0,28%, a R$ 4,9666, nesta segunda-feira (4), com relatos de ataques do Irã a navios no estreito de Hormuz elevando a incerteza e a cautela entre investidores durante o pregão.

O comportamento da divisa acompanhou o exterior: o índice DXY, que mede o desempenho do dólar em relação a outras seis moedas fortes, avançou 0,25%, a 98,41 pontos. Impactada pela aversão ao risco, a Bolsa de Valores brasileira recuou 0,87%, a 185.600 pontos. Nos EUA, as Bolsas também fecharam no negativo, com os índices S&P 500, Dow Jones e Nasdaq tendo quedas entre 0,19% e 1,13%.

As taxas DIs, referências das expectativas para o futuro da taxa básica de juros, a Selic, também subiram, com avanços próximos dos 20 pontos-base. O DI para janeiro de 2028 fechou em 13,960%, em alta de 17 pontos-base ante o ajuste de 13,791% da sessão anterior. Na ponta longa da curva, a taxa para janeiro de 2035 estava em 13,890%, com elevação de 19 pontos-base ante o ajuste de 13,698%.

Nesta segunda-feira, a Marinha do Irã afirmou ter impedido a entrada de navios de guerra dos Estados Unidos no estreito de Hormuz. Segundo a agência semioficial iraniana Fars, dois mísseis teriam atingido um navio de guerra norte-americano perto do porto de Jask, onde fica a base da Marinha de Teerã.

A informação foi negada por Washington. O Comando Central dos EUA, responsável pelo bloqueio de embarcações do Irã, afirmou que nenhuma embarcação do país foi atingida e que escoltou dois navios destróieres da Marinha dos EUA, equipados com mísseis guiados, pelo estreito.

Durante a tarde, uma importante zona da indústria petrolífera dos Emirados Árabes Unidos foi alvo de um ataque de drones. A suspeita é de que o Irã foi responsável pela ofensiva, que feriu ao menos três pessoas.

O cenário se tornou mais instável ao longo do final de semana. Na sexta-feira (1º), o Irã enviou uma nova proposta de paz aos EUA. No sábado (2), Trump afirmou que irá analisar a proposta enviada por Teerã, mas disse estar cético quanto aos termos apresentados. O republicano também disse que a retomada de ataques contra o Irã é possível.

As duas partes firmaram um cessar-fogo temporário em 8 de abril, após quase 40 dias de bombardeios entre os países no Oriente Médio.

Em 21 de abril, Trump anunciou a prorrogação da trégua contra o Irã. O norte-americano não especificou um prazo, informando que o cessar-fogo será estendido até que Teerã apresente uma proposta e as negociações entre os países sejam concluídas.

O conflito no Oriente Médio tem sido responsável pelo bloqueio do fluxo no estreito de Hormuz, via por onde passa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo e gás. A paralisação tem sido responsável pela disparada dos preços de petróleo e pelo temor de um repique inflacionário global.

Para Lucca Bezzon, especialista em inteligência de mercado da Stone X, o pregão, esvaziado de indicadores econômicos, é direcionado para as tensões. "O principal fator de atenção segue sendo o conflito no Oriente Médio. O ambiente segue hostil entre os países e deve continuar gerando volatilidade nos mercados", afirma.

Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, também diz que o foco está no cenário externo. "Impacta diretamente as commodities, a inflação esperada e os juros no mundo todo. Com o aumento do risco, o investidor tende a buscar proteção: o dólar ganha força e a Bolsa sofre pressão".

No exterior, o preço do petróleo Brent, referência global, avança 2,49%, a US$ 114,03 por volta das 17h. Na máxima, o barril chegou a US$ 115,24, às 13h (horário de Brasília), alta de 6,54%.

No cenário doméstico, o lançamento do Desenrola 2.0 também esteve no radar. O programa permitirá que brasileiros que recebem até cinco salários mínimos (R$ 8.105) renegociem dívidas com instituições financeiras.

O programa dará descontos de até 90% na dívida de consumidores, vai limpar o nome de quem deve até R$ 100 e permitirá o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) ou até R$ 1.000 —o que for maior— para pagar os débitos. Serão liberados até R$ 8,2 bilhões em resgates no fundo. O programa irá proibir os participantes de apostarem online, nas chamadas bets, como medida de contenção aos gastos.

Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, o programa tende a beneficiar as instituições financeiras no curto prazo, com receitas de clientes inadimplentes, "mas também pode reacender dúvidas sobre o impacto fiscal".

Gabriel Cecco também destaca o impacto do anúncio do programa. "O Desenrola é uma pauta relevante. O programa pode ajudar a reduzir a inadimplência e limpar o nome de consumidores, o que é positivo principalmente para bancos e varejo. Por outro lado, o mercado pode enxergar algum risco adicional", diz.

Instituições financeiras veem um movimento de reversão no ânimo do cenário doméstico, que beneficiou Bolsa e real, mas ainda mantêm previsões positivas. Enquanto, no começo de abril, o Ibovespa se aproximou dos 200 mil pontos, o índice desvalorizou nas semanas finais do mês, com devolução de parte da valorização acumulada.

"O mercado continuou fortemente influenciado pelo choque de oferta nas commodities energéticas —especialmente petróleo e gás natural liquefeito—, associado aos conflitos no Oriente Médio. A dinâmica alternou momentos de expectativa por algum tipo de trégua com episódios que reforçaram o risco de uma disrupção prolongada da oferta global de energia", diz o banco Itaú em carta a investidores.

O XP tem análise similar, mas destaca que as projeções continuam animadoras no médio prazo. Para a instituição, a Bolsa deve terminar 2026 a 205 mil pontos.

"A Bolsa brasileira passa por um movimento de correção, que acreditamos poder continuar no curto prazo, em função de fatores técnicos, posicionamento e fluxos. Ainda assim, seguimos vendo o Brasil como um vencedor relativo no cenário global e esperamos que os fluxos permaneçam positivos para emergentes e para o país, especialmente com a redução dos riscos geopolíticos", afirma em relatório.

No acumulado de abril, o dólar registrou queda de 4,39%, e a Bolsa, queda de 0,07%, próxima da estabilidade. No ano, a moeda tem baixa de 9,76%, enquanto o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, acumula alta de 16%.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie:[email protected]
*Os comentários podem levar até 1 minutos para serem exibidos

Faça seu comentário