“Ela entrou enxergando e saiu cega”: diz filha de paciente após mutirão em Salvador
Idosos ficaram com sequelas graves após cirurgias de catarata

Foto: Arquivo Pessoal
A filha de uma idosa de 72 anos que perdeu a visão após passar por uma cirurgia de catarata em um mutirão oftalmológico realizado em Salvador afirmou que a mãe saiu da clínica sentindo dores intensas e sem receber o acolhimento adequado. O relato foi feito em entrevista ao Farol da Bahia, nesta quarta-feira (20) após a Justiça determinar o afastamento de três médicos investigados por supostas irregularidades nos procedimentos realizados em fevereiro deste ano.
Segundo Eronildes Ribeiro, filha de Maria Ribeiro de Brito, de 72 anos a mãe já havia realizado uma cirurgia no olho esquerdo em dezembro e retornou à clínica no dia 26 de fevereiro para operar o olho direito: “Ela saiu reclamando de dor, dizendo que estava diferente da primeira cirurgia. O médico disse que era normal”, contou.
De acordo com Eronildes, a idosa passou a madrugada sentindo dores intensas, com secreção e sem conseguir dormir. No retorno à unidade, no dia seguinte, familiares encontraram outros pacientes com sintomas semelhantes. “Tinha gente com muita dor, desmaiando. Os pacientes ficaram trancados numa sala, sem familiares, sem alimentação e sem informação do que estava acontecendo”, afirmou.
Ainda segundo ela, os pacientes receberam aplicações de antibiótico sem autorização formal das famílias.
“Só entregaram o termo para assinar no sábado, depois da aplicação”, relatou.
Arquivo pessoal
Maria Ribeiro segue em acompanhamento médico após perder a visão do olho operado. Segundo a filha, médicos informaram que o quadro é irreversível, mas a família busca uma segunda opinião médica na tentativa de recuperar parcialmente a visão.
“Ela entrou enxergando, não estava cega. Hoje, não consegue mais realizar tarefas básicas do dia a dia. Isso mudou completamente a vida dela”, disse Eronildes.
A família afirma que a paciente passou por aplicações de antibióticos e posteriormente por uma vitrectomia, cirurgia em que foi utilizado óleo de silicone para preservar estruturas internas do olho. Mesmo assim, ela segue com deslocamento de retina e perda visual.
“Um médico disse que não havia mais o que fazer. Outro especialista nos deu esperança porque ela ainda consegue perceber luz. Não é só uma lesão física. Tem um sofrimento psicológico enorme para os pacientes e para quem cuida deles”, desabafou.
A paciente que reside em Acajutiba, que fica cerca 182 km da capital baiana, segue fazendo a viagem de um município para o outro em busca de um tratamento e na espera de recuperar a visão que perdeu devido ao procedimento realizado na Clinica oftalmológica.
Advogada pede bloqueio de bens e indenizações
Reprodução/Linkedln
A advogada Eveline Santos, que representa parte das vítimas, informou que entrou com ações indenizatórias e pedidos liminares de bloqueio de bens da clínica investigada. Segundo ela, também foi solicitado judicialmente o acesso a documentos clínicos dos pacientes.
“Os pedidos envolvem indenizações que orbitam em torno de R$ 700 mil para cada ação”, detalhou.
Segundo Eveline, além da clínica e os profissionais investigados, a Prefeitura de Salvador também deve ser acionada judicialmente por conta da realização dos procedimentos por meio do sistema único de saúde.
Ainda conforme a advogada, além dos pacientes, familiares também foram incluídos nos processos por terem tido a rotina afetada após as sequelas deixadas pelas cirurgias: "As famílias também se tornaram vítimas dessa situação”, explicou.
Médicos foram afastados após investigação
Três médicos investigados pela Polícia Civil foram afastados das atividades por determinação judicial nesta quarta-feira (20). A decisão ocorreu durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão em uma clínica hospitalar no bairro da Federação, em Salvador.
Segundo a Polícia Civil, ao menos 33 pacientes idosos apresentaram complicações graves, incluindo perda parcial e irreversível da visão.
Durante a operação, foram apreendidos computadores, documentos médicos, livros de esterilização, receitas e materiais que serão analisados pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT).
A clínica foi procurada, por meio da assessoria de comunicação, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), disse que tramitam no Tribunal de Ética Médica três denuncias, que estão na fase de análise e admissibilidade, e quatro sindicâncias relacionadas ao caso Clisan.
A Cremeb diz que "está respeitando as normas vigentes ao manter o sigilo processual e possibilitando o amplo direito de defesa e contraditório" e que "após eventuais sanções transitarem em julgado, serão devidamente publicadas para conhecimento da sociedade".
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