Fim da escala 6x1 exigiria 288 mil trabalhadores que a construção não consegue encontrar
A CCJ do Senado aprovou nesta quarta-feira (2) o relatório da PEC.

Foto: Agência Brasil
SÃO PAULO, SP - ANA PAULA BRANCO - Enquanto o Congresso Nacional acelera a tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que extingue a jornada 6x1, construtoras e incorporadoras acompanham com preocupação os possíveis efeitos da medida sobre cronogramas, custos e contratação de mão de obra. A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou nesta quarta-feira (2) o relatório da PEC. O texto ainda precisa ser analisado pelo plenário do Senado, em dois turnos.
Estimativas do setor apontam que seria preciso contratar cerca de 288 mil trabalhadores para compensar a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas. O problema é que esses profissionais não existem hoje no mercado. A discussão sobre a jornada chega quando a construção já lida com uma escassez de mão de obra qualificada. Apesar dos avanços em industrialização e tecnologia, os canteiros continuam dependentes de profissionais como pedreiros, carpinteiros, armadores, serventes e operadores de máquinas. Construtoras de todo o país relatam dificuldades para preencher vagas nas funções que sustentam o ritmo das obras.
"O desafio hoje não é falta de ocupação das equipes, mas justamente a carência de profissionais disponíveis para atender à demanda" afirma Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), à reportagem.
Ainda que defendam cautela na discussão sobre a redução da jornada, entidades da construção veem possíveis efeitos positivos de modelos mais flexíveis de trabalho. O SindusCon-SP avalia que uma maior autonomia para organizar horários pode tornar a atividade mais atraente para novos profissionais e contribuir para ampliar a participação feminina nos canteiros.
A preocupação do setor vai além do aumento da folha de pagamento. Diferentemente de outras atividades, a construção opera em cadeia: uma etapa depende da conclusão da anterior. Quando uma frente de trabalho atrasa, toda a cadeia seguinte é afetada, diz Estefan.
Entre as etapas mais afetadas estariam fundações, estruturas e revestimentos de fachada. Como estão no caminho crítico da obra, qualquer atraso tende a se espalhar pelo restante do cronograma e adiar a entrega do empreendimento.
"Nas fundações, a redução dos dias trabalhados pode gerar ociosidade de equipamentos pesados. Já na estrutura e no revestimento de fachada, por serem atividades sequenciais, o impacto é o aumento dos prazos de execução e entrega", afirma o presidente do Sinduscon-SP.
Na dinâmica de uma obra, até o sábado exerce uma função estratégica. O dia costuma funcionar como uma espécie de reserva técnica dos cronogramas, utilizada para recuperar tempo perdido por chuvas, interrupções de fornecimento ou outros imprevistos frequentes nos canteiros.
Pelas simulações feitas pelo setor, um prédio residencial que hoje levaria 30 meses para ser concluído poderia demandar aproximadamente 33 meses em um cenário de jornada de 40 horas semanais. O atraso não significa apenas esperar mais pela entrega das chaves. Obras mais longas exigem mais dinheiro, ampliam despesas administrativas e prolongam contratos com fornecedores e prestadores de serviços. Além disso, muitos empreendimentos já foram vendidos com datas de entrega estabelecidas, dizem integrantes do setor.
"O principal efeito seria a maior pressão sobre o fluxo de caixa, já que a obra passaria a demandar mais tempo e capital para entregar o mesmo produto", afirma Estefan. "Precisamos de um encaminhamento que não penalize tanto o setor, sobretudo porque há muitos contratos que foram firmados com as regras vigentes", pontua Ely Wertheim, vice-presidente da Cbic.
Segundo cálculos da Cbic, a redução da jornada poderia elevar em até 15% os custos de mão de obra, com impacto estimado em R$ 155,6 bilhões por ano para o setor.
A entidade argumenta que a conta seria mais pesada justamente para a habitação popular. Como a mão de obra representa parcela maior do custo total desses empreendimentos, qualquer aumento tende a produzir efeito mais significativo sobre o preço final. Para quem busca a casa própria, a consequência pode ser direta. Estimativas da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras) apontam que os preços dos imóveis poderiam subir cerca de 5,5%. A associação calcula que esse aumento teria potencial para retirar aproximadamente 2,5 milhões de famílias das condições de acesso ao financiamento habitacional.
O impacto, segundo a entidade, também alcançaria programas habitacionais abastecidos por recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Com imóveis mais caros, o mesmo volume de recursos financiaria um número menor de moradias.
Embora o setor venha ampliando investimentos em industrialização, digitalização, inteligência artificial aplicada ao planejamento e sistemas construtivos modulares, representantes da construção afirmam que a tecnologia ainda não é capaz de compensar, no curto prazo, uma redução ampla da jornada.
A Cbic afirma que a produtividade da construção brasileira melhorou nos últimos anos, mas ainda não avançou o suficiente para absorver uma mudança dessa magnitude sem efeitos sobre custos e prazos. O setor diz não ser contrário a medidas que ampliem a qualidade de vida dos trabalhadores, mas defende que a discussão sobre redução da jornada seja acompanhada de um debate mais amplo sobre produtividade. Por isso, Cbic e SindusCon afirmam que eventuais alterações sejam acompanhadas de um período de transição e de medidas voltadas ao aumento da produtividade.
As maiores preocupações estão concentradas nas pequenas e médias construtoras, que possuem menos acesso a crédito e menor capacidade de investir rapidamente em industrialização e ganho de produtividade. Para a Cbic, uma mudança abrupta poderia acelerar movimentos de consolidação do mercado e aumentar a pressão sobre margens já apertadas.
A proposta aprovada pelos deputados prevê uma transição de 14 meses para a jornada de 40 horas. Contudo, entidades como a Abrainc pedem um fôlego maior, de, pelo menos, 60 meses, para que o setor consiga adaptar seus ciclos longos de produção, que duram de três a quatro anos.



