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Foragida da Justiça brasileira, Carla Zambelli ajuda a comandar campanha da mãe à Câmara

Rita diz ter os mesmos princípios e valores da filha, condenada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em dois processos distintos.

Por FolhaPress
Às

Foragida da Justiça brasileira, Carla Zambelli ajuda a comandar campanha da mãe à Câmara

Foto: Lula Marques / Agência Brasil

LUANA LISBOA

Mesmo foragida da Justiça brasileira e à espera do desfecho de um processo de extradição em aberto na Itália, Carla Zambelli (PL-SP) participa ativamente da campanha da mãe à Câmara dos Deputados por São Paulo. E isso segundo a própria candidata, Rita Zambelli, 76.

A ex-deputada participa das decisões sobre pautas de campanha, ajuda a produzir o material publicado nas redes e grava vídeos em que pede voto para os integrantes da família: além de Rita, o irmão Bruno Zambelli (PL-SP) é candidato à reeleição na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Rita diz ter os mesmos princípios e valores da filha, condenada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em dois processos distintos.

No primeiro, por invadir o sistema do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e emitir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes, recebeu pena de dez anos, com perda de mandato como efeito automático da condenação —a Câmara rejeitou a cassação em plenário, mas Zambelli renunciou ao cargo dias depois.

No segundo processo, relativo ao episódio em que sacou e apontou uma arma contra um homem em São Paulo, ela foi condenada a cinco anos e três meses, em regime semiaberto.

Em junho de 2025, um mês após ser condenada pela invasão do CNJ, Zambelli fugiu para a Itália, onde foi presa em julho daquele ano e solta em maio de 2026.

O Brasil pediu a extradição da ex-deputada por essa primeira condenação, mas a Justiça italiana negou a medida. Com isso, o governo brasileiro fez nova demanda, agora relativa ao caso da arma. Esse segundo pedido segue em aberto e deve retornar à Corte de Apelação italiana a partir de outubro.

Durante o período em que Zambelli esteve detida em Roma, filha e mãe se comunicavam por meio de carta, com atraso de dois a três dias por mensagem e conteúdo submetido a controle prévio antes de chegar às mãos da ex-deputada.

"Não falávamos de política. Eu procurei o mínimo possível levar mais problemas para ela de fora. Ela estava numa situação difícil, então, eu, como mãe, só procurava dar apoio, fazer orações, e pedia a Deus por ela", diz Rita.

Segundo a candidata, o processo se dava da seguinte forma: os emails enviados por ela eram impressos e entregues fisicamente a Zambelli na prisão; as respostas, escritas à mão, eram fotografadas e reenviadas por email à família. "Tem coisa que a gente não pode falar, né?", afirma.

Rita conta que, desde que a filha foi solta, elas se falam por vídeo "todo dia, toda hora, todo momento".

Foi a deputada cassada que sugeriu à mãe que ela concorresse ao cargo público. "A voz dela não pode ser calada no Brasil", diz Rita sobre a decisão.

Com o slogan "Jornada pela Justiça", Rita pretende levar à Câmara dos Deputados as mesmas bandeiras defendidas pela filha, com quem diz não ter nenhuma discordância. "Tenho três filhos, amo os três igual, mas os pensamentos mais parecidos comigo [quem tem] é a Carla."

Rita diz que ambas fundaram juntas o movimento Nas Ruas em 2011 —Zambelli foi eleita deputada federal em 2018. Antes disso, diz ela, a atuação de ambas era concentrada em educação e gestão. Cita, como exemplo, um trabalho como coordenadora acadêmica de cursos de MBA da Fundação Getúlio Vargas em Uberlândia (MG).

No histórico da candidata, há registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de candidatura à Câmara Municipal de Mairiporã (SP) pelo PTB em 2004, com o nome Rita Salgado.
Segundo Rita, ela também cuidou da parte administrativa da campanha da filha. "Depois continuei tomando conta do neto. E acompanhei tudo que aconteceu em Brasília, problemas de saúde, as doenças, as cirurgias, e também politicamente", diz.

João Zambelli, 18, filho da ex-deputada, deve sair como candidato a vereador por São Paulo em 2028.

Dentre as bandeiras de Rita estão combate à corrupção, tolerância zero contra o crime, posição contrária ao aborto, atenção a doenças raras e liberdade de expressão, além da defesa do que chama de presos políticos. Evitando crítica direta a instituições, diz que seu compromisso imediato é "falar sobre a injustiça apenas" —ela não apresenta proposta legislativa concreta.

Questionada se a candidatura funciona como forma de contornar a inelegibilidade da filha, ela responde que "pode até ser" e que a situação "pode ser que esteja se assemelhando" a isso.

Mas completa dizendo que a família "vai trabalhar, com ela ou sem ela".

Por enquanto, a candidatura conta, principalmente, com apoio do PL, responsável por 99,9% das doações recebidas, no valor de R$ 500 mil, mesma quantia dada à policial Katia Sastre, suplente do partido na Câmara, e inferior a valores cedidos a candidatos maiores, como Nise Yamaguchi (R$2,4 milhões) e Lucas Pavanato (R$ 1,3 milhão). O outro doador da campanha é o filho Bruno Zambelli (R$ 50 mil).

A família também mantém uma campanha de arrecadação para custear a defesa de Zambelli na Itália. Segundo Rita, o valor levantado até agora não foi suficiente para cobrir integralmente os honorários do advogado italiano que assiste a ex-deputada.

Zambelli se soma a uma lista de bolsonaristas que não foram extraditados nos últimos anos por motivos variados: o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado por tentativa de golpe de Estado, e o blogueiro Allan dos Santos, alvo do inquérito das fake news, ambos nos Estados Unidos, assim como o blogueiro Oswaldo Eustáquio Filho, na Espanha, suspeito de crimes contra a democracia. As decisões têm sido usadas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro como munição contra o STF.

Questionada sobre os planos da filha, Rita diz acreditar que Zambelli pretende retornar ao Brasil e "eventualmente voltar a um cargo público". "Se ela voltar hoje, com certeza será presa no aeroporto."

Apesar disso, diz ter esperanças de que a "injustiça vai acabar". "Obviamente vai depender das eleições agora, né?", diz.

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