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Grávidas de propaganda de Lula em 2002 reavaliam esperança e voto

Para o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), que coordenou a campanha de 2002, o filme fazia parte de uma estratégia de mudança na comunicação do partido

Por FolhaPress
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Grávidas de propaganda de Lula em 2002 reavaliam esperança e voto

Foto: Folhapress

MARIANA GRASSSO - No início de outubro de 2002, poucas semanas antes de vencer pela primeira vez a eleição presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exibiu na TV uma propaganda que se tornou ícone do marketing eleitoral do país. Mulheres grávidas vestidas de branco caminhavam por um campo de trigo em uma fazenda na região de Maringá, noroeste do Paraná, sob o sol forte e o vento produzido por megaventiladores.

Modelos, mães e crianças avançavam pela plantação ao som de "Bolero", do compositor francês Maurice Ravel. Quando a música diminuía, Chico Buarque perguntava aos eleitores que país desejavam deixar para a próxima geração.

"Você não pode escolher se seu filho será menino ou menina, mas uma coisa você pode escolher: que tipo de país você quer para ele", dizia.
No fim, Chico aparecia para concluir: "Se você não muda, o Brasil também não muda".

A gravação reuniu cerca de 50 pessoas. Nem todas as mulheres estavam grávidas, algumas usavam barrigas de espuma. Cada participante recebeu entre R$ 25 e R$ 40, valores equivalentes hoje a aproximadamente R$ 100 e R$ 160, respectivamente.

Entre as participantes estava Juliane Souza, aos 26 anos e grávida de Gabriela. Modelo, aceitou o convite da agência que a representava. Não era militante, mas se emocionou com a produção e votou em Lula naquele ano. "Tinha aquela esperança de que agora vai, agora muda", lembra.

Às vésperas do nono mês do governo, Juliane disse à Folha que era preciso ter "paciência de mãe" para esperar os resultados. "O governo está engatinhando.

Tem de esperar os últimos meses para saber se mudou ou não. Tem de ter esperança", declarou na ocasião.

O publicitário Duda Mendonça (1944-2021), responsável pela campanha de Lula, criou a peça como parte da estratégia para suavizar a imagem do candidato, então em sua quarta tentativa à Presidência. A campanha apostava no discurso de conciliação, na guinada ao centro e no slogan "a esperança vai vencer o medo".

Para o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), que coordenou a campanha de 2002, o filme fazia parte de uma estratégia de mudança na comunicação do partido.

Segundo ele, a equipe procurava trocar a propaganda negativa por mensagens que combinassem emoção e uma ideia de futuro.

"A emoção tinha que servir a alguma perspectiva. O filme foi pensado a partir de três ideias: a família, a mulher e o futuro do país", diz.

Com José Alencar (PL-MG) como vice, Lula liderou o primeiro turno e, em 27 de outubro, derrotou José Serra (PSDB) com 61,3% dos votos válidos, tornando-se o primeiro presidente eleito pelo PT.

Mais de duas décadas depois, Juliane Souza avalia que a fase de aprovação a Lula durou apenas "dois ou três anos". Aos 49 anos, trabalha como motorista de aplicativo em Maringá e não pretende votar novamente em Lula.

Ela ressalta, porém, que a transformação da vida não pode ser atribuída apenas aos governos que se sucederam desde a filmagem. A rotina virou "de ponta-cabeça" principalmente em 2008, quando ficou viúva e precisou voltar ao mercado de trabalho.

Durante a pandemia, com a queda no número de passageiros, passou a entregar máscaras produzidas pela mãe e a transportar pacientes para tratamentos em

Curitiba e São Paulo. As duas atividades ajudaram a sustentar a família no período.

Os três filhos chegaram ao ensino superior. A mais velha é biomédica, Gabriela—que estava na barriga de Juliane na filmagem— é publicitária e o caçula cursa análise e desenvolvimento de sistemas.

Gabriela, 23, assim como a mãe, busca segurança financeira. "A gente nunca passou fome, longe disso. Mas você não tem paz. Parece que tem que sempre estar fazendo num dia para pagar no outro, para as contas se encaixarem."

Mãe e filha procuram uma alternativa à polarização e acompanham nomes como Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), mas ainda não definiram o voto.

Outra mulher que participou da gravação, empresária e moradora de Maringá, pediu para não ser identificada. Ela diz ter sido selecionada por uma agência e afirma nunca ter tido vínculo com o PT.

Na avaliação dela, o país "piorou muito" sob administrações do PT. Diz que, se o presidente continuar, "o Brasil só tem a perder".
L. tinha dois anos quando apareceu no colo da mãe no comercial de 2002. Hoje, aos 26, diz que nunca assistiu à propaganda completa.

Ele estudou em escolas públicas desde a creche. Para ingressar na faculdade, conseguiu uma bolsa integral do Prouni (Programa Universidade para Todos), programa criado no primeiro governo Lula que concede bolsas a estudantes de baixa renda em instituições privadas de ensino superior.

Diz que foi favorecida pela mudança de governo e que a família se estabilizou, com acesso a programas sociais na infância.

Embora diga acompanhar pouco a política, o jovem se identifica com ideias de centro-esquerda e afirma que pautas de inclusão, como acesso à educação e trabalho, orientam suas posições.

Na eleição presidencial, vê Lula como a opção "menos pior". Ele classifica Maringá como uma cidade conservadora e diz que se afastou de discursos de direita por ver de maneira crítica ideias como meritocracia.

Outra participante da produção, Tatiana Vanessa Soria, trabalhava em uma agência de modelos quando foi chamada para a filmagem. O filho Rafael, ainda bebê, aparecia nos braços da mãe na propaganda.

Aos 48 anos, Tatiana é bióloga, mestre, doutora e dá aula na rede estadual do Paraná. Ela conta que, desde 2002, vota nos candidatos do PT em todas as eleições presidenciais.

Incomodada com a condução de Jair Bolsonaro (PL) durante a pandemia de Covid, ela participou de cursos de formação em política, estudou autores marxistas, e aderiu ao PSOL.

"Antes de estudar, eu achava que o PT era de esquerda. Depois percebi que acredito em uma coisa muito mais à esquerda do que ele realmente é. Eu sentia que precisava me organizar com um grupo de pessoas que pensasse como eu para que as coisas mudassem."

Hoje, Tatiana mantém pouco contato com o PSOL. Em sala de aula, procura estimular os estudantes a verificar as informações que recebem e a refletir sobre as propostas dos candidatos.

"Eu não quero que eles pensem como eu. Só quero que eles pensem. Querem defender um partido de direita? Querem defender o Bolsonaro? Podem defender, só que defendam com conteúdo."

Apesar das críticas ao PT, ela continua votando na legenda por considerá-la a força eleitoral com maiores possibilidades de vitória e mais próxima das ideias que defende.

Entre 2014 e 2015, Tatiana participou do Ciência sem Fronteiras, programa federal criado no governo Dilma Rousseff (PT), por meio de um doutorado-sanduíche nos Estados Unidos. A bolsa custeou um ano de estudos fora do país, período em que Rafael frequentou uma escola americana e aprendeu inglês.

Depois de concluir o ensino médio em uma escola pública de Maringá, Rafael decidiu, aos 18 anos, prestar vestibular. Ele mora em outra cidade e cursa uma universidade pública.

Para Tatiana, a trajetória do filho ajuda a explicar por que a educação ocupa o centro de suas escolhas políticas e por que ela continua a considerar acertado ter votado em Lula em 2002.

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