Justiça arquiva processo sobre morte de ambulante senegalês em SP

MP indica legítima defesa na ação dos policiais militares

Por Da Redação, Agência Brasil
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Justiça arquiva processo sobre morte de ambulante senegalês em SP

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Após um envio de um pedido do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a Justiça paulista decidiu arquivar o processo que investia a morte do ambulante senegalês e regufiado Ngange Mbaye, assassinado por um policial militar depois de uma operação na região do Brás, no centro de São Paulo, em abril do ano passado. A decisão é do juiz Antonio Carlos Pontes de Souza, da 1ª Vara do Júri da capital.

Mbaye foi atingido por um disparo no abdome em uma abordagem policial enquanto tentava proteger as mercadorias e também de outro ambulante. De acordo com o boletim de ocorrência registrado na época, ele teria resistido à apreensão das mercadorias e usado uma barra de ferro, que terminou atingindo um policial. Na sequência, o policial teria atirado contra Mbaye.

Para o promotor Lucas de Mello Schaefer, o policial que atirou contra o senegalês  “agiu em legítima defesa, repelindo a injusta agressão atual a direito seu e de terceiro, quando realizou um disparo de arma de fogo contra Ngagne Mbaye”. 

“Embora Ngagne Mbaye fosse estrangeiro, não parece minimamente razoável, em qualquer lugar do mundo, que uma pessoa em poder de um instrumento contundente, tal como uma barra de ferro, possa agredir outra pessoa desferindo repetidos golpes, com emprego de força, na região da cabeça e do tronco. Quando estes golpes se voltam contra agentes de segurança do Estado, que estão no legítimo exercício de suas funções, esta atitude é ainda mais grave e reprovável”, disse o promotor, na manifestação enviada à Justiça.

Repercussão

Vídeos apontam que a abordagem policial e o momento do disparo viralizaram nas redes sociais, gerando muita repercussão. Ocorreram protestos contra a violência policial e também outras manifestações, incluindo internacionais.

Na ocasião, a ministra de Integração Africana e Negócios Estrangeiros do Senegal, Yassine Fall chegou a pedir explicações ao governo brasileiro relacionados a morte do ambulante. Em comunicado feito à imprensa, ela disse que buscaria junto à representação diplomática, meios “para elucidar as circunstâncias dessa morte trágica”. 

A ONG Horizon Sans Frontières, que acompanha casos de migração e violência, afirma que a morte de Mbaye foi “um novo crime cometido contra um cidadão senegalês no Brasil” e chegou a apontar o país como uma "zona de violência endêmica".

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania chegou a solicitar para a Corregedoria da Polícia Militar, o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo que fosse realizada uma “apuração rigorosa dos fatos, com especial atenção às circunstâncias que levaram à morte de Ngange Mbaye, bem como a adoção de medidas que garantam a responsabilização dos envolvidos e a prevenção de futuras ocorrências semelhantes”. 

Entidades do movimento negro também chegaram a denunciar o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. 

Operação Delegada

A morte de Mbaye ocorreu durante uma ação da Operação Delegada, um convênio firmado entre a prefeitura paulistana e o governo de São Paulo e que permite a atuação de policiais militares de folga na fiscalização do comércio ambulante. 

Por meio de nota, a Campanha pelo Fim da Operação Delegada, composta por diversas entidades, organizações e movimentos sociais, como o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, repudiou a decisão do Ministério Público em pedir o arquivamento do caso, e que acabou sendo aceito pela Justiça. 

“É com absoluta indignação que as entidades que compõem a Campanha pelo Fim da Operação Delegada repudiam esta decisão, que precisa ser revertida imediatamente”, escreveram. 

Para essas entidades, a execução do imigrante senegalês, que dependia do comércio ambulante para sustentar sua família, “é uma vergonha para o Estado brasileiro”. 

“Amplamente difundido, o vídeo da execução de Ngagne Mbaye não deixa dúvidas da desproporcionalidade da ação da Polícia Militar. Uma sequência de golpes de cassetete são desferidos por diferentes policiais contra Ngagne, que apanha uma barra de metal caída no chão [note-se, não era uma arma que portava, e sim um objeto que encontrou para se defender em momento de desespero]. O ambulante e seus colegas estavam se afastando dos policiais no momento em que o tiro é efetuado. Ainda assim, o MP alega que o assassino usou ‘força estritamente necessária para cessar a agressão, sem excesso’. Não há qualquer racionalidade ou amparo legal que justifique o disparo letal da arma de fogo nesse caso”, afirmam as entidades. 

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