Justiça quebra sigilo de documentos sobre a morte de Tancredo Neves após 41 anos
Ex-presidente brasileiro morreu em abril de 1985

Foto: Senado Federal
Mais de quatro décadas depois da morte de Tancredo Neves, documentos sobre o atendimento médico prestado ao ex-presidente poderão ser finalmente consultados pela família. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) autorizou, por decisão unânime, o acesso a prontuários, exames, relação de médicos e outros registros da internação em Brasília em 1985. A medida pode ajudar a esclarecer dúvidas que permanecem desde a morte do político, em 21 de abril daquele ano.
Tancredo foi internado na véspera da posse presidencial, em março de 1985, com um quadro de diverticulite, inflamação na região do intestino grosso. A doença e as complicações durante o tratamento impediram que ele assumisse a Presidência da República, após ser eleito pelo Colégio Eleitoral e encerrar duas décadas de governos militares. O vice-presidente eleito, José Sarney, tomou posse em seu lugar.
A família busca acesso aos documentos para investigar suspeitas de possíveis falhas no atendimento médico. A disputa começou em 2010, após a publicação do livro "O paciente", do escritor Luís Mir, que pesquisou o caso com autorização dos familiares e apontou questionamentos sobre os procedimentos adotados durante a internação.
Os conselhos de medicina negaram inicialmente o pedido de acesso aos registros, alegando que eles estavam protegidos pelo sigilo médico. A família, então, recorreu à Justiça, em um processo que se estendeu por mais de dez anos.
Entre os pontos levantados, estão a decisão de realizar uma cirurgia de emergência, a presença de mais de 30 acompanhantes na sala durante o procedimento e possíveis falhas nos cuidados de recuperação. Também há questionamentos sobre uma advertência recebida por médicos envolvidos no tratamento pelo Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF). O motivo da punição, segundo reportagem do g1, ainda não foi esclarecido. As suspeitas, porém, não significam que tenha sido comprovado erro médico.
A advogada Juliana Porcaro, representante da família, afirma que os documentos podem esclarecer por que os próprios órgãos de fiscalização médica fizeram advertências aos profissionais envolvidos. Para ela, o acesso aos registros ultrapassa o interesse dos familiares e também diz respeito à história do país, já que a morte de Tancredo ocorreu em um momento decisivo da redemocratização brasileira.
Apesar da decisão, os documentos ainda não foram divulgados. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e o CRM-DF informaram que não haviam sido oficialmente notificados. A expectativa é que, após o cumprimento da determinação judicial, a família tenha acesso aos registros que podem trazer novos elementos sobre os últimos dias de vida do ex-presidente.


