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Lavagem do Bonfim reafirma fé, sincretismo e apelo pela paz em Salvador

A Lavagem do Bonfim carrega uma história marcada pelo sincretismo religioso e pela resistência cultural do povo negro

Por Glaucia Campos
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Lavagem do Bonfim reafirma fé, sincretismo e apelo pela paz em Salvador

Foto: Joa Souza/GOVBA

A tradicional Lavagem do Senhor do Bonfim, realizada sempre na segunda quinta-feira após o Dia de Reis, volta a reunir milhares de fiéis e visitantes em Salvador nesta quinta-feira (15). Considerada uma das maiores manifestações populares e religiosas da capital baiana, a celebração transforma o percurso de quase 8km entre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, e a Basílica do Senhor do Bonfim em um grande ato de fé, cultura e convivência entre diferentes tradições religiosas.

Em 2013, o evento foi tombado como Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O festejo inicia com um culto ecumênico, às 7h. Por volta das 9h30 as baianas saem em cortejo carregando água de cheiro em direção às escadarias na Colina Sagrada, onde ocorre a lavagem.

Símbolos e tradição

A Lavagem do Bonfim carrega uma história marcada pelo sincretismo religioso e pela resistência cultural do povo negro. Segundo o historiador Ricardo Carvalho, a origem dessa fusão simbólica remonta ao período da escravidão, quando africanos trazidos à força para a Bahia precisaram ressignificar suas crenças para sobreviver à repressão religiosa imposta pelo catolicismo no Brasil colonial.

“Nesse contexto, a imagem do Cristo crucificado foi associada a Oxalá, orixá da criação. Essa ponte simbólica entre o cristianismo e as religiões de matriz africana não foi apenas espiritual, mas também política e cultural, funcionando como uma forma de resistência. Ao aparentar devoção católica, os negros conseguiam preservar seus rituais, valores e cosmologias, transformando a festa em um espaço de negociação cultural e afirmação das identidades afrobrasileiras ”, explica o historiador.

O bairro se consolidou como símbolo dessa celebração por abrigar, desde o século XVIII, o principal santuário da devoção ao Senhor do Bonfim. As romarias, promessas e peregrinações, somadas ao trajeto ritual da lavagem, reforçaram o caráter urbano e simbólico da festa. “O Bonfim ganhou projeção como síntese da identidade de Salvador, representando uma religiosidade mestiça, marcada por encontros, conflitos e pela musicalidade da cidade”, afirma.

Ao longo dos anos, a Lavagem também foi palco de disputas. Durante o século XIX e parte do século XX, autoridades religiosas tentaram proibir a lavagem no interior da igreja e coibir a presença das baianas e dos rituais afro-religiosos, considerados inadequados. Houve ainda interferências do poder público, ora reprimindo, ora instrumentalizando a festa.

Mesmo em constante transformação, algumas tradições se consolidaram como marcas da celebração. A famosa fitinha, por exemplo, não surgiu no início da devoção. Ela começou como uma medida simbólica do braço da imagem do Senhor do Bonfim e, com o tempo, foi ressignificada como objeto de promessa, proteção e até referência de moda. Já o uso predominante da roupa branca está ligado à influência das religiões de matriz africana, nas quais a cor simboliza paz, pureza e equilíbrio espiritual.

Quem tem fé vai a pé

Para o padre Edson Menezes, reitor da Basílica do Senhor do Bonfim, a expectativa para a Lavagem de 2026 é de mais um momento marcado pela tranquilidade e pelo pedido coletivo de paz. “A caminhada até a Colina Sagrada é um gesto de súplica. O branco que prevalece expressa esse desejo comum de apaziguamento, de superação da violência”, afirma.

O sacerdote ressalta que, nos últimos anos, a festa tem se consolidado como um grande acontecimento cultural e religioso de integração e convivência fraterna. “A partir do momento em que passamos a tratar a Lavagem como um evento de respeito e integração, inclusive com a entronização da imagem do Senhor do Bonfim, a violência diminuiu significativamente. É unânime entre os órgãos envolvidos que a celebração tem sido, a cada ano, um acontecimento de muita paz”, destaca.

Entre os momentos mais marcantes da festa, padre Edson cita o encontro com os fiéis na janela da Basílica e o ritual realizado pelas baianas. “Ver as escadarias sendo lavadas é um apelo simbólico para que possamos limpar nossa mente de preconceitos, intolerâncias e maldades. É um gesto profundamente bonito”, diz.

O padre também enfatiza que o sincretismo vivido na Lavagem acontece de forma natural. “A Igreja do Bonfim é um lugar que congrega o diferente. Recebemos pessoas de várias religiões, especialmente de matriz africana, no dia a dia. A festa é o ponto alto dessa convivência, algo muito próprio da Bahia”, afirma.

Uma das histórias que mais marcaram sua trajetória na Lavagem foi o encontro com a ialorixá Mãe Nicinha, de Santa Bárbara, nos primeiros anos da Caminhada de Corpo e Alma. “Quando abri os braços para abraçá-la, ela me disse: ‘Agora posso morrer em paz’. Aquilo reforçou em mim a certeza de que o respeito mútuo constrói pontes e derruba muros”, relembra.

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