Literatura brasileira e astrologia se encontram em o ciclo de conversas gratuito no Centro Cultural FIESP!
Aos detalhes...

Foto: Divulgação
Entre os dias 8 de outubro e 12 de dezembro de 2026, o Centro Cultural FIESP, em São Paulo, apresenta ao público o ciclo de conversas Astrologia e Literatura: encontro de linguagens, projeto idealizado e ministrado pela escritora e historiadora Roberta Ferraz em curadoria compartilhada com o artista visual, jornalista e gestor cultural Jurandy Valença. Realizado há 18 anos em diferentes locais – do extinto Espaço Maranus (2008) ao Instituto Figueiredo Ferraz (2012), passando pelo Ateliê Paulista (2021) e pela Biblioteca Mário de Andrade (2023) –, o ciclo gratuito integra a programação do projeto LiteraTUDO no Café, em uma edição inédita: pela primeira vez, será dedicado exclusivamente a autores brasileiros. Serão seis encontros semanais, sempre às quintas-feiras, das 20h às 21h30, seguidos de um encontro especial, no dia 12/12, sobre o escritor Caio Fernando Abreu, nos 30 anos de sua morte.
O interesse de Roberta Ferraz pela astrologia começou em 1998, quando ela se mudou para São Paulo para cursar História e Jornalismo. Na época, teve como professor o intelectual Cid Marcus Vasques (1934 - 2022), que lhe apresentou a uma visão do zodíaco muito além do oráculo pessoal: uma linguagem da cultura, ensinada através da mitologia, do cinema, do teatro e, sobretudo, da literatura. Essa perspectiva moldou parte de sua formação acadêmica – graduação em História pela USP, Letras pela PUC-SP, mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP. Desde então, sempre que se interessa por um autor, Roberta levanta seu mapa astral e anota em seus livros. "Quase todos têm na primeira folha o mapa astral daquele autor", revela.
Uma linguagem milenar que atravessa a literatura
A proposta do ciclo é promover um cruzamento entre duas linguagens: a astrologia, com seus mais de 4 mil anos de história, e a literatura. A cada encontro, Roberta associa um par de signos do zodíaco a dois autores e obras específicas, propondo novas trilhas de leitura. Nesta edição, os pares são: Lygia Fagundes Telles e Mário de Andrade, áries e libra; Hilda Hilst e Carlos Drummond de Andrade, touro e escorpião; Ana Cristina Cesar e Clarice Lispector, gêmeos e sagitário; João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, câncer e capricórnio; Jorge Amado e Leonardo Fróes, leão e aquário; e Paulo Leminski e Carolina Maria de Jesus, virgem e peixes. Encerra o ciclo a masterclass sobre a influência da astrologia na construção narrativa de Triângulo das Águas, compêndio de três novelas publicadas em um mesmo volume pelo virginiano Caio Fernando Abreu em 1983 – rendendo ao autor, no ano seguinte, o Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Contos, Crônicas ou Novelas.
Para Roberta, a astrologia é, antes de tudo, uma linguagem – com alfabeto, gramática e uma história que atravessa a formação da cultura escrita, dos sumérios e babilônios aos dias de hoje. Segundo ela, é essa natureza simbólica, composta de metáforas e figuras de linguagem, que permite aproximá-la da arte e, em especial, da literatura.
“A astrologia é anterior ao pensamento científico estabelecido a partir do Renascimento, mas isso não invalida a base da linguagem astrológica que, assim como a ciência, também se apoia na observação dos fenômenos e sua interpretação, dentro dos códigos e culturas de cada momento e lugar”, observa Roberta. “É um sistema que tem seu alfabeto, sua gramática – os planetas, os signos, as casas, os decanatos, as triplicidades, os elementos. A astrologia é a língua mais antiga que ainda falamos.”
A pesquisadora ressalta, ainda, que o objetivo do ciclo de conversas não é impor uma leitura única, mas oferecer ferramentas para que o público faça suas próprias associações. A ideia é que cada participante possa perceber correspondências entre a gramática astrológica de um signo e a poética de um autor – seja no ritmo da escrita, no vocabulário, nos temas ou nas grandes questões de fundo.
"A ideia não é forçar uma coisa a caber na outra, mas perceber que há uma flexibilidade de ligações entre essas duas linguagens. Esse viés de intersecção, que eu acho rico porque é muito vasto, permite relações infinitas. Não se trata de uma questão de crença, mas de ferramentas de leitura", complementa Roberta.
Edição inédita com autores brasileiros
A nova edição traz uma mudança significativa em relação às anteriores: todos os autores abordados são brasileiros. A escolha, segundo Roberta, foi "puramente passional e pessoal", mas buscou equilibrar nomes femininos e masculinos e trazer diversidade, como o destaque para a pisciana Carolina Maria de Jesus, no bate-papo que também aborda o virginiano Paulo Leminski. Além dos 12 autores, o ciclo pretende abordar autores contemporâneos, como a poeta Angélica Freitas, para estabelecer breves conexões e mostrar que a linguagem astrológica segue viva e produtiva.
"Uma das iniciativas do Centro Cultural FIESP é justamente criar encontros inusitados entre a literatura e outras áreas do conhecimento. Ao trazer a astrologia como uma possibilidade de leitura e interpretação das obras de autores brasileiros, este ciclo propõe uma maneira jovem e divertida de olhar para a literatura, criando novas portas de entrada para os livros e despertando a curiosidade do público. É uma forma de fugir do senso comum e criar uma aproximação mais pop com a literatura, sem abrir mão do olhar crítico sobre ela", reforça Tais Lara, diretora do Centro Cultural FIESP.
A acolhida da instituição ao projeto literário consolida uma parceria de longa data entre Roberta e Jurandy, que já trabalharam juntos em iniciativas como a apresentação do mesmo ciclo no Ateliê Paulista (2021) e a edição realizada na Biblioteca Mário de Andrade em 2023, espaço onde Valença atuou como diretor por um longo período. Os dois se conheceram quando o curador era diretor de projetos no Instituto Hilda Hilst e Roberta fazia, então, uma residência artística. "Deu um match absoluto", conta ele. Desde então, a amizade e a colaboração profissional se aprofundaram, com Valença atuando como mediador e articulador institucional de diversos projetos de Roberta.
"Desde a primeira vez que deparei com ela palestrando, foi um deslumbre. Ver um amigo falando com tanta erudição e pertinência é algo maravilhoso. Quem tiver a chance de participar de algum desses encontros poderá ver de perto a didática, a eloquência, a sedução dessa escorpiana dominando a cena ", aposta o libriano Valença. Ao recordar a realização do ciclo Astrologia e Literatura: encontro de linguagens na Biblioteca Mário de Andrade, em 2023, o curador destaca que a resistência inicial da instituição em relação a rodas de conversa de longa duração se transformou em entusiasmo diante da fidelização do público e da diversidade de frequentadores.
"Havia um consenso de que ciclos dessa natureza não atraíam público, mas a astrologia é um tema que encanta e seduz muita gente, assim como a literatura. A série de 2023 foi um sucesso absoluto. Os dois públicos iniciais – os interessados em astrologia e os interessados em literatura – acabaram se misturando, criando uma comunidade em torno do ciclo. A ideia agora é também quebrar tabus nos encontros que realizaremos no Centro Cultural FIESP. A astrologia é uma linguagem popular – controversa, para alguns –, mas que carrega em si inúmeros significados, uma série de referências históricas e científicas", afirma Valença.
Para o encerramento do ciclo no LiteraTUDO no Café, Roberta e Valença – que conheceu e entrevistou o autor, meses antes da sua morte, em Porto Alegre – decidiram incluir o encontro especial dedicada a Caio Fernando Abreu, em memória dos 30 anos de sua partida, aos 47 anos, em 25 de fevereiro de 1996. Assim como Fernando Pessoa, Abreu utilizava a astrologia de forma consciente em sua escrita. Diferentemente dos demais autores do ciclo – que podem ser lidos à luz da astrologia independentemente de conhecerem o tema –, ambos são casos de escritores que se apropriaram da linguagem astrológica como matéria criativa.
"O Caio não é um autor que vamos ler a partir da astrologia, ele é um artista que usa da linguagem astrológica para escrever o texto literário. Algo diferente do que faremos com os outros autores. É uma homenagem, mas também uma reflexão sobre como a astrologia pode ser matéria criativa", conclui Roberta Ferraz.


