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Milei intensifica ações contra imigrantes sem documento e gera tensão em Buenos Aires

Governo realiza operações para identificar estrangeiros em situação irregular em bairros com forte presença boliviana

Por FolhaPress
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Milei intensifica ações contra imigrantes sem documento e gera tensão em Buenos Aires

Foto: Reprodução/Instgram/@javiermilei

MANOELLA SMITH E DANIELA ARCANJO - Os produtos da vendedora Julia Veigas estavam prontos para serem expostos, e a máquina para pagamentos com cartão estava carregada. Mas naquele 6 de fevereiro nenhum cliente foi ao seu box no bairro de Liniers, na periferia de Buenos Aires —em vez disso, dezenas de policiais fecharam duas quadras da rua José León Suárez durante todo o dia para identificar migrantes sem documentação.
"Levaram dois daqui", diz a comerciante de 47 anos, que calcula ter deixado de vender o correspondente a 200 mil pesos (cerca de R$ 700) pelo dia de trabalho perdido.
A rua, a 13 km do turístico Palermo, é uma miniatura da Bolívia na Argentina. Ali é possível comer um "relleno de papa", prato feito com batata e carne, comprar uma bolsa tipicamente andina e negociar ouro em uma joalheria nomeada em homenagem à Virgem de Urkupiña, venerada no país vizinho.
É o perfil dos locais que viraram alvo de uma investida inédita contra estrangeiros do governo de Javier Milei no começo deste ano. O bairro Once, uma região comercial da capital argentina que lembra a paulistana 25 de Março, também foi palco de uma operação do tipo neste mês. Agentes montaram postos de controle, exigindo que as pessoas apresentassem documento de identificação e impressões digitais.
Segundo o Ministério de Segurança, cerca de 10 mil pessoas foram expulsas ou impedidas de entrar no país de janeiro a abril deste ano. "Acabou o descontrole migratório na Argentina. Decisões firmes. Aqui quem faz, paga", disse a chefe da pasta, Alejandra Monteoliva, em vídeo publicado nas redes sociais na semana passada.
Ela credita o endurecimento à mudança da Direção Nacional de Imigrações, antes vinculada ao Ministério do Interior, para a pasta de Segurança, em novembro. "Quatro meses de decisões firmes, regras claras, mais controle nas fronteiras e cumprimento rigoroso da lei", afirmou.
Em janeiro, Monteoliva já havia anunciado que 5.000 pessoas não puderam entrar ou foram expulsas do país durante os dois meses anteriores.
Embora recente, a política já vinha sendo cultivada no discurso do governo.
"Hoje temos uma política de imigração que fomenta o caos e o abuso por parte de muitos oportunistas, que estão longe de vir ao país honestamente para construir um futuro próspero", afirmou o porta-voz da Presidência, Manuel Adorni, há quase um ano. "A Argentina não será terreno fértil para criminosos."
Veigas diz que a associação que o governo faz entre migrantes e criminosos —uma estratégia usada também por Donald Trump, aliado de Milei— a faz se sentir discriminada. "A maioria dos imigrantes trabalha. Você vê isso na construção civil, nos comércios, em todo lugar. São os estrangeiros que estão lá", afirma ela.
Emprego, aliás, foi a causa de sua migração, há três décadas. Nascida em La Paz, Veigas começou a trabalhar ainda criança após sua avó, para quem sua mãe a havia entregado, morrer. "Trabalhei em lojas, como ama de casa, com o que tivesse", diz.
Quando chegou à Argentina, na década de 1990, a ideia era juntar dinheiro, voltar à Bolívia e estudar para ser policial. Mas ela acabou ficando. "Até Milei, sempre me senti acolhida com todos os presidentes", afirma a comerciante, que viu figuras tão diferentes como Mauricio Macri e Cristina Kirchner passarem pela Casa Rosada.
Com essa política, Milei entra na onda de líderes de ultradireita ao redor do mundo que têm o combate à imigração como uma de suas principais bandeiras —um movimento que aterrisou apenas recentemente na ultradireita da América Latina.
"Há alguns anos, a questão da migração na região não era um tema muito relevante, e por isso a extrema direita não a explorou. Não fazia sentido falar sobre esse tipo de assunto se não fosse uma preocupação da população", afirma Cristóbal Rovira Kaltwasser, professor de ciência política da PUC do Chile e diretor do Ultra-Lab, que estuda a ultradireita na região.
O vizinho Chile também vem adotando medidas para dificultar a entrada de imigrantes sem documentação desde que José Antonio Kast assumiu o governo em fevereiro. Como mostrou reportagem da Folha, sua gestão determinou a construção de barreiras na fronteira, ampliou a fiscalização e deportou imigrantes, gerando medo e incerteza entre estrangeiros que vivem no país e tentam regularizar seu processo.
Já no Peru, a questão foi uma das principais nas eleições do último dia 12, puxada principalmente pelo candidato Rafael López Aliaga. "Vamos expulsar os estrangeiros antes de 28 de julho deste ano. Eles têm pouco tempo para retornar à sua amada Venezuela", afirmou ele pouco antes do pleito, referindo-se a imigrantes em situação irregular.
O tema sempre teve relevância no Chile, que viu o número de imigrantes crescer de forma contínua nos últimos anos, assim como o Peru. Segundo uma pesquisa global do instituto Ipsos, 31% dos chilenos e 12% dos peruanos mencionam o controle da imigração entre suas três principais preocupações. A média global da categoria é 17%.
O levantamento foi feito com 25.709 pessoas de 16 a 74 anos em 30 países, de 23 de janeiro a 6 de fevereiro. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais.
Na Argentina, a situação é diferente. No país de Milei, a proporção de estrangeiros se manteve relativamente estável nas últimas duas décadas, com leve queda.
Segundo dados do último Censo de 2022, cerca de 1,9 milhão de estrangeiros vivem na Argentina, o que equivale a aproximadamente 4,2% da população. Em 2010, essa proporção era de 4,5%, e, no censo anterior, de 2001, também girava em torno de 4,2%. Não há dados nem estimativas oficiais sobre pessoas em situação irregular.
Além disso, a pesquisa do Ipsos revelou que apenas 5% dos entrevistados na Argentina mencionaram a migração como uma de suas três principais preocupações —à frente de Colômbia e México, com 4%, e Brasil, com apenas 1%.
"Minha impressão é que Milei traz essa questão à tona porque percebe que, em outros países onde a extrema direita está presente, esse é um dos temas que ganha proporções exageradas", diz Kaltwasser, que não descarta uma mudança na opinião pública a partir desse tipo de discurso.
"A política é uma via de mão dupla. Não se trata apenas do que os eleitores querem, mas também do que é oferecido a eles."

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