O Oráculo de WhatsApp, o holograma e o QR Code: que projeto é esse, Neto?

Foto: Emilly Lima / Farol da Bahia
Esta semana, o "ex, atual e constante" prefeito de Salvador, ACM Neto, desembarcou no cenário eleitoral com o projeto "Sua Voz É Nossa Voz". Uma das premissas? "Ouvir" as demandas da maioria dos 417 municípios baianos via e-mail, WhatsApp e QR Code.
É uma estratégia de logística impecável: afinal, a esta altura do "baba", é humanamente impossível — dados o calendário e a geografia — que ele visite cada um desses locais pessoalmente. E impossível, também, será responder, em debates presenciais, a "questões" formuladas pelo "povo local" sem que estas perguntas causem constrangimentos. Mas vamos esperar essa parte do projeto acontecer para, então, opinar.
Falaremos então da parte digital do programa, que é uma reciclagem perfumada do "Ouvindo Nosso Bairro", lançado pela prefeitura em 2015. Mudaram-se as tecnologias, mas a eficácia é a de uma prateleira de farmácia cheia de placebo: o rótulo é vistoso, mas não cura doença nenhuma. Se alguém me apontar quais, entre os 172 bairros de Salvador, foram efetivamente transformados por essa "escuta" na última década, juro que reconsidero!
O curioso é que, ao lançar esta ferramenta para 417 municípios, Neto ignora que o interior da Bahia não precisa de plataforma de denúncia, até pelas próprias dificuldades logísticas inerentes às cidades pequenas. Estas cidades precisam é de um gestor de verdade! Não de um gestor que, após usar essa mesma ideia desde 2015, mantivesse em 2026 a lista dos piores bairros de Salvador praticamente inalterada.
Enquanto o marketing avança na era digital, as periferias, como Pernambués — sufocada pela densidade demográfica e pela falta de serviços básicos —, continuam presas ao atraso, ignoradas por este e outros mecanismos da prefeitura.
Vamos aos fatos: será que Neto acredita, honestamente, que entre o dia 27 de maio e 4 de outubro — com um intervalo recheado por São João e Copa do Mundo — este formato "viralizará" em cidades como a pequena Catolândia, que fica a mais de 800 quilômetros de Salvador?
O colunista aqui assistiu aos vídeos do "ex, atual, futuro e passado" prefeito e ainda tenta decifrar: Neto será um candidato virtual, um holograma político ou apenas uma lenda urbana em busca de engajamento?
A política digital, sem a sola do sapato gasta na poeira dos rincões do interior e no barro das estradas, não é diálogo, mas sim um monólogo disfarçado de inovação.
No fim das contas, o projeto de Neto é o ápice da modernidade política: ele nos oferece um QR Code para que possamos enviar nossas angústias, enquanto, na prática, funciona como uma espécie de "ouvidoria zen" — recebe tudo com paciência, mas sem a pressa de incomodar a gestão com resoluções.
Se o histórico das periferias de Salvador e a ineficácia na melhoria da lista dos piores bairros da cidade não foram suficientes para ensinar que o marketing não substitui a gestão, o governo da Bahia dificilmente será o cenário onde o holograma deste "novo" Neto finalmente ganhará vida.


