PF derruba perfis e abre investigação sobre trend "caso ela diga não", que incita violência contra mulheres
Entenda o contexto do conteúdo viral

Foto: Reprodução/Redes Sociais
A Diretoria de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF) derrubou perfis e abriu uma investigação sobre trend que circula nas redes sociais entitulada "caso ela diga não", que incita violência contra mulheres.
Os vídeos publicados mostram encenações de violência caso recebam resposta negativa a pedidos de namoro ou casamento, com cenas simulando socos e golpes com faca.
Nesta terça (10), a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados votará um requerimento para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue as publicações.
Na Bahia, o influenciador Lipe Daily também foi alvo de críticas nas redes sociais por participar da trend. Em seu vídeo, ele simula um pedido de casamento, e em seguida, a gravação corta para um a cena de um videogame em que um míssil é disparado.
Ele teria feito o vídeo em 2024, mas a postagem voltou a circular nas redes sociais nesta semana após denúncia da historiadora e influenciadora Yara Damasceno. Lipe, que acumula mais de 1,5 milhão de seguidores, removeu o vídeo de suas redes sociais.
O influenciador teria entrado em contato com Yara, afirmando que o vídeo foi tirado de contexto e que na legenda da publicação ele afirmava que o míssil seria direcionado para a própria casa. Ele afirmou também que não compactua com estes comportamentos. A conversa foi divulgada pela historiadora, que relatou ter sido bloqueada pelo influenciador após o contato. Veja:

Reprodução: Redes Sociais
Conteúdos Red Pill
A trend “caso ela diga não” passou a ser denunciada nas redes sociais, especialmente no Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. O conteúdo viral tem sido apontado por especialistas e usuários como parte do movimento conhecido como “red pill” - expressão em inglês que significa “pílula vermelha” - associado à defesa de uma suposta “masculinidade dominante”.
O conceito de “red pill” faz referência ao filme The Matrix (1999). Na trama, o personagem Neo recebe a opção de escolher entre duas pílulas: a azul ou a vermelha. Enquanto a primeira o manteria na ignorância sobre a realidade do mundo, a vermelha lhe revelaria a “verdade” por trás da sociedade. A partir dessa metáfora, comunidades online passaram a utilizar o termo para sustentar narrativas segundo as quais homens que “tomam a pílula vermelha” estariam despertando para uma suposta realidade em que seriam dominados por mulheres.
O movimento, no entanto, tem sido criticado por disseminar teorias conspiratórias e discursos frequentemente considerados misóginos.
Recentemente, o Brasil registrou um número recorde de feminicídios em 2025: ao todo, 1.568 mulheres foram assassinadas, o que representa um aumento de 4,7% em relação a 2024.
Além de Yara, outras figuras públicas têm se pronunciado sobre o caso. A jornalista e apresentadora baiana Val Benvindo utilizou as redes sociais para repudiar o comportamento e a comunidade "red pill".
Para Val, o vídeo do influenciador foi "violento" e que a justificativa de que o míssil seria direcionado para a própria casa, atentando contra a própria vida, é "violento do mesmo jeito", ao indicar uma rejeição do fim do suposto relacionamento, levando a mulher a carregar a culpa da morte do ex-companheiro.
A jornalista questiona "que tipo de homens estamos criando?", e ressalta que diversos adolescentes e jovens acompanham o influenciador.


