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Polícia Federal investiga escritório de Flávio Bolsonaro, por faturamento de R$ 13,7 milhões durante mandato

Notas fiscais registram pagamentos de advogados e empresas à banca do senador, alvo de apuração sobre possível conexão financeira

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Atualizado
Polícia Federal investiga escritório de Flávio Bolsonaro, por faturamento de R$ 13,7 milhões durante mandato

Foto: Vittor Sales

O escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exerceu mandato no Senado. Os valores e os nomes dos contratantes foram revelados em levantamento publicado pelo UOL, que examinou 62 documentos fiscais da sociedade.

A Polícia Federal (PF) pretende analisar as movimentações financeiras da empresa no âmbito de uma investigação sobre possíveis conexões bancárias entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador. Os dois negam a suspeita de compartilhamento de contas.

Os documentos registram pagamentos feitos por outros escritórios de advocacia e por empresas. Em aproximadamente metade das notas examinadas, os contratantes eram advogados. A descrição mais frequente dos serviços foi “assessoria jurídica”, sem detalhamento das atividades realizadas.

O levantamento identificou apenas um processo judicial diretamente relacionado aos clientes registrados nos documentos. A ausência de ações judiciais identificadas, porém, não significa que os serviços não tenham sido prestados: a advocacia também inclui consultorias, pareceres e orientações jurídicas fora dos tribunais.

PF apura possível conexão financeira

A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, e foi aberta na semana anterior à publicação do levantamento. Segundo a reportagem do UOL, os investigadores identificaram indícios de uma possível ligação entre contas bancárias de Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.

Uma das contas do Santander mencionadas nos documentos fiscais teria relação com a suspeita de titularidade compartilhada. Flávio e Willer negam essa hipótese. Os registros também indicam uma conta do Banco de Brasília (BRB) como destino de pagamentos ao escritório.

O senador é alvo de outra apuração relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sob relatoria do ministro André Mendonça, também do STF. Nesse procedimento, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou informações sobre movimentações que envolveram uma empresa cliente da sociedade de advocacia.

A empresa de Flávio Bolsonaro começou a funcionar em 16 de abril de 2021. O senador aparece como único titular, enquanto Letícia Caetano dos Reis exerce a função de administradora. O endereço registrado é a mansão do parlamentar no Lago Sul, em Brasília, e a sociedade não informa outros funcionários.

Letícia é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, preso em dezembro de 2025 por suspeita de participação em fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O vínculo familiar, por si só, não demonstra participação do escritório nas irregularidades investigadas.

A legislação permite que parlamentares mantenham atividades profissionais paralelas ao mandato, mas estabelece restrições. No caso da advocacia, senadores não podem integrar a Mesa Diretora e exercer a profissão em causas que envolvam órgãos públicos, empresas estatais e autarquias.

Escritório ligado a indicado de Bolsonaro pagou R$ 4 milhões

O escritório Nilo & Almeida Advogados Associados aparece como o maior cliente identificado na documentação. Um dos integrantes da sociedade é Edvaldo Nilo de Almeida, advogado nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022.

O levantamento encontrou duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada, emitidas em agosto e outubro de 2025. Juntos, os documentos representam cerca de 29% do faturamento registrado nas notas analisadas. Ambos descrevem os serviços como “assessoria jurídica” e indicam uma conta do BRB para os pagamentos.

Edvaldo Nilo afirmou que os valores se referem a um contrato firmado em abril de 2025. Segundo ele, os dois escritórios trabalharam em conjunto para clientes particulares, sem participação de órgãos públicos ou utilização de recursos governamentais.

“Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, em casos sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos.”

O advogado não informou quem eram os clientes atendidos nem detalhou os casos relacionados aos pagamentos. Ele declarou que o contrato foi encerrado após a execução dos serviços.

Edvaldo Nilo ocupa atualmente uma cadeira no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), para a qual foi indicado pela Câmara dos Deputados. O Senado aprovou sua recondução em novembro de 2025, depois da emissão das duas notas fiscais. Em setembro de 2026, ele também declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Fabricante de doces pagou R$ 3,3 milhões

A Simas Industrial de Alimentos aparece como a segunda maior contratante identificada no levantamento. A fabricante de doces consta em três notas fiscais emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, que somam R$ 3,3 milhões.

Flávio Bolsonaro recebeu uma procuração para representar a companhia após uma disputa societária chegar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2022. O advogado Willer Tomaz também participou da atuação jurídica relacionada à empresa.

Entre os documentos analisados, esse foi o único caso que a reportagem conseguiu relacionar diretamente a um processo judicial.

O Coaf também encaminhou ao inquérito da operação Dark Horse uma comunicação do Banco Daycoval sobre duas transferências feitas pela fabricante de doces à sociedade de advocacia do senador. O material passou a integrar a apuração sob responsabilidade do ministro André Mendonça.

Advogado próximo a ministro do STF aparece entre os clientes

Duas sociedades de advocacia associadas ao nome de Otto Medeiros também aparecem nos registros, com pagamentos que totalizam R$ 2,1 milhões. As notas indicam cobranças recorrentes de R$ 50 mil durante 2023 e 2024, reduzidas para R$ 40 mil a partir de 2025.

Otto Medeiros é amigo do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro. O magistrado declara impedimento em processos que envolvem o advogado. Otto também já atuou em ações ao lado de Karine Nunes Marques, irmã do ministro.

O escritório de Otto informou que contratou a sociedade de Flávio Bolsonaro para prestar consultoria jurídica no setor privado. Em nota, afirmou que suas parcerias são definidas com base em critérios profissionais.

“Todas as nossas parcerias são definidas com base em critérios técnicos, levando-se em consideração a experiência e competência profissional de cada escritório. Esse é o caso do contrato com Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.”

Outro nome presente na documentação é o advogado Daniel Bettamio Tesser, integrante da defesa de Jair Bolsonaro. Os registros relacionados ao escritório dele somam R$ 970 mil entre dezembro de 2025 e março de 2026, também sob a descrição de assessoria jurídica.

A reportagem procurou a banca de Tesser para esclarecer quais serviços foram prestados, mas não recebeu resposta até a publicação do levantamento.

Notas citam empresa que recebeu milhões do Banco Master

O levantamento também identificou documentos fiscais relacionados à Copenhagen Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master, de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025.

Em 7 de abril de 2025, o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para a Copenhagen. Os documentos foram cancelados. Dois dias depois, uma nova nota de R$ 500 mil foi emitida, desta vez em nome da Contábil Correa Contabilidade & Auditoria.

Essa última nota permaneceu válida. A Contábil Correa tem como sócio-administrador Rogério Lourenço Novo, que também ocupa a função de diretor da Copenhagen.

Os registros documentam uma relação comercial entre o escritório do senador e empresas ligadas por um dirigente em comum. As informações apresentadas no levantamento, contudo, não demonstram que o Banco Master tenha feito pagamentos diretamente à sociedade de Flávio Bolsonaro.

Empresário do setor de energia também contratou senador

Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group, também aparece entre os clientes. O grupo mantém parceria empresarial com a Evolution Power Partners, que conquistou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia realizado em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro.

Grecco respondeu a uma ação de improbidade administrativa no Amapá relacionada à transferência do controle de uma concessão ferroviária. O caso foi arquivado pela Justiça em julho de 2022.

O empresário confirmou que contratou Flávio Bolsonaro em 2024 para atuar em um processo judicial particular. Ele negou relação entre o serviço e os leilões de energia ou as atividades da GNPW.

“Conheci e contratei o advogado Flávio Bolsonaro no ano de 2024 para atuar em um processo judicial no qual eu era parte. A atuação ocorreu formalmente, com procuração juntada aos autos, e não possui nenhuma relação com leilões de energia ou com a GNPW”, afirmou.

Grecco também questionou a divulgação dos documentos e argumentou que um eventual vazamento de informações protegidas por sigilo fiscal e bancário poderia motivar medidas judiciais.

Entre os pagamentos de menor valor, o levantamento identificou uma nota de R$ 239 mil relacionada ao escritório Leonardo Amarante Advogados Associados. A banca confirmou a contratação de pareceres jurídicos e afirmou que realizou o pagamento mediante apresentação de documento fiscal.

Segundo o escritório, os pareceres foram “devidamente entregues e remunerados mediante apresentação de nota fiscal, seguindo a praxe das relações entre escritórios profissionais de direito”. A sociedade também argumentou que o sigilo profissional protege o conteúdo dos trabalhos.

Lula cobrou abertura de contas durante debate

A divulgação dos valores ocorre em meio à disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante o debate promovido pela Band no domingo anterior à publicação do levantamento, Lula desafiou o adversário a abrir suas contas.

Embora a atuação de Flávio como advogado já fosse conhecida, a reportagem do UOL reuniu documentos fiscais com valores que ainda não haviam sido divulgados publicamente, além de identificar os principais contratantes e as relações profissionais registradas no período.

A reportagem procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para obter esclarecimentos sobre o faturamento, os serviços prestados e as movimentações financeiras. Até a publicação do levantamento, o senador não havia respondido aos questionamentos.

A Polícia Federal deverá examinar as transações no âmbito do inquérito sob relatoria de Alexandre de Moraes. A investigação busca esclarecer os indícios de uma possível conexão financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, hipótese contestada pelos dois.

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