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Psicóloga baiana chama atenção de que cuidar e prevenir a saúde mental é um exercício durante todos os meses dos ano e não somente no mês Setembro Amarelo!

Aos detalhes...

Por Michel Telles
Às

Psicóloga baiana chama atenção de que cuidar e prevenir a saúde mental é um exercício durante todos os meses dos ano e não somente no mês Setembro Amarelo!

Foto: Divulgação

Neste mês de setembro, que figura a campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a valorização da vida, organizada no Brasil desde 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina, a pasicóloga e sócia diretora do Gira Mundo, Manoela Guimarães  — espaço lúdico terapêutico, em Lauro de Freitas, especializado no desenvolvimento de crianças e adolescentes neurodivergentes, que une ciência, acolhimento e excelência —, chama atenção para os devidos cuidados e prevenção com a saúde mental.

 “Acho importante lembrar que estamos falando sobre tudo isso no contexto do Setembro Amarelo, um mês que amplia a visibilidade para a prevenção do suicídio e para o cuidado com a saúde mental. Mas essa conversa não pode terminar quando setembro termina. Precisamos falar sobre saúde mental em setembro e em todos os outros meses do ano. Cuidar da saúde mental não deve acontecer apenas quando alguém chega ao limite. Prevenção também é construir, todos os dias, condições de vida, relações e ambientes que favoreçam bem-estar, autonomia, vínculos significativos e qualidade de vida”, afirma a psicóloga. 

Confira nesta entrevista o que a profissional acrescenta sobre o assunto, que requer ser tratado e prevenido com cuidados especiais. 

 *1. Quando devemos perceber que não estamos apenas passando por uma fase difícil, mas que precisamos de ajuda profissional?* 

Todos nós passamos por períodos difíceis, e sentir tristeza, ansiedade, medo ou frustração faz parte da experiência humana. O sinal de atenção aparece quando esse sofrimento começa a ser muito intenso, dura por um período prolongado ou passa a interferir de forma importante na nossa vida. Por exemplo: quando começamos a deixar de fazer coisas que antes faziam parte da nossa rotina, nos afastamos das pessoas, temos dificuldade para trabalhar, estudar, dormir, cuidar de nós mesmos ou manter nossos relacionamentos. Na Análise do  Comportamento, nós olhamos muito para a relação entre a pessoa e o contexto em que ela está vivendo. Mais importante do que perguntar apenas “qual sintoma eu tenho?” é observar: “como eu estou vivendo e o quanto esse sofrimento está limitando a minha vida?”. E não precisamos esperar chegar ao limite para procurar ajuda. O acompanhamento psicológico também pode ser preventivo.

 *2. Quais são os sinais de que a nossa saúde mental está pedindo socorro?* 

Algumas mudanças merecem atenção, principalmente quando são intensas, persistentes ou muito diferentes do funcionamento habitual daquela pessoa. Isolamento, irritabilidade frequente, alterações importantes no sono ou na alimentação, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, dificuldade de concentração, queda significativa no desempenho, sensação constante de exaustão ou dificuldade para realizar atividades básicas podem ser sinais de sofrimento. Mas é importante dizer que não existe um único comportamento que, sozinho, indique que alguém está adoecendo. Precisamos olhar para o conjunto, para a frequência, a intensidade e, principalmente, para o contexto. E, no Setembro Amarelo — e em todos os outros meses do ano — precisamos acrescentar um cuidado especial: falas sobre não querer mais viver, sobre ser um peso para os outros, desesperança intensa ou qualquer manifestação relacionada a suicídio precisam ser levadas a sério. Nessas situações, é importante acolher sem julgamento e buscar ajuda profissional.

 *3. Por que ainda existe tanto preconceito em torno da terapia e do cuidado com a saúde mental?* 

Porque nós também aprendemos culturalmente a maneira como falamos sobre sofrimento. Durante muito tempo, procurar ajuda psicológica foi associado à fraqueza, à incapacidade de resolver os próprios problemas ou à ideia de que a terapia seria destinada apenas a pessoas com transtornos graves. Essas ideias são aprendidas e reforçadas socialmente. Muitas pessoas cresceram ouvindo frases como “você precisa ser forte”, “isso é frescura” ou “resolva seus problemas sozinho”. E isso pode fazer com que esconder o sofrimento seja valorizado, enquanto pedir ajuda seja visto negativamente. Precisamos construir outra cultura: uma em que reconhecer limites, falar sobre sofrimento e procurar ajuda sejam comportamentos possíveis e socialmente acolhidos. Procurar um psicólogo não significa necessariamente que a pessoa esteja adoecida. Psicoterapia também pode ser espaço de autoconhecimento, prevenção e desenvolvimento de novos repertórios para lidar com as demandas da vida.

 *4. Cuidar da saúde mental deveria fazer parte da nossa rotina, assim como cuidar da saúde física?* 

Com certeza. Inclusive, essa separação entre saúde física e saúde mental é muito mais didática do que real. Nós somos um organismo inteiro, e aquilo que acontece no nosso corpo, no nosso ambiente, nas nossas relações e na nossa rotina está interligado. Cuidar da saúde mental não significa necessariamente fazer terapia durante toda a vida. Também envolve observar como estamos organizando nossa rotina, como estão nossas relações, se temos momentos de descanso, lazer, atividade física, contato social e atividades que sejam significativas para nós. Na perspectiva comportamental, ambientes também promovem ou dificultam a saúde. Então não podemos colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. Precisamos pensar também nas condições de vida, de trabalho, nas relações e nas possibilidades reais que aquela pessoa encontra para construir uma vida com qualidade.

 *5. É possível estar aparentemente bem e, ainda assim, estar emocionalmente sobrecarregado?* 

Sim, absolutamente. Nós não conseguimos avaliar o sofrimento de alguém apenas pela aparência. Uma pessoa pode trabalhar, estudar, sorrir, encontrar amigos, publicar nas redes sociais e, ainda assim, estar vivendo um sofrimento muito importante. O comportamento que observamos publicamente é apenas uma parte da experiência daquela pessoa. Além disso, muitas pessoas aprenderam ao longo da vida a continuar desempenhando suas funções mesmo sob condições extremamente aversivas. Às vezes, inclusive, receberam reconhecimento por isso: por serem “fortes”, por “darem conta de tudo”, por nunca pararem. Por isso, precisamos ter cuidado com a ideia de que existe uma aparência específica de alguém que está sofrendo. Nem todo sofrimento é facilmente visível.

 *6. Como diferenciar ansiedade de uma preocupação normal do dia a dia?* 

Ansiedade não é necessariamente um problema. Ela faz parte do nosso repertório e pode ter uma função importante, inclusive nos preparando para situações que exigem atenção. Eu começaria a me preocupar quando essa ansiedade se torna muito frequente ou intensa e, principalmente, quando começa a restringir a vida da pessoa. Ela deixa de ir a determinados lugares, evita situações, perde oportunidades, tem prejuízo no sono, no trabalho, nos estudos ou nas relações porque está constantemente tentando evitar aquilo que provoca desconforto. Na Análise do Comportamento, a esquiva é um conceito muito importante aqui. Evitar algo que provoca ansiedade pode produzir um alívio imediato e, justamente por produzir esse alívio, a pessoa tende a evitar novamente no futuro. Aos poucos, esse ciclo pode aumentar e restringir cada vez mais a vida. Por isso, não olhamos apenas para a presença da ansiedade, mas para sua intensidade, frequência, contexto e consequências.

 *7. O excesso de telas e redes sociais pode afetar nossa saúde mental? Como?* 

Pode, mas eu evitaria dizer que telas e redes sociais são necessariamente ruins. Precisamos observar como elas estão sendo utilizadas e o que estão substituindo na rotina daquela pessoa. As redes oferecem consequências muito rápidas: novidades, vídeos, mensagens, curtidas e conteúdos novos o tempo inteiro. Isso pode favorecer um padrão de uso muito frequente. O problema aparece quando esse uso começa a competir com outras atividades importantes, como dormir, estudar, trabalhar, praticar atividade física, conversar presencialmente ou simplesmente tolerar momentos sem estimulação constante. Também precisamos considerar a exposição contínua à comparação social e a conteúdos que apresentam recortes muito selecionados da vida das outras pessoas. Então, em vez de pensar somente “quantas horas de tela são permitidas?”, uma pergunta comportamental interessante seria: “Que lugar a tela está ocupando na minha vida e o que eu estou deixando de fazer por causa dela?”.

 *8. Por que tantas pessoas têm dificuldade de dizer “não” e acabam se sobrecarregando?* 

Porque dizer “não” também é um comportamento aprendido, e nem todas as pessoas tiveram ambientes que favorecem esse aprendizado. Algumas pessoas aprenderam, ao longo da vida, que atender às expectativas dos outros produz aprovação, reconhecimento e afeto. Ao mesmo tempo, dizer “não” pode ter sido seguido por críticas, conflitos, culpa ou afastamento. Nesse contexto, aceitar tudo pode se tornar uma maneira de evitar consequências desagradáveis. O problema é que aquilo que funciona no curto prazo pode ter um custo enorme no longo prazo. A pessoa evita o desconforto de dizer “não” naquele momento, mas acumula tarefas, responsabilidades e exaustão. Aprender a estabelecer limites envolve desenvolver comunicação assertiva e também aprender a tolerar algo que é inevitável: às vezes, colocar um limite pode desagradar alguém. Cuidar de si não significa garantir que todos estejam satisfeitos com as nossas escolhas o tempo inteiro.

 *9. Qual a relação entre sono, alimentação, rotina e saúde mental?*

Essa relação é muito próxima. Nosso comportamento acontece em um organismo, e as condições desse organismo interferem diretamente na maneira como respondemos ao ambiente. Privação de sono, alimentação inadequada, ausência de descanso e uma rotina constantemente sobrecarregada podem alterar nossa disposição, atenção e tolerância às demandas cotidianas. Situações que normalmente conseguiríamos administrar podem se tornar muito mais difíceis quando estamos exaustos. Uma rotina minimamente previsível também pode ajudar na organização do comportamento. Isso não significa defender uma vida rígida ou uma rotina perfeita. Significa criar condições que favoreçam descanso, autocuidado, relações sociais, responsabilidades e também acesso a atividades prazerosas e significativas. Saúde mental não é construída apenas dentro do consultório. Ela também é construída nas pequenas contingências da vida cotidiana.

 *10. Quando o estresse deixa de ser algo pontual e passa a ser um problema?* 

O estresse é uma resposta esperada diante de determinadas exigências ambientais. O problema é quando essas exigências permanecem por muito tempo, são muito intensas ou quando a pessoa dispõe de poucos recursos para lidar com elas e poucas oportunidades de recuperação. Precisamos observar principalmente o impacto funcional: estou conseguindo descansar? Meu sono mudou? Estou mais irritado? Parei de fazer atividades importantes? Minha relação com as pessoas mudou? Estou constantemente exausto? Mesmo quando a situação estressora termina, continuo em estado de alerta? E existe um ponto importante: não devemos olhar apenas para como tornar uma pessoa cada vez mais resistente ao estresse. Às vezes, precisamos modificar as condições que estão produzindo aquela sobrecarga. Nem todo sofrimento precisa ser respondido ensinando alguém a suportar mais. Em algumas situações, cuidar da saúde mental significa também reorganizar demandas, estabelecer limites e modificar ambientes.

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