Hoje de manhã tomei conhecimento do assassinato de quarenta de três mil iranianos metralhados pelo regime teocrático do Irã, nestas duas semanas do grande levante popular em prol da restauração da Democracia, naquela grande e provecta nação.
Fiquei profundamente abalado com esta terrível notícia. Pensei imediatamente em manifestar minha revolta diante desses fatos inusitados e consignar minha solidariedade ao bravo iraniano.
Constatei, contudo, a quase inutilidade de minhas palavras, tamanha era a enormidade dos acontecimentos, somente superados pelo holocausto e outros poucos eventos transcorridos nos abalos revolucionários de alguns países do extremo oriente, considerados fatos históricos em extinção na vida contemporânea.
São inumeráveis as ditaduras espalhadas pelo mundo, a exemplo da China, da Rússia, da Coréia do Norte, Cuba, Nicarágua, o próprio Irã e quase uma centena de Estados totalitários, que, por mais paradoxal que pareça controlam as decisões adotadas nas Nações Unidas – ONU.
Percebi que minhas palavras poderiam ecoar positivamente em algumas mentes abertas para os tempos que se instalaram no mundo, se elas fossem dirigidas aos meus concidadãos, muitos dos quais embalados por quimeras do passado e seduzidos pelas narrativas falsas e envelhecidas, seguro de que Millor Fernandes tem razão quando afirma que “se você agir sempre com dignidade, pode até não mudar o mundo, mas com certeza haverá um canalha a menos na terra”.
Reconheço, todavia, que há uma pedra no caminho. Muitos ainda estão parados no tempo, como se nós estivéssemos na velha ditadura e não na nova, mais cruel e difícil de conter. Aqui vale a advertência enunciada por Winston Churchill, na guerra vitoriosa contra o fascismo, de que “você nunca vai chegar ao seu destino se você parar e atirar pedras em cada cão que ladra”. Os cães desesperados ladram perante suas próprias patifarias.
Apesar do oportuno alerta do “Acorda Brasil”, reverberado na majestosa caminhada dos últimos dias, a inteligência brasileira ainda não percebeu que a medida da inteligência é a capacidade de mudar, como fizera em jornada carregada de patriotismo e espírito de luta o bravo povo iraniano.
Os mortos tombados no Irã estão lutando para ter de volta a sua liberdade perdida, e com elas seus valores civilizacionais vilipendiados, a fim de que as mulheres, por exemplo, possam viver como seres humanos livres de toda sorte de restrições e castigos injustos. Os homens são abatidos como troféus oferecidos a deuses pagãos, com a finalidade de salvar as almas dos seus assassinos!
O Governo brasileiro “apenas” lamentou o genocídio em curso e reafirmou o surrado e impiedoso argumento que “cabe apenas ao iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo.” De um lado os Aiatolás e sua Guarda Revolucionária e do outro o povo, a vida e a decência.
É um tempo de depuração, dos bons e dos maus costumes, até o dia em que “chegará o tempo em que teremos de provar ao mundo que a grama é verde”, nas sábias palavras de C.H. Cherterton.



