Bravata inconsequente

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Bravata inconsequente

O mundo nessa terça-feira, 07 de abril, ficou entre apreensivo e desacreditado, haja vista a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, feita em suas redes sociais no contexto da tensão com o Irã . Sim, imaginei que fosse uma bravata, mas de uma inconsequência sem medidas, bem ao estilo do presidente que se considera um imperador do mundo. Penso que não é um simples excesso verbal. É a explicitação de uma lógica de poder baseada na intimidação extrema e na banalização de limites civilizatórios. Não há ambiguidade na frase.

Quando o chefe da maior potência militar do planeta evoca a destruição de uma civilização, que tem cinco mil anos de existência, ele não está apenas pressionando um adversário. Está comunicando ao mundo que considera legítimo utilizar a ameaça de aniquilação como ferramenta política, de satisfação de sua vontade. E há quem faça fileira para aplaudir. Nunca serei a favor de teocracia alguma, por questões óbvias, logo não movo uma palavra em direção e defesa do Irã, mas, entendo, que esse tipo de postura revela uma prepotência estrutural. Os Estados Unidos, em diversos momentos históricos, agiram como se seu poder lhes concedesse o direito de definir unilateralmente os limites da ação internacional. A fala de Trump não é um desvio isolado, mas parte de uma cultura estratégica em que a força precede o diálogo.

A assimetria de poder torna o quadro ainda mais grave. Não se trata de um confronto entre iguais, mas de uma superpotência dirigindo uma ameaça de escala civilizacional contra um país com capacidade muito inferior de resposta. Nesse contexto, a pressão deixa de ser diplomática e passa a ser coerção. Há também um elemento simbólico que não pode ser ignorado. O Irã carrega a herança da antiga Pérsia, uma das civilizações mais antigas da humanidade. Reduzir esse espaço a alvo de uma ameaça dessa magnitude não é apenas agressividade política; é um sinal de empobrecimento ético e histórico.

Defensores desse tipo de discurso costumam invocar a lógica da dissuasão. Mas essa justificativa ignora que a linguagem molda o campo do possível. Ao naturalizar a ameaça extrema, abre-se caminho para que o impensável deixe de ser impensável. O problema central não é apenas o risco de alastramento maior do conflito imediato, mas a erosão dos limites, inclusive, imagine, colocar como sendo da vontade divina tal ação.  Quando a liderança de uma superpotência normaliza a ideia de destruição em larga escala, o que está em jogo não é apenas a estabilidade internacional, mas o próprio sentido de responsabilidade que sustenta a convivência entre nações.

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