Flores para Yemanjá, Silêncio para o Candomblé

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Flores para Yemanjá, Silêncio para o Candomblé

Foto: Catharina Ollandezos e Rowena Fruchter/Farol da Bahia

Apois, nesse a 2 de fevereiro, a Bahia faz festa no Rio Vermelho, multidão vai se emociona diante, potencializando a fé ou arriscando nela, diante do mar coberto de flores, em balaios ou boiando solitárias, guardando o silêncio dos pedidos em suas pétalas. Yemanjá vira manchete, atração turística, imagem poética para redes sociais. Há, certamente, congestionamento na veiculação das selfies no Instagram. O gesto é bonito, simbólico, quase consensual. Mas essa unanimidade dura pouco. Basta sair da areia e pisar em terra firme para que a devoção se dissolva em omissão. A mesma sociedade que lança flores às águas raramente se levanta quando terreiros são atacados, quando sacerdotes são ameaçados ou quando fiéis das religiões de matriz africana são constrangidos a esconder sua fé. Celebra-se o orixá, mas se silencia diante do racismo religioso que persegue quem o cultua.

Há uma hipocrisia, sem dúvida alguma, estrutural nesse comportamento. Yemanjá é aceita enquanto símbolo folclórico, enquanto manifestação “cultural” esvaziada de religiosidade. Quando a fé exige respeito, direito e reconhecimento, muitos recuam. Aplaude-se o rito, mas rejeita-se o terreiro. Consome-se a estética, mas nega-se a dignidade. Esse silêncio não é neutro. Ele sustenta a violência simbólica e material contra religiões que ajudaram a formar o Brasil. Não basta reverenciar o orixá uma vez por ano. Liberdade religiosa não se prova com flores, mas com posicionamento público, defesa concreta e coragem social, inclusive pelas próprias redes que foram inundadas com fotos lidas de oceano de flores sobre oceano do orixá.

Yemanjá não precisa apenas de homenagens. Precisa que quem a invoca tenha a mesma firmeza para defender sua religião quando ela é atacada. Sem isso, a devoção vira encenação — bonita aos olhos, vazia de compromisso.

O problema não está em quem se aproxima de Yemanjá com fé sincera, mas em quem se vale dessa aproximação como gesto vazio, desconectado de responsabilidade social. Fé, quando verdadeira, produz verdade. E ética exige coerência entre o que se celebra publicamente e o que se defende quando a intolerância se manifesta. O resto é ritual sem raiz, espiritualidade de ocasião.

Enquanto a devoção às águas não se transformar em defesa dos corpos, das casas de axé e do direito de existir dessas religiões, o Brasil seguirá repetindo um velho vício: admirar o sagrado negro à distância e rejeitar o povo negro quando ele exige respeito. A conta dessa contradição não se dissolve no mar. Ela retorna, sempre, como dívida moral e social.

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