Eu e milhares de “melhores ouvintes” ficamos chocados com a notícia do fechamento da Rádio Eldorado. Na literatura de Contabilidade Gerencial, esse evento está relacionado ao seguinte tema: Custos Relevantes nas decisões de encerramento de segmentos de negócios.
O objetivo deste artigo é discutir o tema sob a ótica da Contabilidade Gerencial, que é o foco dessa coluna. A primeira ressalva que faço é que o meu artigo não se baseia em dados das demonstrações financeiras publicadas – e, muito provavelmente, os resultados da Rádio Eldorado também não estariam publicados. Dessa forma, discuto esse tema no campo das ideias, e confesso que um pouco enviesado pela vontade de achar uma solução.
• Em geral, nas decisões de encerramento de segmentos de negócios, devem ser considerados somente os custos relevantes, ou seja, aqueles que deixariam de existir caso o segmento fosse encerrado. Nesse sentido, os rateios de custos corporativos, que geralmente continuariam, não deveriam ser considerados na mensuração. Também há que se considerar no caso em questão que o arrendamento da frequência 107,3 só é desembolsado pois no passado o grupo vendeu a frequência 92,9 para outro veículo de comunicação.
• Outro aspecto que discuto nas minhas aulas nas quais esse tema é ensinado, é que a administração da empresa já deveria ter considerado todos os esforços possíveis e viáveis que pudessem modificar o resultado para tornar o resultado do negócio positivo, o que incluiria aumento de receita e melhoria de margem por novos produtos e redução de despesas. Sobre esse ponto existem notícias que a Eldorado não tinha uma área comercial própria.
• Normalmente, também mensuramos os serviços prestados pelo segmento para outros segmentos do conglomerado. Ou seja, há que se considerar que na ausência do segmento, os demais segmentos remanescentes poderiam ser afetados negativamente, tendo que desembolsar recursos com terceiros. Enxergo aqui que a Rádio Eldorado gera tráfego para o jornal Estado de S.Paulo.
• Por fim a possibilidade mais óbvia quando um segmento de negócio já não interessa mais o grupo é a venda do segmento ao mercado, principalmente em projetos de reestruturação financeira.
• Outra hipótese é a falta de sinergias com outros segmentos de negócio. As sinergias de fato podem existir no jornalismo, com a Eldorado aproveitando o conteúdo jornalístico, mas na parte musical e cultural, onde a Eldorado é forte, não se vê tanto aproveitamento dos profissionais da rádio no Estadão.
Arrisco a dizer que a Eldorado de fato talvez não orna mais com o Grupo Estado.
Imagino que todos esses pontos foram levantados. Por isso, considerando que a decisão já está tomada, passo agora a expor algumas ideias que, quem sabe, possam contribuir com possíveis soluções:
• Ideia 1: A mais óbvia é o Grupo Bandeirantes, que arrendou a frequência, manter a equipe e a programação com pequenos ajustes e fazer esforços para alavancar a área comercial. talvez com um posicionamento mais premium.
• Ideia 2: Uma aquisição da Eldorado por fundações culturais ligadas à grupos econômicos importantes, que poderiam ser despertados pelo impacto que a Eldorado tem na disseminação de eventos culturais.
• Ideia 3: A operação poderia ser autogerida pelos próprios funcionários em uma nova frequência, ou mesmo em operação digital. Existem poucos casos de sucesso, mas entendo que a equipe da Eldorado seria exitosa nessa alternativa e certamente teria apoio pro-bono de profissionais competentes na parte administrativa, financeira, contábil, tributária e comercial. O modelo poderia misturar anúncios com assinaturas pagas pelos ouvintes e eventos culturais liderados pelos apresentadores (um pouco na linha do clube do livro liderado pela Roberta Martinelli).
Agora se nenhuma dessas soluções ou outras soluções forem viáveis, fica a certeza que os talentos de Haissen Abaki, Nelson Wolter, Roberta Martinelli, Andre Góis, Andrea Machado, Felipe de Paula, Lupa Santiago, Leandro Cacossi, Emanuel Bonfim, Maurício Pereira, Paula Lima, Sérgio Scarpelli, Sarah Oliveira, Felipe Tellis, Mafê Luvizotto, Luciana Camasmie, Gustavo Lopes e os colunistas como Dr. Pastore e a competente equipe técnica, certamente irão brilhar em outras rádios e meios de comunicação, contribuindo para espalhar para mais pessoas um pouco da essência da Eldorado.
Por fim, faço uma reflexão: em tempos de tantos conteúdos enviesados e/ou de baixa qualidade, proliferados em todos os meios de comunicação tradicionais como rádio, tv e também nos digitais, achar uma solução para que a Eldorado e outros veículos de comunicação de alta qualidade continuem, é uma tarefa para todos que defendem o conhecimento e a cultura.
José Carlos Oyadomari é melhor ouvinte e Professor do Insper e do Mackenzie. Consultor. Sócio da True Port Advisors. Doutor em Controladoria. Co-autor do livro Contabilidade Gerencial (Gen Atlas). . Instagram: @prof.oyadomari https://www.linkedin.com/in/jcoyadomari/ site: oyadomari.pro.br



