BC liquida Entrepay por desrespeito a normas e risco a credores

O conglomerado era classificado como de pequeno porte, enquadrado no segmento S4 da regulação prudencial

Por FolhaPress
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BC liquida Entrepay por desrespeito a normas e risco a credores

Foto: Reprodução: LinkedIn Entrepay

ANA PAULA BRANCO E LUCAS MARCHESINI - O Banco Central decretou, nesta sexta-feira (27), a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento S.A. e, por extensão, das empresas Acqio Adquirência Instituição de Pagamento S.A. e Octa Sociedade de Crédito Direto S.A., integrantes do mesmo conglomerado financeiro.

"A liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da instituição líder do conglomerado, bem como por infringência às normas que disciplinam sua atividade e por prejuízos que sujeitam a risco anormal seus credores", informou o BC.

A EntrePay é uma empresa de médio porte do setor de pagamentos, com atuação voltada principalmente ao atendimento de outras empresas. A companhia fornece infraestrutura para fintechs e instituições financeiras, permitindo a oferta de serviços como contas digitais e meios de pagamento.

Segundo participantes do mercado, haverá impacto nas bandeiras de cartões, especialmente para Mastercard e Visa, que devem sofrer prejuízo com os pagamentos devidos pela Entrepay.

Procurada, a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) diz que acompanha de perto o caso e que já iniciou interlocução com participantes do ecossistema e com as autoridades competentes para acompanhar os fluxos de liquidação e mitigar impactos sobre estabelecimentos comerciais e demais agentes da cadeia de pagamentos.

A depender dos contratos da Entrepay, as bandeiras de cartões utilizadas nos pagamentos processados pela empresa precisarão honrar os pagamentos ao recebedor final, como uma espécie de seguro aos comerciantes.

"A Associação seguirá acompanhando os desdobramentos do caso e reforça seu compromisso com a integridade, a confiabilidade e o pleno funcionamento do sistema de meios eletrônicos de pagamento no Brasil", disse a Abecs em nota.

O Grupo Entre, responsável pela Entrepay, diz que "vinha conduzindo, de forma estruturada, um processo de descontinuação das operações dessas sociedades, no contexto de uma revisão estratégica de seu portfólio de negócios, com foco na transição ordenada das atividades, no cumprimento das obrigações assumidas e na preservação da continuidade operacional durante esse período".

"O Grupo Entre reafirma seu compromisso com a colaboração integral com as autoridades competentes, prestando todos os esclarecimentos necessários e acompanhando os desdobramentos do processo de liquidação dentro dos canais institucionais apropriados, de forma também a mitigar impactos a clientes, parceiros e demais públicos relacionados", diz ainda, em nota.

A empresa afirma que outros negócios do grupo seguirão seu curso normalmente. Nos últimos anos, o empresário também ganhou notoriedade ao participar e vencer um leilão de recuperação judicial pelos ativos digitais da Editora Três, por R$ 15 milhões. Com isso, passou a controlar os portais IstoÉ e IstoÉ Dinheiro.

O conglomerado era classificado como de pequeno porte, enquadrado no segmento S4 da regulação prudencial. Em dezembro de 2025, detinha cerca de 0,009% dos ativos totais do SFN (Sistema Financeiro Nacional), segundo o BC.

Para comparação, o Banco Master tinha 0,57% do ativo total do SFN quando foi liquidado, em novembro do ano passado.

As instituições liquidadas operavam como instituição de pagamento e sociedade de crédito direto, o que significa que não captavam recursos por instrumentos cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), como CDBs. Dessa forma, não está prevista necessidade de ressarcimento a investidores, como ocorreu nos casos do Master e do WillBank.

Com a decretação da liquidação, o Banco Central determinou a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores das empresas, como previsto em lei.

A autoridade também informou que continuará a apuração das responsabilidades, o que pode resultar em sanções administrativas e comunicação a outros órgãos competentes.

Antonio Carlos Freixo Junior, o dono da Entrepay, é próximo de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master junto com Augusto Lima.

A Entrepay foi sócia de Augusto Lima até o fim de 2025 em uma outra empresa, a Consiglog, que atua no consignado para servidores do governo baiano. Lima participa do quadro de sócios da Consiglog via uma outra companhia, a Kontrollpunkt.

A Kontrolpunkt pertence ao fundo Quality Golden Service, que está na teia de fundos fraudulentos do Banco Master.

O Quality Golden Service tem ações de outras empresas ligadas a Augusto Lima, como a Moussaief Red, que opera o cartão do Programa Credcesta. O programa surgiu a partir da privatização da Ebal, a estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, que operava com um cartão de compras.

Questionado sobre a ligação, o Grupo Entre disse no início de fevereiro deste ano que "não possui qualquer vínculo societário com Daniel Vorcaro ou Banco Master".

"A participação da Entre Investimentos na Consiglog foi minoritária e estritamente como investidora financeira, entre dezembro de 2020 e o final de 2025, sem ingerência operacional ou estratégica", explicou.

A defesa de Daniel Vorcaro disse que ele nunca foi sócio da Entrepay e "houve apenas relação comercial entre Banco Master e Entrepay". "A defesa nega de forma veemente que Vorcaro seja 'dono oculto' da empresa", acrescentou.

Antes mesmo da liquidação extrajudicial decretada pelo BC, clientes da Entrepay já vinham relatando dificuldades para acessar recursos e concluir transações. As reclamações se acumulam na página da empresa no Reclame Aqui.

Os relatos seguem um padrão: valores que não chegam ao destino, saldos indisponíveis e contas com movimentação bloqueada sem explicação clara. Em muitos casos, os usuários afirmam que tentaram contato com a empresa, mas não receberam retorno ou obtiveram respostas genéricas.

Entre os problemas mais recorrentes estão transferências não concluídas -especialmente via Pix- e atrasos em repasses para contas bancárias. Há também queixas de clientes que dizem não conseguir acessar o próprio saldo por dias.

A principal irritação, porém, não é apenas o dinheiro travado, mas a ausência de comunicação. Consumidores relatam dificuldade para encontrar canais de atendimento eficazes e falta de prazos concretos para resolução dos problemas.

Parte das mensagens descreve uma sequência de tentativas frustradas: o cliente abre chamado, aguarda retorno e volta a entrar em contato sem solução. Em alguns casos, afirma ter recebido apenas respostas automáticas.

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