Bloco mais antigo do Carnaval de Salvador, Mudança do Garcia dá espaço à irreverência e à criatividade em 2024

Expectativa é de que mais de 200 mil pessoas participem do movimento na folia deste ano

[Bloco mais antigo do Carnaval de Salvador, Mudança do Garcia dá espaço à irreverência e à criatividade em 2024]

FOTO: Alfredo Filho/Secom PMS

O Carnaval de Salvador, finalmente, teve o seu pontapé dado na última quinta-feira (8). Durante os seis dias de festa, dezenas de blocos e milhões de foliões vão sair às ruas da capital baiana, em um momento único de prazer e alegria. Dentre todos eles, um bloco em especial chama a atenção todos os anos: Mudança do Garcia.

Historicamente, o bloco surgiu em 1926, com o Arranca-Tocos, criado por ex-policiais. Posteriormente, virou Faxina do Garcia e, depois, já na década de 50, por sugestão do então vereador Herbert de Castro, ganhou o nome que carrega até os dias atuais.

Para este ano, a estimativa dos organizadores do movimento é de que o bloco, que sai do bairro do Garcia com destino ao Campo Grande, nesta segunda-feira (12) de Carnaval, atraia mais de 200 mil pessoas. Como um movimento que marca os festejos há quase um século, revisitamos essa história e fomos atrás de figuras importantes que até hoje fazem diferença na construção de uma das manifestações carnavalescas mais antigas do mundo!

Irreverência (quase) centenária


Sílvio Tito/Agecom/Prefeitura de Salvador

A Mudança do Garcia é uma tradição tão antiga que gerou algumas histórias lendárias sobre sua origem. Uma dessas histórias conta que, há muito tempo atrás, uma prostituta foi expulsa por um jovem nobre do bairro, que era o pai do falecido cantor Riachão. Diz-se que a comoção causada pela expulsão da mulher foi tão intensa que, no ano seguinte, em celebração à sua partida, surgiu a Mudança do Garcia.

A Mudança do Garcia é um bloco aberto que desfila anualmente na segunda-feira de carnaval, no bairro do Garcia, como o próprio nome sugere. Apesar de hoje em dia apresentar uma forte inclinação crítica, especialmente em relação à política, a Mudança começou como uma simples brincadeira.

Segundo as más línguas, a expulsão da prostituta do bairro logo se torna notório e, no ano seguinte, as carroças saem às ruas com instrumentos de sopro e percussão em forma de protesto; assim se iniciou a brincadeira. O humor e a sátira em relação ao incidente deram origem a um espaço de crítica e entretenimento.

A diversidade é uma característica marcante da Mudança. Idosos, adultos e crianças, tanto do Garcia quanto de outros bairros de Salvador, participam livremente. Não há restrições. Todas as classes sociais se misturam no desfile.

Atualmente, a Mudança é o mais antigo bloco em atividade no Carnaval de Salvador e com uma categoria única. Ele não é afro, infantil ou travestido. “Importante dizer que tinha mudança de todos os bairros Garcia, Massaranduba, Itapagipe. A do Garcia ficou pelo empenho do organizador. Ficou sozinha, e se destacou por ser um bloco de contestação, sátira, para área política. Não se enquadra em nada”, analisa o jornalista e pesquisador Nelson Cadena, autor do livro História do Carnaval da Bahia - 130 Anos do Carnaval de Salvador.

Diversidade e inclusão


Sérgio Di Salles

Para 2024, as expectativas nunca estiveram tão altas. Segundo o presidente da Associação Recreativa e Cultural Chupe Bico e coordenador da Mudança do Garcia, Raymundo José Alves Badaró, cerca de 200 mil pessoas são esperadas nesta segunda-feira (12). “Para esse ano, nós estamos carregados de otimismo e ansiedade, à medida que os preparativos para mais uma edição desta emblemática tradição do Carnaval vão acontecendo”, afirma o coordenador da festa.

Ele ressalta ainda que a diversidade, a inclusão e o futuro são focos da edição deste ano. “A expectativa é que a Mudança deste ano seja marcada por uma explosão de criatividade e energia. Além disso, a ideia é que esse seja um momento de diversidade, inclusão, solidariedade e empatia. Tudo isso sem deixar de olhar para o futuro, à medida em que a tradição continua a evoluir e se adaptar aos desafios do mundo moderno”, complementa Badaró.

Ele assegura que os participantes estão empenhados em criar carros alegóricos e fantasias que não apenas impressiona visualmente, mas também transmitem mensagens poderosas sobre questões sociais, culturais e políticas que afetam a sociedade baiana.

“Para mim, a presença do Mudança do Garcia no Carnaval transcende a mera festividade, assumindo um papel crucial nos âmbitos político, cultural e artístico da sociedade. Esta tradição, que teve sua gênese em uma brincadeira entre moradores do bairro do Garcia, em Salvador, hoje se destaca como um dos pilares da identidade cultural da cidade e do próprio Carnaval baiano”, ressalta.

“Do ponto de vista político, a Mudança do Garcia representa uma expressão de resistência e empoderamento das comunidades locais. Em um contexto em que as desigualdades sociais e econômicas são evidentes, a participação ativa dos moradores do Garcia no Carnaval, por meio da Mudança, é um ato de reivindicação de espaço e visibilidade. Através da criatividade e da mobilização coletiva, a Mudança do Garcia mostra que as vozes das comunidades periféricas têm importância e devem ser ouvidas”, enaltece o coordenador.

Ele ainda destaca que, no aspecto cultural, a Mudança do Garcia é um tesouro do patrimônio imaterial da Bahia já que, ao longo das décadas, esta tradição se tornou um reflexo autêntico da identidade baiana, mesclando elementos da cultura popular, como música, dança e artesanato, com críticas sociais e políticas.

Já no âmbito artístico, o bloco é um verdadeiro festival de criatividade e talento. Os participantes dedicam meses de trabalho árduo na concepção e construção dos carros alegóricos e das fantasias, transformando o desfile em uma verdadeira galeria a céu aberto. Artistas de diversas áreas encontram na Mudança do Garcia uma plataforma para expressar suas visões e habilidades, elevando o nível estético e cultural do Carnaval baiano como um todo.

Para o futuro, a vida deve ser muito, mas muito longa para o bloco da Mudança do Garcia, pelo menos no que depender dos organizadores. "Nosso objetivo é garantir que a Mudança do Garcia permaneça como um símbolo duradouro da identidade e da cultura baiana, inspirando gerações presentes e futuras a celebrar a vida com paixão e autenticidade”, finaliza Badaró.

Que assim seja, pois o Carnaval baiano agradece.


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