Casa de Acervo.Oficina anuncia restauro de quadros do artista visual e compositor Surubim Feliciano da Paixão!
Espaço de preservação da memória do Teatro Oficina ganha novo foco com a conservação de pinturas do pernambucano.

Foto: Divulgação
O sobrado da Bela Vista que guarda três décadas de memória viva do Teatro Oficina acaba de ganhar um novo capítulo. A Casa de Acervo Oficina, espaço inaugurado em 2023 para abrigar figurinos, adereços e objetos de cena da histórica companhia – fundada por José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles, Jairo Arco e Flecha, Amir Haddad e Moacyr do Val – anuncia agora o início do restauro de um conjunto de pinturas de Surubim Feliciano da Paixão, artista nascido em 1940, em Machados, no agreste pernambucano, e morto em São Paulo, em 1991.
Zelador, cirandeiro, músico, compositor e artista visual, Surubim trabalhou no Oficina a partir do retorno de vários integrantes da companhia do exílio, em 1979. No início dos anos 1980, participou de eventos musicais realizados pelo teatro, capitaneando um conjunto de ciranda e o grupo Forró do Avanço, além de integrar o circo comandado por Verônica Tamaoki e todos os movimentos forjados pela trupe do Oficina.
Surubim também é autor de Tupi or not Tupi, uma das músicas mais emblemáticas da versão cinematográfica de O Rei da Vela, projeto iniciado em 1971 e interrompido em 1974 pela ditadura, quando seus idealizadores foram presos e exilados. Finalmente concluído em 1982, o filme teve direção de Zé Celso e Noilton Nunes, com Renato Borghi, José Wilker, Esther Góes, Henriqueta Brieba, Carlos Gregório e Maria Alice Vergueiro, entre outros, no elenco. Em 1985, com parte dos direitos autorais obtidos com a venda do filme para a Alemanha, Surubim produziu e gravou seu único disco autoral, Tupi or not Tupi, acompanhado do grupo Caboclos Cirandeiros e Os Tupis do Oficina e reafirmando a canção como um dos hinos da companhia.
Ao longo de 12 anos, Surubim foi também parte de uma geração que incluiu Edgard Ferreira, Sandy Celeste e Zuria – artistas que estiveram na linha de frente de um processo fértil para a construção do espetáculo Os Sertões – e foi ainda uma personagem chave no processo de tombamento e desapropriação do Teatro Oficina. “Zelador, cirandeiro, músico compositor, artista visual, liderança política e artística: a obra de Surubim Feliciano da Paixão nasceu do chão do teatro, da convivência com os atores, da música e da fé que ele trazia de Pernambuco”, afirma Elisete Jeremias, diretora geral da Casa de Acervo Oficina. “Restaurar seus quadros é devolver a uma de nossas inspirações e um dos nossos mestres o devido lugar de destaque.”
Os quadros – o mais famoso deles, O Fantástico Cavalo Azul – foram criados por Surubim ao longo da década de 1980, especialmente durante as leituras e ensaios que antecederam a montagem de Mistérios Gozósos (1983). Pintadas sobre suportes improvisados como tampos de madeira, as telas sintetizam o espírito livre e a simbiose entre palco, arquitetura e imaginário popular que marcaram a retomada do Oficina após a volta de Zé Celso do exílio em Portugal e Moçambique.
O projeto de conservação será coordenado pela restauradora Valéria de Mendonça, que atuou na Pinacoteca do Estado de São Paulo, por 14 anos, e é referência na área de pintura de cavalete e na implantação de reservas técnicas em instituições públicas.
“Quando a Valéria veio aqui e viu os quadros do Surubim, ela se apaixonou na hora. Esse restauro não foi um trabalho encomendado – foi um encontro”, conta o ator Victor Rosa, coordenador geral da Casa de Acervo Oficina e integrante do Teatro Oficina desde 2018. “Ela reconheceu a precariedade radical da pintura, o artista que usava o que tinha, e disse: ‘Temos que fazer de qualquer jeito!’. Agora o Surubim é o próximo movimento natural desse organismo vivo que é a Casa de Acervo Oficina.”
Em 23 de Abril de 2026, dia de São Jorge, a sede do Bixiga da Casa de Acervo Oficina foi tomada pelo grupo de trabalho composto por Elisete Jeremias, Bianca Terraza, Joel Carlos, Alessandra Cavaco, Victor Rosa e Valéria de Mendonça, que deram início aos processos de pesquisa e restauração dos quadros de Surubim – ação coletiva que seguirá um cronograma de três meses, com atividades às segundas e quintas-feiras.
Balanço do ProAC
Ao longo de 12 meses, o aporte financeiro do ProAC transformou a Casa de Acervo Oficina do que seus coordenadores descreviam como um “depósito” para uma reserva técnica organizada e acessível. Mais de 3.500 peças foram catalogadas (superando a meta inicial de 3 mil), e mais de 2 mil itens foram digitalizados na plataforma Tainacan (UnB/Ibram), disponibilizando imagens e fichas técnicas para pesquisadores, escolas de moda, artistas e público geral interessado – tudo isso de forma gratuita graças a iniciativas públicas como o ProAC.
A equipe do projeto envolveu cerca de 20 artistas da própria companhia – atores, camareiras, cenotécnicos – sob a direção de Elisete Jeremias e coordenação de Victor Rosa. A camareira Cida Melo, há mais de 25 anos guardiã voluntária dos figurinos, foi peça-chave na preservação que permitiu que a coleção chegasse ao patamar atual, e a formação da trupe que conduz o dia a dia da Casa de Acervo Oficina foi potencializada com uma oficina de Conservação Têxtil com a consultora Cláudia Nunes, referência internacional, que ministrou técnicas de acondicionamento e higienização.
“Nosso trabalho com o ProAC nunca foi só cumprir metas. Foi provar que um acervo de grupo pode ser tratado com grande rigor técnico, sem perder a alma de teatro vivo”, explica Henrique Pina, gestor de projeto da Casa de Acervo Oficina. “Isso mostra o que o fomento público bem aplicado pode fazer: não apenas organizar o passado, mas lançar pontes para o futuro. É a prova de que, quando o poder público confia nos artistas, o retorno é concreto, público e duradouro. Agora, o grande sonho é termos um espaço com sede própria e uma central técnica unificada e acessível, que contemple todo o acervo do Teatro Oficina – mas esse primeiro passo já é histórico”, comemora.
O sobrado de três pavimentos que sedia a Casa de Acervo Oficina também passou por adequações de infraestrutura (segurança patrimonial, equipamentos contra incêndio e outros), e no espaço foram produzidos conteúdos audiovisuais de memória oral para o canal de YouTube do Teatro Oficina. A Casa de Acervo Oficina também incrementou, ao longo dos 12 meses de aporte do ProAC, o volume de visitas guiadas e segue realizando locações de peças da própria companhia e para projetos externos, teatrais, mas também audiovisuais e de eventos – gerando difusão do acervo e sustentabilidade.
“O restauro das obras do Surubim dá visibilidade a parte de uma vasta história do Teatro Oficina. Memória não é acúmulo. É responsabilidade. Com Vadim Nikitin e Catherine Hirsch aprendemos que a cena não termina na estreia – o trabalho continua, se refaz, se sustenta. Dar continuidade a esse legado é assumir um compromisso: não apenas guardar, mas cuidar, ativar e transmitir. Queremos escolas de moda, artistas, técnicos, estudantes. Queremos troca, circulação, sem exclusão. A Casa de Acervo Oficina aponta para um modelo de teatro que cuida do que produz. Preservar arte é uma escolha de futuro”, conclui Elisete jeremias.
Além das visitas e das locações, a Casa de Acervo Oficina também conta com um brechó e um ponto de vendas das mercadorias da companhia, além de receber uma porcentagem da bilheteria de espetáculos do Teatro Oficina que usem peças do acervo, para a viabilização da continuidade da rotina da casa, que pode ser acompanhada no perfil do Instagram @casadeacervo.oficina Mesmo com os avanços recentes, a manutenção do espaço ainda é frágil. A locação e manutenção do sobrado e a remuneração de profissionais dependem de novos apoios. Desde 2016, a companhia não conta com patrocínio regular. Por isso a Casa de acervo Oficina aceita doações e colaborações pela chave Pix casadeacervo.oficina@gmail.com


