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Convento do Desterro: conheça a instituição responsável pela produção de licores mais antiga do país

O cardápio conta com mais de trinta opções com sabores mais tradicionais e até alguns inusitados, como fruta-pão, gerânio, guaco e carambola

Por Giovanna Amorim, Glaucia Campos
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Convento do Desterro: conheça a instituição responsável pela produção de licores mais antiga do país

Foto: Samara Figueiredo/ Farol da Bahia

O licor é um dos principais elementos das festas de São João na Bahia. O Convento do Desterro, no Centro Histórico de Salvador, liderado pelas irmãs franciscanas, é tradicionalmente conhecido pela produção artesanal há séculos, com sabores que variam dos mais tradicionais, como jenipapo e tamarindo, a alguns inusitados como fruta-pão, gerânio, guaco e carambola.  

A bebida alcoólica costuma ser feita tradicionalmente a partir de infusão de frutas e ervas. Entre os mais famosos produzidos pelas irmãs está o licor de rosas, feito a partir da infusão da chamada Rosa Rainha Elizabeth, cultivada no pomar do Convento. Contando com ele, o cardápio tem mais de trinta opções de sabores. 

A irmã Maria Aparecida dos Santos, responsável pela produção, explicou que a bebida é feita em uma das salas da instituição. No local, são dispostos grandes potes de vidro com frutas, ervas e rosas que descansam em infusão por meses. Ela  destacou que o trabalho começou ainda com as religiosas portuguesas, que utilizavam os licores e outros trabalhos artesanais para ajudar na manutenção do convento.

“Desde as irmãs clarissas, em 1677, quando vieram quatro irmãs de Portugal, elas já trabalhavam com licor, culinária e costura para manter o convento. Elas deixaram esse legado para nós”, disse.

O Convento de Santa Clara do Desterro é considerado o primeiro convento feminino do Brasil e o monastério mais antigo do país. Foi lá que as Irmãs Clarissas, vindas de Évora, em Portugal, trouxeram não apenas a vida religiosa, mas também o costume de fabricar licores artesanais. A tradição permanece até hoje sob os cuidados das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus.

Os sabores

A produção acontece durante todo o ano, mas é entre maio e junho que o ritmo aumenta para atender à demanda das festas juninas. Ainda segundo a irmã Aparecida, este mês é o mais movimentado.“Durante todo o ano a gente fabrica. Agora, neste tempo de São João, a demanda é maior, então a gente acelera mais um pouco o processo”. 

Aparecida comenta que o campeão de vendas é o jenipapo, seguido pelo famoso licor de rosas. Além deles, sabores como tamarindo, maracujá, cajá, jabuticaba, gengibre, cupuaçu, anis, erva-doce, carambola e caju costumam fazer sucesso entre os clientes. Há ainda experiências pouco convencionais criadas pela própria irmã, como o licor de fruta-pão.

“Eu gosto de fazer coisas diferentes para as pessoas experimentarem. E tem dado certo”, diz, sorrindo.

O processo de fabricação exige paciência. O licor de rosas, por exemplo, pode permanecer entre oito meses e dois anos em infusão. Depois disso, a bebida ainda passa por várias etapas de filtragem antes de ser engarrafada.

“A gente colhe as rosas no quintal, faz a higienização e coloca em infusão. Depois vai para preparação, filtra e engarrafa”, explica a irmã.

Mesmo funcionando em um espaço pequeno, a produção anual chega a cerca de 3 mil litros, somando garrafas de diferentes tamanhos. A renda obtida ajuda na manutenção do convento e nos projetos sociais desenvolvidos pelas religiosas.

“É um trabalho artesanal, pequeno, mas ajuda a pagar as contas. O sucesso é trabalhar com muito carinho e alegria. É colocar o amor acima de tudo”, destaca irmã Aparecida.

Bebida sagrada

A relação entre religião e bebidas alcoólicas costuma parecer inusitada para alguns, porém o licor começou a ser produzido há séculos dentro de conventos e mosteiros e era utilizado em festejos religiosos. Irmã Aparecida, ressalta que a dose certa é o segredo para consumir a bebida da melhor forma. “É uma coisa que sempre existiu e existe, então, tem que ser tomada com moderação”.

A relação da religiosa com o Convento também atravessa décadas. Natural do interior baiano, ela chegou ao Desterro ainda jovem, em 1984, quando decidiu seguir a vida religiosa. Integrante de uma família com 17 irmãos, ela é trigêmea e divide a vocação com as duas irmãs, que também se tornaram freiras.

“Eu me encantei vendo outras irmãs em missão e disse: ‘eu quero ser igual a essa irmã’. Foi algo plantado no coração”, relembra. Em 2021, ela assumiu a coordenação da produção das bebidas. 

Durante o São João, a movimentação na Confeitaria São José, lojinha do convento, cresce significativamente. Além dos licores, o espaço também comercializa sequilhos e doces cristalizados, como o doce de jenipapo.  A loja fica aberta de segunda a sábado, das 8h às 11h30 e das 13h30 às 16h30. 


 

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