De vota à velha Fonte Nova

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De vota à velha Fonte Nova

Foto: Letícia Martins/EC Bahia

Por Pacheco Maia

Domingo é dia de Fonte Nova! Se no sábado, a diversão era em Buraquinho ou no Clube Português, no dia seguinte, havendo jogo do Bahia, o destino daquela garotada da fuzarca era o estádio Otávio Mangabeira. 

O governador homenageado ficou mais conhecido pelas tiradas sarcásticas do que pela placa de identificação da praça desportiva: “Diga um absurdo! Na Bahia tem precedente!”.

Hoje a nova e careta Fonte Nova tem “naming rights”. Paga-se uma fortuna para ter a marca associada à Arena, onde agora não são mais realizadas apenas partidas de futebol, mas espetáculos dos mais variados tipos: musicais e religiosos.

Fui pouco lá nesses novos tempos. Vi uma apresentação da Seleção Brasileira na Copa das Confederações, alguns jogos do Bahia e ao show de Paul McCarthney.

Não foram experiências tão marcantes, excluindo o show do ex-Beatles. As da infância e adolescência são incomparáveis. As lembranças pululam cheias de júbilo na memória, quando o filme começa a passar na mente.

É bom destacar que aquelas tardes na Fonte Nova não se resumiam aos jogos do Bahia, que geralmente começavam às quatro da tarde. Seu Alberto, portuga gente boa da melhor qualidade, pai de Adriano, à uma e meia, já se postava ao lado do Opalão dele, aguardando a  nossa chegada.

Início dos anos 1970, o Opala, modelo da Chevolet-GM, ainda tinha o câmbio das marchas no alto, ao lado do volante. Isso permitia que o banco da frente não se dividisse. Cabia nele Seu Alberto, um garoto menor, Rogério, irmão de Adriano, e um adulto, que geralmente era Dr. Pithon, dentista, pai de Vicente e Pithonzinho. Meu pai, poucas vezes, foi. Domingo era dia de missa e descanso para ele.

Parte da garotada ia no banco de trás e a outra no porta-mala que seguia aberto do Canela ao Campo da Pólvora. Era defronte ao Fórum Ruy Barborsa, onde Seu Alberto gostava de estacionar o carro. O espaço era disputado e, por isso, precisávamos chegar cedo. Também precisávamos comprar os ingressos, naqueles buraquinhos das paredes do estádio, onde eram vendidos.

Com ingresso na mão, era passar pela borboleta e entrar pelas portarias da Ladeira da Fonte. Depois ir para o local tradicional da torcida tricolor, no canto ao ladinho esquerdo do placar. Era um lugar com sombra. Do outro lado, o sol era de lascar, onde ficava a torcida mista. 

Então, em dia de BaVi, não tinha essa de torcida única. Tricolores e rubro-negros compartilhavam as áreas mistas numa boa. No canto da Ladeira da Fonte, na divisa entre as arquibancadas e cadeiras, se concentravam os torcedores do Vitória, e do lado dique, os do Bahia. 

Esses setores eram zonas perigosas, mas geralmente o que poderia acontecer, durante os Bavis, era a provocação de um torcedor circular nessas áreas com a camisa do adversário. Aí os oponentes tomavam a camisa do provocador a lascavam e queimavam. De violência física, no máximo, uns cascudos pela transgressão. O resto era misto. Livre.

Quando chegávamos pouco antes das duas, a Fonte Nova ainda permanecia vazia, mas os ambulantes já estavam a postos com suas “guias”. A oferta de produtos era diversificada. 

Como o horário ainda era de sol causticante e calor, a movimentação era de vendedores de “picolé capelinha”, cujo marketing mesmo era a qualidade do produto e o preço. Aliás, picolé capelinha podia ser qualquer um. Não havia nenhum invólucro de papel com a marca, que era mais sonora do que visual. O consumidor só ia descobrir se era o original depois de saboreá-lo, mas aí o picoleiro já estava longe.

O calor impunha hidratação. Os vendedores de água mineral apregoavam seus produtos e sempre tinha um engraçadinho para dizer que a água era do Dique. Também transitavam os ambulantes com isopores grandes, comerciando cerveja e refrigerantes. 

Outro produto que não faltava era o rolete de cana. A galera não deixava passar batido. Dizia que o aspecto úmido do rolete era o cuspe dos vendedores para a cana não ficar ressecada. Eu adoro. Sempre comprava e nunca tive nada.

Havia também os sorveteiro que acondicionavam seus produtos naqueles recipientes de metal que pareciam uma tuba. Eram sorvetes deliciosos. Não havia muita variação de sabores. Geralmente eram de coco e nata goiaba. Baianas e vendedores de cachorro-quente ficavam nos corredores dos bares.

O amendoim cozido no saquinho não faltava. Seu Alberto e Adriano não dispensavam. Rolavam ainda pipoca, amendoim torrado e até algodão doce. O galhofeiro Nikimba que era Vitória e não ficava conosco no mesmo lugar dizia que, do outro lado, sabia onde estávamos por causa da fila de ambulantes que se formava para atender Rogério.

O irmão caçula de Adriano, gordinho, era um glutãozinho. O paizão, seu Alberto, atendia aos desejos do filho. O gentil português nos oferecia também. Mas ninguém tinha o apetite de Rogério, que era inesgotável. 

Pouco antes de começar os jogos, rolava o espetáculo circense de Lourinho, líder da torcida tricolor. Ele invadia o campo com um ebó e despachava a macumba no campo. O estádio desabava em gargalhadas com a palhaçada. Durante a partida, ele disparava a charanga para despertar a torcida e os jogadores. Bora Bahia Minha Porra!

O apito do juiz trilava e era aquela tensão, principalmente, nos Bavis. O clássico era duro. Quando Osni jogava com a sete do Vitória e Romero era o lateral esquerdo do Bahia, o baixinho não podia dar um nó desconcertante no tricolor, que o segurava pelas madeixas. 

Uri Jésum, com a 11 do Bahia, entortava as defesas adversárias com seus dribles a lá Garrincha. A torcida delirava. Quando o Esquadrão balançava as redes era puro extâse. Uma catarse geral que deixava a todos animados para encarar as aulas na segunda-feira.

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