Desigualdade sobe em 2025, mas é a 2ª menor da série no Brasil; renda cresce mais para ricos
Conforme o órgão, o rendimento domiciliar per capita (por pessoa) cresceu para pobres e ricos no ano passado

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil
LEONARDO VIECELI
Após atingir a mínima histórica em 2024, a desigualdade de renda medida pelo índice de Gini subiu no país em 2025, apontam dados divulgados nesta sexta-feira (8) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Conforme o órgão, o rendimento domiciliar per capita (por pessoa) cresceu para pobres e ricos no ano passado, mas a alta foi mais intensa para quem ganha mais, o que explica a subida da disparidade. O Gini varia de 0 (igualdade máxima) a 1 (desigualdade máxima). Quanto maior o número, mais elevada é a concentração de renda em um local.
Em 2025, o índice brasileiro foi calculado em 0,511, o que significa um avanço de 1,4% ante a mínima verificada em 2024 (0,504).
Apesar da elevação, o patamar do ano passado é o segundo menor já registrado na série do IBGE, iniciada em 2012. Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua): Rendimento de todas as fontes. "A renda cresceu para todas as classes. Não houve piora. Mas, no topo da pirâmide, os 10% da população de maior renda tiveram crescimento acima da média", disse Gustavo Geaquinto Fontes, analista da pesquisa do IBGE.
O técnico chamou a subida do Gini de "pequena oscilação" para cima, perto do campo da estabilidade. O indicador leva em conta as diferenças da renda média domiciliar per capita do trabalho e de fontes como aposentadorias, pensões, aluguéis, programas sociais e aplicações financeiras. O rendimento per capita soma esses recursos e divide o resultado pelo número de moradores nos domicílios.
RENDA DOS 10% MAIS RICOS TEM ALTA DE 8,7%
Na média do país, a renda por pessoa foi estimada em R$ 2.264 por mês em 2025. O valor cresceu 6,9% ante 2024, renovando o recorde da série. Entre os 10% mais ricos da população, a alta chegou a 8,7%. O rendimento do grupo alcançou R$ 9.117, outra máxima da pesquisa.
Enquanto isso, no extremo formado pelos 10% mais pobres, a renda per capita subiu 3,1%, a R$ 268. O valor também é recorde, apesar da variação menos intensa. Como não houve ampliação de programas sociais em 2025, o rendimento dos mais pobres subiu menos, indicou o IBGE.
A parcela da população que contava com recursos de benefícios ficou em 9,1% no ano passado, nível similar ao de 2024 (9,2%). O valor médio pago pelos programas sociais foi estimado em R$ 870 em 2025, próximo ao observado na leitura anterior (R$ 875). A pesquisa abrange benefícios do governo federal, como Bolsa Família e BPC, e iniciativas de estados e municípios.
"O benefício de programa social não teve reajuste, manteve-se estável. Não contribuiu para o aumento da renda dessas famílias", disse Gustavo Geaquinto Fontes, do IBGE.
Já o rendimento médio de todos os trabalhos, que impacta ricos e pobres, foi estimado em R$ 3.560 em 2025. O valor renovou a máxima da pesquisa, com alta de 5,7% ante 2024. O trabalho é a principal fonte de renda dos domicílios brasileiros. Além dele, ganhos com aluguel e aplicações financeiras em um contexto de juros altos também podem ter beneficiado os mais ricos no ano passado, indicou Gustavo.
Em média, o rendimento proveniente de aluguel aumentou 11,8% em 2025, para R$ 2.526. Na categoria descrita como outros rendimentos, que inclui opções como aplicações financeiras, o crescimento foi de 3,6%, para R$ 2.302. O Brasil é historicamente um país desigual. Na série da Pnad, a maior disparidade foi encontrada no Gini de 2018 (0,545), antes da pandemia.
Após a crise sanitária, o índice conseguiu se manter em um patamar inferior, sob impacto de benefícios sociais e da recuperação do mercado de trabalho.
O Gini, porém, nunca ficou abaixo de 0,5 na pesquisa. Índices na faixa de 0,5 sinalizam desigualdade elevada, avalia André Salata, coordenador do laboratório de estudos PUCRS Data Social.
Segundo ele, países nórdicos, mais igualitários, mostram indicador em torno de 0,25 a 0,3, enquanto nações como os Estados Unidos, com disparidade maior, registram número próximo a 0,4. O IBGE não divulgou comparações internacionais.
Em 2025, o rendimento médio per capita dos 10% mais ricos da população brasileira (R$ 9.117) correspondeu a 13,8 vezes o encontrado entre as pessoas 40% mais pobres (R$ 663). A razão segue mostrando diferenças profundas, mas é a segunda menor da série. Fica atrás apenas da registrada em 2024 (13,2 vezes).
CENTRO-OESTE TEM MAIOR DESIGUALDADE PELA 1ª VEZ
Entre as regiões, o Centro-Oeste teve a maior desigualdade medida pelo Gini no ano passado (0,506). É a primeira vez que isso ocorre na Pnad. A região deixou para trás o Nordeste (0,503). Sudeste (0,500) e Norte apareceram na sequência (0,492), enquanto o Sul continuou com a menor disparidade (0,458).
O Centro-Oeste é conhecido por reunir servidores da elite do funcionalismo em Brasília. Entre as unidades da federação, o Distrito Federal registrou mais uma vez a maior renda per capita (R$ 4.401) e a maior desigualdade no Gini (0,570).
O Rio de Janeiro vem na sequência do ranking de disparidade (0,543). Santa Catarina mostra a distribuição de renda menos desigual na pesquisa (0,425).
Embora o Gini seja usado frequentemente para calcular a concentração de rendimentos, pode encontrar dificuldades para captar recursos no topo da pirâmide social, como ganhos com juros e dividendos. A redução da pobreza e das desigualdades e o crescimento da renda são bandeiras do governo do presidente Lula (PT), que tomou posse para seu terceiro mandato em 2023.
O petista deve tentar a reeleição em outubro deste ano, mas tem sido ameaçado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em pesquisas de intenção de voto. O endividamento recorde das famílias em um cenário de juros elevados e o nível dos preços dos alimentos são apontados como desafios para Lula em 2026.
A Pnad divulgada nesta sexta pelo IBGE leva em conta dados populacionais atualizados após o Censo Demográfico 2022. Com isso, os resultados de anos anteriores podem apresentar pequenas diferenças na comparação com os números publicados inicialmente.
DESIGUALDADE DE RENDA NO BRASIL
Variação do índice de Gini, de 0 (igualdade máxima) a 1 (disparidade máxima)*
2012 -- 0,540
2013 -- 0,532
2014 -- 0,526
2015 -- 0,524
2016 -- 0,537
2017 -- 0,539
2018 -- 0,545
2019 -- 0,543
2020 -- 0,523
2021 -- 0,543
2022 -- 0,517
2023 -- 0,517
2024 -- 0,504
2025 -- 0,511
*Considera rendimento domiciliar per capita (por pessoa)
Fonte: IBGE
RENDA PER CAPITA DOS EXTREMOS DA POPULAÇÃO
Média domiciliar mensal, em R$
10% MAIS POBRES
2012 -- 171
2013 -- 188
2014 -- 203
2015 -- 192
2016 -- 165
2017 -- 152
2018 -- 150
2019 -- 150
2020 -- 173
2021 -- 117
2022 -- 187
2023 -- 230
2024 -- 260
2025 -- 268
Fonte: IBGE
RENDA PER CAPITA DOS EXTREMOS DA POPULAÇÃO
Média domiciliar mensal, em R$
10% MAIS RICOS
2012 -- 7.638
2013 -- 7.782
2014 -- 7.880
2015 -- 7.569
2016 -- 7.670
2017 -- 7.704
2018 -- 8.094
2019 -- 8.147
2020 -- 7.566
2021 -- 7.213
2022 -- 7.337
2023 -- 8.256
2024 -- 8.385
2025 -- 9.117
Fonte: IBGE
VARIAÇÃO DA RENDA PER CAPITA DOS EXTREMOS DA POPULAÇÃO
Em % de 2024 para 2025
10% mais pobres - 3,1
10% mais ricos - 8,70
Fonte: IBGE
DESIGUALDADE DE RENDA NAS REGIÕES EM 2025
Variação do índice de Gini, de 0 (igualdade máxima) a 1 (disparidade máxima)*
Centro-Oeste -- 0,506
Nordeste -- 0,503
Sudeste -- 0,500
Norte -- 0,492
Sul -- 0,458
*Considera rendimento domiciliar per capita (por pessoa)
Fonte: IBGE
DESIGUALDADE DE RENDA NAS UFS EM 2025
Variação do índice de Gini, de 0 (igualdade máxima) a 1 (disparidade máxima)*
Distrito Federal -- 0,570
Rio de Janeiro -- 0,543
Rio Grande do Norte -- 0,540
Sergipe -- 0,532
Pernambuco -- 0,520
Alagoas -- 0,512
Acre -- 0,509
Piauí -- 0,508
Paraíba -- 0,507
Ceará -- 0,506
Roraima -- 0,506
Amapá -- 0,495
Pará -- 0,492
São Paulo -- 0,491
Maranhão -- 0,491
Amazonas -- 0,488
Espírito Santo -- 0,480
Goiás -- 0,479
Minas Gerais -- 0,473
Tocantins -- 0,472
Paraná -- 0,470
Rio Grande do Sul -- 0,468
Bahia -- 0,466
Rondônia -- 0,458
Mato Grosso do Sul -- 0,457
Mato Grosso -- 0,439
Santa Catarina -- 0,425
*Considera rendimento domiciliar per capita (por pessoa)
Fonte: IBGE


