Do auge ao ‘flop’? A relevância dos debates eleitorais na TV em xeque

Ausência de candidatos bem posicionados nas pesquisas de intenção de votos em debates eleitorais não é novidade

Por Inara Almeida
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Do auge ao ‘flop’? A relevância dos debates eleitorais na TV em xeque

Foto: Reprodução

A menos de um mês do primeiro turno das eleições gerais de 2026, os brasileiros ainda não tiveram a oportunidade de acompanhar um confronto direto entre os candidatos à Presidência mais competitivos deste pleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Após não participarem do primeiro debate presidencial, realizado em agosto, os dois também deixaram de confirmar presença no segundo encontro, que estava previsto para este mês de setembro. Nos bastidores, já circula a ideia de que ambos podem não participar de nenhum debate até o primeiro turno das eleições.

A ausência de candidatos bem posicionados nas pesquisas de intenção de votos em debates eleitorais não é uma novidade. O presidente Lula, por exemplo, pode repetir o cenário ocorrido há 20 anos caso não compareça a nenhum debate. Em 2018, o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) também não participou de nenhum debate no segundo turno, após sofrer um atentado a faca. Antes disso, em 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição, optou por não participar de debates televisivos no primeiro turno.

Em um contexto de crescente centralidade das redes sociais digitais nas campanhas eleitorais, que privilegiam conteúdos próprios das plataformas e estratégias de viralização, o confronto direto de ideias pode perder espaço na disputa pela atenção do eleitorado. Com isso, a relevância dos debates tradicionais diante das novas formas de comunicação política passa a ser colocada em questão. Afinal, o que tem levado os debates a ‘floparem’?

Para o cientista político Cláudio André, coordenações de campanhas têm percebido que o modelo dos debates presidenciais com muitos candidatos torna-o “engessado” e abre espaço para a desestabilização da imagem diante de uma estratégia de ataque político ou pessoal.

Além disso, o especialista chama a atenção para o “peso das redes sociais” no cenário eleitoral. “Essa perspectiva de colocar o eleitor para assistir um confronto direto de ideias perde um pouco de eficácia e espaço quando há um aumento de exposição das pessoas às candidaturas pelas redes sociais”, destacou.

Efeito comunicação digital

 A lógica da economia da atenção, baseada no ‘jogo’ com algorítmos a fim de viralizar conteúdos nas redes, tem surtido efeito na forma que os candidatos se comportam, avalia o cientista político Eduardo Grizenti.

“Teve Marçal em 2024, agora nós vimos o Renan Santos, muito agressivo também, muito na tática do Marçal, e o próprio Augusto Cury se alavancou muito no primeiro debate e, depois, com uma estratégia de micro-targeting e de impulsionamentos no digital que chegou a colocar ele com 10, 11% em pesquisas logo em seguida”, disse.

Para Grizenti, existe uma avaliação de que os candidatos têm mais a perder do que a ganhar comparecendo a debates – e esse risco aumentou com as redes sociais. “Em 2022, a gente teve basicamente um espetáculo de entretenimento. Os memes existem até hoje. E ficou um circo escancarado. Se antes era um teatro, agora se tornou um circo. Então, acho que a estratégia vai por esse caminho mesmo, de não ter muito a ganhar, ter muito mais a perder”, destacou o cientista político.

Nesse sentido, Eduardo Grizenti defende que veículos de comunicação priorizem as sabatinas individuais, por serem “mais eficientes do ponto de vista da exposição de ideias”, ao contrário dos debates, que carregam a lógica de ‘campo de batalha’. O cientista político pondera, entretanto, que as entrevistas precisam ter no horizonte o aprofundamento de propostas, e não puramente o combate.

“Deve-se tirar os candidatos da zona de conforto que eles têm nos seus ambientes digitais, mas não de uma forma adversarial, mas de uma forma expositiva, que mostre as inconsistências, as contradições, que você apresente fatos que eles tentam evitar. Eu acho que isso talvez possa informar melhor aos eleitores”, opinou.

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