Dólar fecha a R$ 5,07, maior nível desde abril, com cenário eleitoral e piora externa; Bolsa cai
O real também se desvalorizou em meio à aversão global ao risco e à busca por ativos de proteção

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MATHEUS DOS SANTOS - O dólar fechou em disparada de 1,58%, cotado a R$ 5,066, nesta sexta-feira (15), no maior nível desde 8 de abril, com investidores cautelosos em relação aos desdobramentos políticos da ligação entre o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master.
O real também se desvalorizou em meio à aversão global ao risco e à busca por ativos de proteção, impulsionadas pela alta do petróleo e pelo fim dos encontros entre Donald Trump e Xi Jinping sem um acordo sobre a guerra no Irã.
A Bolsa brasileira foi contaminada por esse sentimento e recuou 0,60%, aos 177.283 pontos. No exterior, os índices de Wall Street também caíram, com o Nasdaq liderando as perdas, de 1,54%.
Na semana, o dólar registrou alta de 3,5% com a volatilidade, na maior valorização semanal de 2026. A Bolsa, por outro lado, recuou 3,7%.
A cautela também refletiu nos juros futuros. As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros), que revelam a expectativa do mercado para a trajetória futura da Selic, subiram em bloco com analistas projetando uma alta nos juros.
A taxa do DI para janeiro de 2028 avançou para 14,13%, em alta de 14 pontos-base ante o fechamento da véspera - em março, quando o Tesouro fez recompras de títulos para conter a alta nos juros futuros, a taxa havia chegado a 13,98%. Na ponta longa da curva, a taxa do DI para janeiro de 2035 marcava 14,28%, alta de 17 pontos-base ante a sessão anterior.
No mercado doméstico, as atenções continuaram voltadas para o cenário eleitoral. A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro voltou a pressionar o real e a Bolsa de Valores brasileira.
O site Intercept Brasil revelou que Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", com um aporte de R$ 61 milhões por parte do ex-banqueiro. A Folha e o próprio Flávio confirmaram as mensagens o senador negou ter recebido ou oferecido vantagens por conta disso.
A Polícia Federal suspeita que recursos ligados a Vorcaro foram utilizados para financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos - onde ele reside desde fevereiro de 2025. Eduardo e Flávio negam.
As revelações provocaram a maior alta do dólar desde 5 de dezembro, data em que a moeda disparou 2,33% após o anúncio de Flávio Bolsonaro como candidato de Jair Bolsonaro, surpreendendo o mercado financeiro, que até então preferia o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
A volatilidade acompanha o temor de que a noticía sobre o caso dificulte a candidatura presidencial do senador carioca. "A crise envolvendo o senador pré-candidato à Presidência enfraquece a tese de alternância em 2027 que vinha sustentando ativos brasileiros, ao mesmo tempo em que o governo acelera medidas populares com custo fiscal potencial", diz Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.
Para Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital, há uma inversão na imagem do Brasil como um país de menor risco. "O investidor - principalmente o estrangeiro - vinha precificando um Brasil sem tanto risco e tinha a expectativa de que uma troca de poder político pudesse trazer um equilíbrio fiscal. Diante desse escândalo, essa narrativa acaba perdendo força".
Analistas avaliam que o senador tem perfil mais alinhado ao controle de gastos do que o atual presidente, Lula. Integrantes da equipe econômica do pré-candidato defendem um ajuste fiscal inicial equivalente a dois pontos percentuais do PIB (Produto Interno Bruto) em caso de vitória eleitoral.
O exterior também pesou contra os ativos domésticos. O encontro entre o líder do regime chinês, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim, terminou sem grandes anúncios. A expectativa era de que o encontro gerasse avanços nas negociações do conflito no Oriente Médio.
Nesta sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China emitiu um comunicado pedindo por um cessar-fogo "abrangente e duradouro" o mais rápido possível na guerra, além de afirmar que o conflito "jamais deveria ter acontecido" e "não tem razão para continuar".
Em entrevista na quinta, Trump afirmou que Xi ofereceu ajuda para abrir o estreito de Hormuz e prometeu não enviar equipamentos militares para auxiliar o Irã no conflito.
A falta de avanços pressionou os preços do petróleo. O contrato de julho do barril Brent, referência internacional, avançava 3,49%, a US$ 109,41. Na máxima do dia, o preço da commodity chegou a US$ 109,75 (+3,81%), no maior valor alcançado nos últimos dez dias.
O conflito também gerou uma maior busca por ativos de segurança em meio às incertezas. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a seis outras divisas fortes, avança, com alta de 0,42%.
A guerra pressiona as cotações do petróleo e adiciona incertezas às cadeias globais de insumos, aumentando a preocupação com uma alta inflacionária no mundo. Além do efeito sobre os combustíveis, há temor de repasses para produtos como alimentos, já que o diesel é um dos principais insumos da cadeia produtiva.
Nos EUA, por exemplo, o conflito tem elevado os indicadores de inflação, como o CPI (índice de preços ao consumidor, na sigla em inglês) e o PPI (índice de preços ao produtor, na sigla em inglês). Nesta semana, os dois indicadores, referentes a abril, vieram acima do esperado pelos analistas.
Os resultados elevaram as projeções de juros mais altos no país, com a maioria do mercado estimando que o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) manterá a taxa no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao longo de todo o ano. Uma postura mais cautelosa do Fed fortalece ativos norte-americanos, como o dólar e os Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA), pressionando moedas de mercados emergentes, como o real.


