Domínio de facções faz da segurança principal preocupação do eleitor do Nordeste
O tema tem guiado as oposições na campanha eleitoral

Foto: Ilustrativa
UAZEIRO DO NORTE, CE, CRATO, CE E SALGUEIRO, PE (FOLHAPRESS) - Um outeiro na zona rural de Salgueiro, sertão de Pernambuco, abriga uma igrejinha branca em meio a um descampado quase deserto, entre mandacarus e rebanhos de cabras que andam soltas. A comunidade fica em uma região remota onde só é possível chegar por estradas de terra.
Romualdo Vasconcelos, 54, destranca o cadeado e abre o portão de casa com um ar desconfiado. O cachorro Lampião faz festa, com uma mansidão que não faz jus ao nome herdado do mais notório dos cangaceiros.
Mesmo morando em uma área isolada de um pequeno povoado, Romualdo vive atemorizado com as notícias que ouve sobre o avanço da violência. "Quando eu saio daqui para a cidade, já vou pensando que pode acontecer um assalto. Eu não ando com celular, não ando com nada. Tenho medo", afirma.
Salgueiro está longe de ser uma das cidades mais violentas de Pernambuco. No primeiro semestre de 2026, foram três mortes violentas no município de 62 mil habitantes. Mas parte da população convive com uma sensação permanente de insegurança.
O Nordeste concentra 46 organizações criminosas identificadas pela Secretaria Nacional de Políticas Penais, o maior número entre as cinco regiões do país. Entre elas estão grupos de alcance nacional, como o paulista PCC (Primeiro Comando da Capital), e os fluminenses Comando Vermelho e TCP (Terceiro Comando Puro), que estabeleceram alianças e disputas com organizações locais.
Em alguns casos, a chegada dos grupos criminosos veio acompanhada de práticas típicas de milícias como a exploração ilegal de serviços como internet, extorsão de comerciantes e até expulsão de famílias de suas casas.
A violência chegou ao topo das preocupações dos eleitores do Nordeste. Pesquisa Datafolha de março de 2026 aponta que a segurança pública foi citada como principal problema por 26% dos eleitores nordestinos, percentual superior ao das demais regiões.
O tema entrou no cálculo eleitoral dos candidatos ao governo e ao Planalto. Os presidenciáveis Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) prometeram construir mais presídios, Flávio Bolsonaro (PL) defende a redução da maioridade penal e Renan Santos (Missão) adotou um discurso de "matar bandido".
O presidente Lula (PT) incorporou o tema à agenda do governo federal com a aprovação do Marco Legal do Combate ao Crime Organizado e a atuação em favor da PEC da Segurança Pública. Também capitalizou operações da Polícia Federal que miram o crime organizado, como a Carbono Oculto.
Dentre os estados do Nordeste, o Piauí aparece como o exemplo mais promissor entre os governos estaduais do PT, com redução de 15,7% das mortes violentas no ano passado. Também criou um programa para recuperação de celulares roubados que foi replicado nacionalmente.
Bahia e Ceará, por outro lado, enfrentam os cenários mais desafiadores. Foram, respectivamente, o primeiro e quarto estado do país com maior número absoluto de mortes violentas intencionais em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os dez municípios mais violentos do país no ano passado ficam no Nordeste: são cinco na Bahia, um em Pernambuco, um na Paraíba e três no Ceará -que lidera o ranking com Maranguape.
O tema tem guiado as oposições na campanha eleitoral. Candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil) escolheu o slogan "Mudança com Segurança", trata da violência diariamente em vídeos nas redes sociais e prometeu a criação de uma "governadoria da segurança" caso seja eleito.
O governo Jerônimo Rodrigues (PT) conseguiu reduzir as mortes violentas do estado nos últimos três anos. Ao mesmo tempo, a disputa por territórios entre facções escalou em sua gestão. O estado segue com a maior letalidade policial do país em números absolutos.
No Ceará, o governador Elmano de Freitas (PT) adotou um discurso linha-dura que destoa dos petistas. No ano passado chegou a exaltar uma ação policial que deixou sete suspeitos mortos em Canindé, interior do estado: "Nenhum policial morto. Nenhum inocente alvejado. A população protegida".
Ciro Gomes (PSDB), principal candidato da oposição, elegeu a segurança como sua principal bandeira de campanha com o mote "tempo de libertação" para o Ceará. Seu diagnóstico é de um estado dominado pelas facções criminosas, o que o governo atual nega.
Um dos casos mais simbólicos, que vem sendo repetido durante a campanha, é o distrito de Uiraponga, no município de Morada Nova (155 km de Fortaleza), onde famílias abandonaram suas casas após a escalada de briga entre dois traficantes.
A região do Cariri também vive um avanço das facções. Em março, uma família foi expulsa por criminosos da própria casa em um conjunto residencial em Juazeiro do Norte. O caso é investigado pela polícia e pelo Ministério Público. Outro caso semelhante aconteceu na cidade vizinha de Barbalha.
No ano passado, Juazeiro do Norte registrou uma taxa de 29,1 mortes violentas intencionais a cada 100 mil habitantes, patamar próximo da média do estado e acima da nacional. No Crato, cidade vizinha, essa taxa foi de 30,2.
O bancário aposentado Armando Lopes Rafael, 70, morador do Crato, não tem dúvida de que a violência e a infiltração do crime organizado serão os principais desafios do próximo governador do Ceará.
"Aqui era uma cidade pacata, Juazeiro era uma cidade pacata, mas hoje a briga é essa, não dá mais. As facções são cruéis, muita gente foi assassinada porque não se submeteu a elas", afirma.
Na zona rural de Salgueiro, em Pernambuco, onde Romualdo Vasconcelos vive com os portões trancados em seu sítio, as propostas sobre segurança pública não convenceram potenciais eleitores.
A pouco mais de um mês para as eleições, o agricultor segue indeciso para a disputa presidencial. Diz rejeitar Lula, mas não confia em Flávio Bolsonaro: "Ele fala uma coisa hoje, amanhã já fala outra. Não é firme na palavra".
Ronaldo Caiado? "Não confio nele, nem naquele cabra de Minas", diz Romualdo, tentando puxar na cabeça o nome de Romeu Zema. Até outubro, deve fazer sua escolha: "Nunca anulei voto para presidente".


