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Em meio à ampliação do acesso às 'canetas emagrecedoras', Anvisa discute novas regras para fabricação!

Mudanças no mercado, como quebra de patente do Ozempic, devem aumentar uso; médico alerta para riscos sem acompanhamento

Por Michel Telles
Às

Em meio à ampliação do acesso às 'canetas emagrecedoras', Anvisa discute novas regras para fabricação!

Foto: Divulgação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou que vai discutir nesta quarta-feira (29) novas regras para a manipulação de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, usados no tratamento da obesidade e popularizados como “canetas emagrecedoras”.

O debate ocorre em um momento de transformação no mercado desses medicamentos, impulsionado, entre outros fatores, pela quebra de patente do Ozempic, à base de semaglutida. A tendência é de aumento no acesso, mas também de novos desafios no uso. “Com a entrada de novos fabricantes e a redução de custos, mais pessoas passam a ter acesso a esse tipo de medicação. Mas isso não significa, necessariamente, que haverá uma migração em massa de pacientes que hoje utilizam alternativas mais modernas”, analisa o médico Leonardo de Gasperi, especialista em medicina do estilo de vida.
 

Segundo ele, pacientes que já utilizam medicamentos mais recentes, como a tirzepatida, tendem a manter o tratamento, mesmo diante de opções mais baratas. “Se o preço fosse o principal fator, essas pessoas provavelmente já estariam utilizando a semaglutida, que há tempos é mais acessível”, explica De Gasperi, que atua na Região Metropolitana de Campinas.

Se a migração não deve ser o principal movimento, o aumento do acesso pode levar a outro efeito, a ampliação do número de usuários. “Com preços mais baixos, o cenário mais provável é que mais pessoas passem a utilizar essas medicações. E é justamente aí que surge um ponto de atenção”, afirma o especialista.

Embora o uso exija prescrição médica, o acesso nem sempre segue esse rigor. “O risco não está no medicamento em si, mas no contexto em que ele é utilizado. Sem acompanhamento adequado, a perda de peso pode acontecer de forma desequilibrada”, diz.

Anvisa barra novos produtos

O alerta ganha força diante de decisões recentes da própria agência reguladora. Em abril, a Anvisa negou o registro de três medicamentos similares à base de semaglutida e liraglutida por não atenderem aos critérios de eficácia, segurança e qualidade exigidos para comercialização no país. E na última quarta-feira (22), a Anvisa determinou a apreensão do medicamento Lipoland (Tizerpartida), em todas as apresentações e dosagens

Esses episódios evidenciam a necessidade de cautela em um cenário de expansão do mercado. Com mais opções disponíveis, cresce também o risco de uso inadequado ou de acesso a produtos sem comprovação científica suficiente.

 

Riscos vão além do peso

Entre os principais efeitos associados ao uso sem acompanhamento estão a perda de massa muscular, deficiências nutricionais e até quadros de desnutrição.

Isso ocorre, segundo o médico, porque o foco costuma permanecer apenas no peso. “O problema é tratar o sintoma sem olhar para a causa. O peso é reflexo dos hábitos. Emagrecer é consequência de se tornar uma pessoa saudável”, destaca.


Sem mudanças estruturais no estilo de vida, como sono adequado, alimentação equilibrada e atividade física, o resultado tende a ser temporário. E o cenário pode ser ainda mais complexo entre mulheres acima dos 40 anos. O climatério, fase marcada por alterações hormonais, influencia diretamente o metabolismo, o sono e a resposta do organismo à perda de peso. “Ignorar esse contexto pode não apenas reduzir a eficácia do tratamento, como também gerar novos problemas de saúde”, afirma Gasperi.
 

Estímulo inicial pode enganar

Apesar dos riscos, os medicamentos também têm um papel importante no início do processo. A perda de peso inicial pode funcionar como estímulo para mudanças de hábito. “Muitas vezes, o que dificulta a mudança de comportamento é a falta de resultado visível. Quando a paciente começa a ver mudanças no corpo, isso ajuda na adesão”, explica. O problema, segundo ele, está em depender exclusivamente da medicação. “Sem construir uma base sustentável de saúde, o resultado não se mantém”, completa.

A ampliação do acesso a esses medicamentos, inclusive no sistema público, é considerada legítima por especialistas. No entanto, há consenso de que a medicação isolada não resolve o problema. “Você pode ampliar o acesso, mas sem orientação, acompanhamento e mudanças no estilo de vida, ela não faz milagre. O resultado depende do contexto como um todo”, afirma.

Para o médico, o momento atual exige mais do que ampliar o uso. “A discussão não deve ser apenas qual medicação usar, mas que tipo de saúde estamos construindo”, conclui.

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