Esquerda avança sobre pauta gamer e disputa espaço antes ligado à direita e Bolsonaro
Para críticos, isso impacta os consumidores, mas também a preservação da memória dos games.

Foto: Agência Brasil
EDUARDO MOURA - SÃO PAULO, SP - Já faz um tempo que esfriou o namoro de Jair Bolsonaro (PL) com jogadores de videogame. Agora, quem tenta cortejá-los é a esquerda. Uma das principais pautas políticas que pairam sobre o setor de jogos eletrônicos no Brasil e no mundo hoje tem a ver com as mídias físicas --os fabricantes querem acabar com elas e colocar tudo na nuvem. Para críticos, isso impacta os consumidores, mas também a preservação da memória dos games.
No Congresso, quem tomou a dianteira no debate foi a esquerda. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Secretaria Nacional do Consumidor e pediu uma investigação da Sony, após a fabricante ter anunciado que vai parar de produzir jogos em mídia física para novos lançamentos de PlayStation a partir de 2028.
Já Jandira Feghali (PC do B-RJ) apresentou um projeto de lei que visa evitar que o consumidor perca o acesso ao jogo eletrônico que comprou, sobretudo no caso de jogos que dependem de servidores para funcionar. "A direita construiu uma identificação de que ser gamer era ser de direita, mas isso não corresponde à realidade. É uma disputa. E a esquerda nunca fez isso dessa mesma forma", diz a pesquisadora Isabela Kalil, professora na Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), onde coordena o Laboratório de Etnografia Digital.
Por isso, chama a atenção duas parlamentares de esquerda terem encabeçado a pauta. "Eu sinto que a esquerda está se abrindo mais ao tema e, atualmente, tem se posicionado mais nessa pauta do que a direita, que em geral se apropriava mais dessa área, ainda que de forma superficial", diz Pedro Zambon, pesquisador e fundador da Savegame.dev.
Gaules, um dos maiores streamers de games do país, não só declarou apoio a Jair Bolsonaro em 2018 como foi praticamente um cabo eleitoral. No ano seguinte, outro peixe grande, Gabriel Toledo, conhecido como FalleN, conversou ao telefone com o então presidente sobre impostos no setor. Chegou a pandemia, e a forma como Bolsonaro lidou com a Covid fez com que eles se distanciassem do então mandatário.
Do outro lado, porém, é difícil ver streamers declarando apoio de forma apaixonada ao presidente Lula (PT). Em 2022, Casimiro Miguel disse que votaria em Lula, mas que não iria "fazer o L" pelo petista. "Eu não sou esse cara", disse. Alan Ferreira, o Alanzoka, também declarou apoio com ressalvas. "O pessoal acha que eu amo o 'L', né? Não gosto, não, mas o outro é ruim demais."
Já Cellbit fez um "L" tímido com o indicador e o polegar durante uma live em 2022, o que foi suficiente para, anos depois, enfurecer Nikolas Ferreira (PL-MG). "A cultura e a identidade gamer estão, de alguma forma, consolidadas", afirma Thiago Falcão, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). "Então é esperado que a esquerda tente ocupar essas pautas. Mas ocupa muito mal, porque ninguém sabe do que está falando. A verdade é essa. Não são pessoas ligadas à cultura gamer."
"Acho que a investida da esquerda [em games] não deve gerar efeitos", prevê Kim Kataguiri (Missão-SP), deputado que possui mais de 4.300 horas registradas jogando "Dota 2" e autor do projeto que culminou no Marco Legal dos Games.
"Parlamentares de esquerda não costumam jogar e entender o meio. Quando não há conexão real, a comunidade gamer rejeita por perceber a artificialidade", diz.
Em termos de política pública, a esquerda não é novata. Há mais de 20 anos, em 2004, o Ministério da Cultura de Gilberto Gil lançou o edital JogosBR, tido como um marco para a indústria de games. A reportagem não conseguiu identificar, em eleições passadas, candidatos que colocassem a pauta gamer como sua plataforma principal. O próprio Kataguiri, apesar de ter atuação parlamentar na área, vem pautando sua campanha atual em segurança e impostos.
Este ano, porém, vem do PC do B um candidato indiscutivelmente gamer, da identidade visual à plataforma eleitoral. Márcio Filho é ex-presidente da Associação de Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro (ACJogos-RJ) e atuou como auxiliar na formulação do projeto de Jandira Feghali e no Marco Legal dos Games. Agora, tenta uma cadeira no Legislativo fluminense.
Há duas semanas, o ex-ministro Paulo Teixeira (PT-SP), que tenta reeleição para a Câmara, fez um claro aceno à indústria. Ele postou uma conversa com o presidente da Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos), Rodrigo Terra, e com o CEO da feira Gamescom Latam, Gustavo Steinberg. O assunto foi o potencial do Brasil na economia criativa.
Entre os presidenciáveis, Flávio Bolsonaro (PL) não faz nenhuma menção ao tema em seu programa oficial. Nem Renan Santos (Missão).
Ronaldo Caiado (PSD) menciona games na seara de "economia do esporte, inovação e eventos", além de dedicar um tópico para "política industrial para audiovisual e jogos".
Já Augusto Cury (Avante) cita videogame como algo negativo, que distrai alunos e compromete o aprendizado. Lula, em contrapartida, não só fala de games em seu plano de governo, mas toma para si os louros da aprovação do Marco Legal dos Games. O projeto, relatado pela senadora Leila Barros (PDT-DF), é de autoria de Kim Kataguiri.
Em 2022, o petista lançou a cartilha "Lula Play", um documento de 32 páginas só com propostas para o setor. Teve até um joguinho em que Lula, transformado num Mario barbudo, coletava itens como pratos de comida, carteiras de trabalho, diplomas, e estrelas do PT.
Naquele ano, a pesquisadora Érika Caramello, cofundadora da Rede Progressista de Games, foi convidada para reunião no Instituto Lula. Chegando lá, descobriu o motivo: a campanha do petista queria entender o universo gamer. Daí nasceu a cartilha. "Entregamos um documento e, para nossa surpresa, não foi trocada uma vírgula e foi publicada como plano de governo", diz a pesquisadora.
O governo Lula 3, porém, começou desagradando alguns setores gamers. Em 2023, a então ministra do Esporte, Ana Moser, disse que esporte eletrônico não é esporte. Lula posteriormente disse que "não tem game falando de amor, de educação --é game ensinando a molecada a matar".
Agora, perto das eleições, a imagem do mundo gamer está sob tensionamento. A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou que o Discord, plataforma popular entre gamers, suspendesse as transmissões ao vivo em sua plataforma. "A gente precisa atuar junto ao Judiciário para tirar essa rede horrorosa do ar", disse a primeira-dama Janja, após a morte de uma jovem de 13 anos que teria sido induzida por outros adolescentes à automutilação e ao suicídio em cenas exibidas na plataforma. "Imagino que os marqueteiros tenham ficado um tanto tímidos de acenar para uma coisa que claramente representa um problema neste momento", diz Thiago Falcão, da UFPB.


