Itaparica celebra 203 anos de Independência

Dia 7 de janeiro marca data em que a Ilha venceu confronto bélico contra os portugueses

Por Glaucia Campos
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 Itaparica celebra 203 anos de Independência

Foto: Divulgação/ Prefeitura de Itaparica

No dia 7 de janeiro de 1823, há exatos 203 anos, o povo de Itaparica saia vitorioso de um confronto bélico contra os portugueses que tentavam retomar o controle da ilha. A data é celebrada todos os anos. O município, com cerca de 20 mil habitantes, tem suas ruas tomadas por cortejos, missas, peças e apresentações musicais, relembrando o triunfo do que viria a ser uma das primeiras fagulhas para a independência do Brasil. 

A festa acontece exatamente nos dias da batalha. Na noite do dia 6 de janeiro, ocorre a tradicional queima dos fachos, representando os portugueses cercando Itaparica, que escolta o carro do caboclo. No dia seguinte, aparece a figura central do festejo, o herói popular: o Caboclo Guarani. 

Com os rostos pintados de vermelho, pés descalços, usando cocares e adereços verde e amarelo, os Caboclos de Itaparica saem em cortejo pelas ruas da maior ilha da Baía de Todos os Santos. Ao fim da tarde do dia 7, no horário simbólico em que a batalha terminou, o grupo busca o Caboclo na frente da prefeitura. “O caboclo é montado sobre o dragão, com a lança cravada nele, representando a vitória do povo de Itaparica sobre os portugueses”, explica o historiador Felipe Brito.
Com a presença do Herói, o cortejo segue em clima de celebração até a igreja matriz. Em seguida, o desfile vai até a Fortaleza de São Lourenço, repetindo o percurso histórico feito após a vitória.

“O caboclo é uma representação folclórica de uma guarda de honra. Os índios da ilha de Itaparica seriam os índios tupinambá, não os guaranis. Isso está muito mais ligado à ópera O Guarani, de Carlos Gomes, do que necessariamente a um povo indígena que vivia na ilha, mas esse símbolo pegou e se consolidou como parte da festa”, disse Felipe. 

A figura central remonta ao ano de 1823. Os portugueses saíram de Salvador preparados para um grande ataque contra a ilha, eles esperaram o dia amanhecer e iniciaram o ataque no dia 7 de janeiro. A tentativa portuguesa já era esperada, eles haviam feito uma ofensiva contra a ilha no ano anterior, em setembro de 1822. 

Ao tentar desembarcar, os portugueses foram surpreendidos pela “flotilha Itaparicana”, organizada por republicanos que defendiam a Baía de Todos os Santos.  Em terra, a população da vila se uniu para lutar contra os lusitanos. Após horas de combate, os invasores saíram derrotados. Tentaram retornar nos dois dias seguintes e no dia nove de janeiro bateram em retirada para a capital baiana. “O resultado foi a morte de cerca de 500 portugueses. Do nosso lado, houve apenas três feridos”, conta o historiador.

“No auge do Batalhão de Itaparica, 3.257 pessoas serviam militarmente, com soldo e patente, fora a população civil. Aí entra Maria Filipa, as vedetas, crianças, padres, pescadores, pessoas que não tinham ligação formal com o Exército, mas que lutavam em diversas frentes. Cada comunidade da ilha virou uma espécie de trincheira fortificada para impedir o acesso dos portugueses” acrescentou.

Figuras Importantes 

As histórias sobre a batalha permeiam o imaginário dos itaparicanos, como a da marisqueira Maria Felipa. Conhecida por ser uma das principais lideranças do movimento de enfrentamento, ela permaneceu viva na memória coletiva da ilha. Porém, há diferentes versões Brasil afora sobre quem foi essa mulher, em alguns lugares afirmam que ela teria seduzido os portugueses e em outros que teria expulsado os colonos com uma “surra de cansanção”. 

Segundo Felipe Brito, não existe, na Ilha de Itaparica, uma narrativa tradicional que fale dela ter seduzido portugueses. “Isso não faz parte da memória coletiva da ilha. Essa versão surge a partir de matérias jornalísticas dos anos 2000, muito carregadas de estereótipos raciais e de uma sexualização da mulher negra. O que existe nos registros de Xavier Marques é uma mulher combativa que incita o povo, participa da vigilância das trincheiras e exerce papel de liderança”.

Já a famosa “surra de cansanção” seria referência a uma canção zombeteira que existia na época, falando sobre os portugueses. “Não há nenhuma relação com sedução ou erotização. Essa leitura é completamente deslocada do contexto de guerra e violência da época”, explica o historiador.

A santa Nossa Senhora da Piedade também aparece nas narrativas sobre a data, desempenhando um papel sobrenatural. Reza a lenda que durante a batalha uma mulher vestida de branco teria sido vista protegendo os combatentes, caminhando entre os tiros e fazendo com que as balas caíssem no chão. Após o conflito a imagem da Santa foi encontrada coberta de areia, o que fez com que atribuíssem a identidade da mulher a ela. 

Desde então, há mais de dois séculos, na manhã do dia 7 de janeiro, é celebrada uma missa em homenagem a Nossa Senhora da Piedade.

Tradição Viva 

As celebrações da Independência de Itaparica costumam contar com a participação da população todos os anos. Manoelita Ferreira, de 54 anos, costuma ir desde criança.  

“Gosto de todos os momentos que nos lembra da nossa história,  desde a puxada do carro do Jardim dos Namorados para a fonte da Bica com a tradicional queima dos fachos, a alegria do povo atrás acompanhado da charanga. Acho lindo o momento da puxada do cara da Bica para o Campo Formoso, a dança dos caboclos  na aldeia, a roubada da rainha, e principalmente a guardada do carro”, contou.

A itaparicana lembra com carinho da infância quando a mãe a levava junto com os irmãos para ver o cortejo. Manoelita fez questão de manter a tradição viva e levar seus filhos para conhecer a história. 

Sua filha Manoela, de 25 anos, tem o festejo como sua data favorita do ano, “eu brinco que meu ano novo só inicia depois do dia 7 de janeiro”. Ela aprendeu com a mãe a importância da independência na Ilha. 

“Essa data para mim representa a identidade do povo itaparicano, traz um orgulho muito grande. Reforça a importância das lutas populares no processo de independência de Itaparica, mas também da Bahia”, disse.

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