Filhos recebem diagnóstico de autismo e mães passam a reconhecer a própria história!
Psiquiatra, Dra. Thaíssa Pandolfi, explica por que muitas mulheres descobrem o autismo apenas na vida adulta após o diagnóstico dos filhos

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O diagnóstico de autismo em uma criança tem levado muitas famílias a revisitar a própria história. Em consultórios e centros especializados, um movimento vem chamando a atenção de profissionais de saúde mental: mães que, ao acompanhar a avaliação dos filhos, começam a identificar em si mesmas características semelhantes às descritas no transtorno do espectro autista.
O transtorno do espectro autista é uma condição do neurodesenvolvimento marcada por diferenças na comunicação social, padrões comportamentais repetitivos e interesses específicos. Os sinais costumam aparecer ainda na infância, embora se manifestem de maneiras muito distintas em cada pessoa.
Durante décadas, o entendimento clínico do autismo foi construído a partir de estudos majoritariamente realizados com meninos. Esse recorte influenciou critérios diagnósticos e fez com que muitas mulheres atravessassem grande parte da vida sem compreender por que se sentiam diferentes.
A psiquiatra Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência e superdotação feminina, explica que muitas meninas desenvolveram estratégias de adaptação social que mascararam sinais importantes ao longo dos anos. “Durante muito tempo, o autismo foi compreendido quase exclusivamente a partir de estudos realizados com meninos. Isso fez com que muitas mulheres atravessassem a infância, a adolescência e até a vida adulta sem entender por que se sentiam tão diferentes das outras pessoas. Elas aprendiam desde cedo a observar, adaptar comportamentos, imitar expressões sociais e construir estratégias de sobrevivência em ambientes que nem sempre compreendiam”, afirma.
Segundo a médica, esse processo é conhecido como camuflagem social. A habilidade permite que muitas mulheres mantenham rotinas acadêmicas, profissionais e familiares aparentemente estáveis, mas frequentemente acompanhadas de exaustão emocional. “Essa camuflagem faz com que muitas mulheres consigam cumprir papéis sociais aparentemente bem-sucedidos enquanto internamente lidam com uma sensação persistente de inadequação, exaustão social, hipersensibilidade sensorial e uma dificuldade profunda de compreender por que determinadas situações parecem tão desgastantes”, explica.
Nos últimos anos, a prática clínica tem revelado um padrão cada vez mais comum: o diagnóstico infantil acaba se tornando o ponto de partida para que outras pessoas da família também investiguem o próprio funcionamento neurológico. “Quando uma criança recebe um diagnóstico de autismo ou outra neurodivergência, os pais naturalmente começam a estudar mais o tema. É nesse processo que muitas mães passam a reconhecer, nas descrições clínicas, características que também estiveram presentes em suas próprias histórias de vida. Experiências que antes pareciam desconectadas começam a fazer sentido”, diz.
Entre os aspectos frequentemente identificados estão a hipersensibilidade a estímulos, o cansaço intenso após interações sociais, a necessidade de previsibilidade e interesses profundos e muito específicos.
A ciência também ajuda a compreender esse fenômeno familiar. Estudos indicam que o autismo possui forte base genética, com índices de herdabilidade que podem variar entre aproximadamente 70% e 90%. “Isso não significa que exista um único gene responsável. O autismo é uma condição poligênica e multifatorial, que envolve a interação de diversas variantes genéticas ligadas ao desenvolvimento neurológico. Por isso não é incomum encontrarmos características semelhantes em diferentes membros da mesma família”, afirma Pandolfi.
Outro conceito descrito na literatura científica ajuda a explicar por que essas características tendem a se concentrar em determinados núcleos familiares. Trata se do chamado assortative mating, que descreve a tendência de pessoas com perfis cognitivos ou comportamentais semelhantes formarem vínculos afetivos.
Na prática clínica, a psiquiatra observa com frequência casais em que um ou ambos apresentam traços de neurodivergência, como autismo, TDAH, altas habilidades ou alta sensibilidade. “Quando esses perfis se encontram, aumenta a probabilidade de que filhos também apresentem formas semelhantes de funcionamento neurológico. Muitas vezes o diagnóstico de uma criança acaba abrindo uma porta de compreensão para toda a família”, afirma.
Receber um diagnóstico de autismo na vida adulta pode provocar um impacto profundo. Para muitas mulheres, o momento traz alívio ao oferecer uma explicação para experiências que acompanharam toda a trajetória pessoal. “Para muitas mulheres, esse diagnóstico inaugura um processo de reconstrução da identidade. Ao compreender seu funcionamento neurológico, elas passam a reorganizar a própria vida com mais gentileza consigo mesmas, ajustando ambientes, relações, expectativas e formas de autocuidado”, explica.
O reconhecimento crescente do autismo feminino, segundo especialistas, não indica que esse perfil esteja surgindo agora. A diferença é que a medicina começa a ampliar o olhar para características que durante décadas permaneceram invisíveis. “Quando ampliamos esse olhar, abrimos espaço para que muitas mulheres finalmente compreendam a própria história e possam viver com mais autenticidade, menos culpa e mais respeito à diversidade neurológica que sempre existiu entre nós”, conclui a psiquiatra.

