Lições da campanha e desafios para o fortalecimento do PT na Bahia

Valdenor Cardoso

Por Da Redação
Às

Lições da campanha e desafios para o fortalecimento do PT na Bahia

Foto: PT Bahia

O segundo turno da eleição presidencial deixou ensinamentos importantes para todos aqueles que acreditam na organização política, na participação popular e no fortalecimento da democracia. A mobilização das ruas, das redes, dos movimentos sociais, das lideranças comunitárias e da militância demonstrou, mais uma vez, a importância do trabalho coletivo e da presença permanente junto à sociedade.

Na Bahia, onde o PT construiu uma trajetória política sólida e duradoura, esse momento também deve servir como oportunidade para reflexão. Não se trata de negar conquistas, nem de desconsiderar a importância dos governos, das direções partidárias ou das estruturas institucionais. Ao contrário: trata-se de pensar em como fortalecer ainda mais essa construção.

Um partido que governa por muitos anos acumula experiência, responsabilidades e realizações. Ao mesmo tempo, precisa renovar permanentemente seus canais de diálogo com a sociedade. E a campanha mostrou que a mobilização popular continua sendo um dos maiores patrimônios políticos do PT.

Essa constatação nos remete à própria história de formação do partido. Durante muitos anos, a força política do PT esteve profundamente ligada à organização dos núcleos de base nos locais de trabalho, nas fábricas, nas universidades, nos bairros, nos sindicatos, nas comunidades e em diferentes espaços de convivência social.

Eram estudantes discutindo política nas universidades, operários debatendo os problemas de suas categorias, trabalhadores organizando reivindicações, moradores discutindo as necessidades de seus bairros e militantes construindo coletivamente propostas para o partido.

Esses espaços tinham uma importância que ia muito além das eleições. Ali se formavam lideranças, se aprendia política, surgiam propostas e o cidadão deixava de ser apenas eleitor para se tornar participante ativo da vida partidária e da construção de um projeto de sociedade.

Essa experiência histórica continua oferecendo ensinamentos importantes. A sociedade mudou, as formas de participação também mudaram e hoje contamos com redes sociais, comunicação instantânea e novas formas de mobilização. Mas nenhuma tecnologia substitui completamente o encontro entre pessoas, o debate presencial, a escuta e a construção coletiva.

Talvez seja o momento de recuperar o espírito daqueles antigos núcleos de base, adaptando-o à realidade atual: núcleos de trabalhadores, estudantes, juventude, bairros, mulheres, cultura, meio ambiente, movimento sindical e das diferentes áreas da sociedade. Não para reproduzir mecanicamente modelos do passado, mas para recuperar sua essência: participação, formação política, diálogo e capacidade de organização.

Quanto mais oportunidades de participação existirem, maior será a capacidade de o partido compreender a sociedade para além das pesquisas, dos relatórios e dos períodos eleitorais. O cidadão precisa sentir que pode participar da elaboração política, apresentar ideias, discordar, propor e contribuir. Esse sentimento de pertencimento é uma das maiores forças que um partido pode possuir.

Por isso, parte da energia eleitoral deveria ser transformada em participação permanente. Fortalecer núcleos, estimular debates nos territórios, ampliar a formação política, ouvir movimentos sociais e aproximar a estrutura partidária do cotidiano das comunidades são caminhos para manter viva essa relação.

A participação popular não pode ser compreendida apenas como mobilização para grandes atos ou campanhas eleitorais. Ela precisa fazer parte da vida cotidiana do partido. Quanto mais a militância participa, maior é a circulação de ideias e maior também a possibilidade de surgirem novas lideranças.

A base não deve ser vista somente como força de mobilização. Ela também é fonte de conhecimento político. Muitas vezes, quem vive diariamente em uma comunidade, em uma categoria profissional, em uma universidade ou em um movimento social percebe mudanças na sociedade antes que elas apareçam nos debates institucionais. É justamente essa inteligência coletiva que precisa ser estimulada.

Também considero fundamental aprofundar o diálogo entre gerações. A renovação é necessária em qualquer organização política. Os jovens precisam encontrar espaço para participar, propor, assumir responsabilidades e ajudar a construir o futuro. Mas essa renovação se torna mais rica quando caminha ao lado da experiência.

Militantes mais antigos carregam memória histórica, conhecimento político e décadas de participação. Essa experiência deve ser valorizada. É importante, inclusive, estarmos atentos ao etarismo. Uma sociedade democrática precisa reconhecer que capacidade, criatividade e contribuição política não possuem idade determinada. Valorizar a juventude não exige diminuir a importância dos mais velhos.

O melhor caminho é a convivência entre gerações. Jovens e veteranos podem aprender uns com os outros. Novas tecnologias e novas linguagens podem caminhar ao lado da experiência acumulada nas comunidades, nos movimentos e nas diferentes etapas da história partidária.

Essa convivência pode encontrar justamente nos núcleos e espaços de base um ambiente privilegiado. Um estudante pode aprender com um trabalhador que participou das grandes mobilizações do passado. Um militante mais experiente pode compreender, através dos jovens, as novas formas de comunicação e mobilização. Um dirigente pode escutar diretamente quem vive os problemas cotidianos das comunidades.

Assim se constrói continuidade sem imobilismo e renovação sem ruptura.

Outro aprendizado importante diz respeito à relação entre partido, governo e sociedade. Cada um possui responsabilidades próprias, mas todos podem contribuir para um projeto político comum. Quanto maior o diálogo entre essas dimensões, maior será a capacidade de compreender as demandas da população e responder aos novos desafios.

A Bahia mudou. O Brasil mudou. As formas de comunicação política também mudaram. É natural, portanto, que partidos de longa trajetória estejam permanentemente discutindo como atualizar seus métodos sem perder seus princípios e sua identidade.

Talvez essa seja uma das principais lições deixadas pela campanha: estruturas políticas são importantes, mas ganham ainda mais força quando acompanhadas de participação social, mobilização e presença nos territórios.

O PT da Bahia possui história, experiência e uma militância expressiva. O desafio agora é continuar valorizando esse patrimônio e, ao mesmo tempo, abrir cada vez mais espaço para novas formas de participação.

Talvez esteja justamente na reconstrução desses espaços de participação uma das grandes oportunidades de fortalecimento do partido nos próximos anos. Não para simplesmente repetir o passado, mas para recuperar uma ideia que permanece atual: política se constrói com organização popular permanente.

Uma reunião de estudantes, uma conversa entre trabalhadores, um encontro de moradores ou um núcleo comunitário podem parecer pequenos diante das grandes estruturas políticas. Mas foi muitas vezes nesses pequenos espaços que nasceram grandes movimentos.

A participação popular não enfraquece a direção partidária. Ao contrário. Uma direção que escuta uma base organizada ganha mais informações, mais legitimidade e mais capacidade de compreender os movimentos da sociedade. Por isso, fortalecer a base também é fortalecer o próprio partido.

Sem romper com a história. Sem transformar gerações em adversárias. Sem confundir renovação com exclusão. E, principalmente, mantendo aberto o diálogo entre partido, governo, militância e sociedade.

Mais do que uma crítica, esta é uma contribuição ao debate. Porque organizações políticas fortes são aquelas capazes de reconhecer suas conquistas e, ao mesmo tempo, continuar aprendendo com cada eleição, cada geração e cada novo momento da sociedade.

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