Por: Marcelo Cordeiro
O absurdo se presta a um grande empreendimento intelectual e filosófico, como o fez Albert Camus. O absurdo em última análise é um desejo reprimido e racional que contrasta com um universo frio e silencioso. Sob este prisma, mais do que um outro, é possível ir fundo nas profundezas tenebrosas do pensamento de Lula da Silva, quando ele manifestou o desejo de enforcar o seu adversário político.
É necessário recorrer a um deus da academia, Michel Foucalt, cujo pensamento gira em torno do “saber”, “poder” e “sujeito” - a fim considerar as verdades como construtos sociais – que afirma com toda a clareza: “a maneira pela qual as pessoas falam é muito reveladora.
As palavras que escolhem, os exemplos que usam e como constroem seus argumentos são o resultado de um longo processo de arquitetura de identidade, assimilação de valores e socialização; são o resultado do poder ao qual tenham sido expostos ao longo de suas vidas”.
Caíram como uma luva as palavras de Foucault. Elas sublinham com certidão a sinceridade contida na locução de Lula. Realmente, ele desejava submeter o concorrente ao enforcamento, não fossem os obstáculos civilizacionais que o impediam.
Do mesmo modo, enforcou Joaquim Silvério dos Reis, ainda que este traidor da Conjuração Mineiro acabasse seus dias nababescamente, se não me engano, no Maranhão!
Um parceiro, muito festejado também nos meios acadêmicos, Jacques Derrida, complementa Foucalt. Ele sustenta a teoria da desconstrução, segundo a qual a leitura de um determinado texto ou conceito não é destituído de outras ideias nele embutidas e diz mais do que aparentemente aparece.
Sua pretensão é ler o que está encoberto, seus silêncios e ambiguidades, suas contradições e exclusões. Mais do que a fala, a escrita exerce outros papéis capazes de promover a produção de sentidos. Talvez, ele tivesse descoberto a pólvora!
Certos ou errados, esses pensadores franceses e contemporâneos deram um conteúdo mais consentâneo ao indecente discurso de Lula. Revelaram o aspecto grosseiro de uma mentalidade, o espírito belicoso com que revestiu a vida política, o apego ao crime em suas formas mais estúpidas.
Muitos tomaram as palavras do presidente brasileiro como “um excesso de sinceridade e isto assusta pessoas acostumadas com falsidade”, através dos escandalosos discursos do apedeuta, exprimindo um choque estarrecedor entre o absurdo e a normalidade. O risco que afeta a toda a nação é justamente o de normalizar este absurdo, difundir uma cultura do embrutecimento!
Ainda bem que Freud nos deu uma luz com qual podemos repelir este discurso e lutar por um futuro melhor, no qual reconheceremos os degenerados. O pai da psicanálise descreveu-o em Totem e Tabu, por volta de 1913, com as seguintes palavras: “os espíritos e demônios são, como indiquei em outro lugar, apenas projeções das próprias emoções do ser humano. Ele transforma seus investimentos afetivos em pessoas, com elas povoam o mundo e reencontra fora de si os seus processos psíquicos internos.”
Ao final, só a Divina Comédia, de Dante Aligieri, deixa tudo claro e inteligível. Na sua obra literária e fundacional da língua italiana, ele nos dá a medida exata daqueles que nada opinam, que não se importam com o absurdo. Esse vão para o inferno.
Ficam no vestibular do inferno. Dante os chama de IGNAVI. Nós os chamamos de omissos, mornos, isentos. Muitos séculos depois Dorothy Sayers, renomada romancista policial inglesa, haveria de dizer que o isentão “é o pecado que não acredita em nada, não se importa com nada, não ama nada, não odeia nada, e apenas permanece vivo porque não há nada pela qual morreria”.



