O meu voto é consciente, o do outro, burrice: como a polarização afeta o debate político
Especialistas alertam para os riscos de associar votos de eleitores à ignorância ou à baixa capacidade cognitiva

Foto: Divulgação
Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, que caminha para ser a mais apertada dos últimos anos, os esforços para convencer, mudar opiniões e virar votos se multiplicam por todo o país. Em um contexto de intensa polarização política, em que o “outro lado” tende a ser visto não apenas como oposição, mas como inimigo, o confronto de ideias, núcleo do debate democrático, perdeu espaço para um campo de troca de acusações: quem vota diferente é chamado de burro, de incapaz de entender o que está em jogo ou de mau-caráter, e a escolha de eleitores deixa de ser tratada como uma posição legítima e racional a ser discutida.
Especialistas alertam para os riscos desse reducionismo, uma vez que, além de não ajudar a conquistar o eleitorado, e até atrapalhar, ele dificulta a compreensão das razões que levam cada pessoa a votar como vota.
À reportagem, o cientista político Eduardo Grizenti explicou que quando o campo fala em racionalidade, refere-se a uma forma de tomar decisões que "busca o melhor resultado com o menor custo possível". É essa a lógica da teoria da escolha racional: diante das opções disponíveis, o indivíduo tende a escolher aquela que lhe garante “mais ganhos com menos perdas”. Entretanto, decisões podem priorizar outros elementos que vão além do cálculo puro e simples pregado pela teoria da escolha racional - e isso não as tornam ilógicas.
"O problema não é a escolha do eleitor, é a teoria utilizada para compreender esse voto. Existe uma lógica que não a lógica do cálculo da teoria da escolha racional. Existem questões simbólicas, crenças, traços psicológicos, pertencimento, identidade", esclareceu.
Para Grizenti, esse posicionamento é resultado da crença em uma superioridade moral que pode ser observada em ambos os lados do espectro político e consequência da incapacidade de assimilar a coerência das escolhas do outro.
“Essas pessoas que dizem que o voto que é diferente do delas é porque a pessoa é burra ou ignorante ou não tem a melhor informação ou está sendo manipulada por fake news, é porque ela atribui ao seu sistema de crenças uma superioridade moral. Então, se ela tem, supostamente, a melhor informação, está vendo os fatos e está votando de uma forma, a outra pessoa, obviamente, não possui essa sapiência”, explicou.
Ainda segundo Grizenti, a ideia de atribuir apenas às próprias razões uma racionalidade, enquanto os motivos do outro são enquadrados como ilógicos, carrega um certo “elitismo”. O também cientista político Fábio Chap concorda, e acrescenta: resumir as razões de voto do outro à ausência de cognição ou má-fé é “soberba”.
“Existe esse costume de chamar as outras pessoas de burras, de dizer 'vai ler, seu desinformado'. É um jeito fácil de simplesmente não fazer o trabalho que é compreender sociologicamente, antropologicamente, politicamente e economicamente porque as pessoas têm opções políticas diferentes das nossas. Quando a gente chama o outro de burro, basicamente, a gente está desistindo de aprofundar, a gente está entregando os pontos. É o: 'já então que eu não consigo o seu voto, você é um burro'”, pontuou.
Para Chapp, essas justificativas podem satisfazer determinados grupos, mas dificultam o diálogo no médio e longo prazo. Como exemplo, o cientista político cita o distanciamento entre a esquerda e a classe trabalhadora. "A esquerda não está conseguindo dialogar mais com os trabalhadores da maneira que dialogava, com os interiores do Brasil, como já conseguiu em determinados momentos. Então, é uma desistência do debate”.
Eleitor fiel e o voto contra
Além das acusações de ignorância e déficit cognitivo, imputações de má-fé são feitas a eleitores que permanecem fiéis às suas escolhas mesmo diante do seu candidato desmascarado - pego compartilhando fake news ou mesmo envolvido em escândalos. Segundo Fábio Chap, tal comportamento pode ser explicado pelo fato de os indivíduos serem guiados por preferências e interesses, e não por valores morais.
“Quando surge alguma informação contraditória sobre o nosso campo, sobre a nossa preferência política, a gente trata como um ‘não é bem assim’, ou fake news ou simplesmente ignora. Moralmente, somos capazes de flexibilizar baseado na nossa preferência”, disse.
Eduardo Grizenti chama atenção ainda para o fator rejeição. Enquanto, para outros grupos, determinados fatos e argumentos são mais do que suficientes para fazê-los mudar de posição, para outros, apresentam-se como pequenos entraves em meio a um objetivo maior: impedir o outro lado de vencer.


