Pastor Márcio Poncio é preso em ação da PF que investiga ramificação do jogo do bicho no Executivo e Legislativo do Rio
Os mandados foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Foto: Reprodução/Redes Sociais
ITALO NOGUEIRA, JOSÉ MARQUES E BRUNA FANTTI
A Polícia Federal cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão em cidades do Rio de Janeiro nesta quinta-feira (2) em uma operação que tem como principais alvos o ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) Rodrigo Bacellar, o contraventor Adilsinho e o pastor Márcio Poncio. Bacellar e Adilsinho já estavam presos, mas foram alvos de novos mandados, e Poncio foi preso durante a manhã. Os mandados foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Um dos alvos de busca e apreensão é Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador do Rio Sérgio Cabral. Sua advogada, Patrícia Proetti, afirmou que ele "recebeu, na manhã desta quinta-feira, um mandado de busca e apreensão, cujo cumprimento ocorreu de forma tranquila, com total colaboração às autoridades".
"Ele nega, de forma categórica, qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou o recebimento de valores de origem ilícita. Marco Antônio reafirma seu respeito às instituições e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários", acrescentou.
Procurada, a defesas de Bacellar ainda não se manifestou. A reportagem também procurou nesta quinta o advogado Leonardo Mendonça, que representa Poncio, e Ricardo Braga, defensor de Adilsinho, mas ambos não se pronunciaram até o momento.
Poncio foi preso em um hotel na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Bacellar deverá ser transferido do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, para um presídio federal. A ação desta quinta é uma nova fase da operação Unha e Carne, que já investigou suspeitas de vazamento de informações sigilosas que teriam beneficiado o Comando Vermelho.
A PF apura, na ação desta quinta, suspeitas de lavagem de dinheiro praticados pela cúpula do novo jogo do bicho e eventual ramificação do esquema em integrantes do Executivo e Legislativo do Rio.
Segundo a Polícia Federal, a nova fase da operação teve origem na análise de planilhas apreendidas em poder de Adilsinho. Os documentos conteriam registros de supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e uma contabilidade paralela utilizada para ocultar a movimentação de recursos ilícitos.
As anotações também indicariam possíveis repasses diretos de dinheiro a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro, hipótese que passou a ser uma das principais linhas de investigação.
Além dos três mandados de prisão preventiva, são cumpridos 14 mandados de busca e apreensão nas cidades do Rio e de São João de Meriti (Baixada Fluminense). Moraes ordenou o bloqueio de bens e valores de até R$ 22 milhões.
"Esta nova fase teve início após a apreensão de listas em poder do conhecido contraventor indicarem a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade vinculada à lavagem de capitais", diz a PF.
"As listas chamaram a atenção dos investigadores por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro."
A quinta fase da Operação Unha e Carne é um desdobramento da Operação Fumus, deflagrada em 2021 para investigar o comércio ilegal de cigarros no Grande Rio. Segundo a Polícia Federal, planilhas apreendidas durante a investigação apontaram supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações financeiras que reforçaram a suspeita de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo agentes públicos.
Deflagrada em dezembro de 2025, a Operação Unha e Carne investigava inicialmente o vazamento de informações sigilosas sobre ações contra o Comando Vermelho. Ao longo das fases seguintes, as apurações alcançaram o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto e, posteriormente, passaram a investigar possíveis conexões entre organizações criminosas, agentes públicos e fraudes em contratos da Secretaria de Estado de Educação.
Em abril, o ministro Gilmar Mendes afirmou ter recebido informações do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, segundo a qual "32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebem mesada do jogo do bicho".
A fala ocorreu após o ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), citar o caso do Banco Master, que envolve colegas da corte, para defender seu estado de origem, o Rio de Janeiro, de críticas que considerou "generalizadas".
QUEM SÃO OS INVESTIGADOS
Márcio Poncio é pastor, empresário do ramo do tabaco e fundador da Igreja da Nuvem. Pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio, ganhou notoriedade tanto pela atuação religiosa quanto pelos negócios no setor de cigarros, o que lhe rendeu o apelido de "pastor do cigarro". Ele é investigado por possíveis ligações com a chamada "Máfia do Cigarro", coordenada por Adilsinho, segundo a polícia.
Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é apontado pelas forças de segurança como um dos principais chefes do jogo do bicho no estado e responsável pelo controle da fabricação e distribuição de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio, com expansão das atividades para outros estados. Ele foi preso em fevereiro deste ano, em Cabo Frio, durante uma operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, após trabalho de inteligência das polícias Federal e Civil.
Rodrigo Bacellar é investigado desde as primeiras fases da Operação Unha e Carne. Ex-presidente da Alerj, ele é suspeito de integrar uma rede de proteção responsável pelo vazamento de informações sigilosas de operações policiais contra o Comando Vermelho.
Marco Antônio Cabral é advogado, político e filho do ex-governador Sérgio Cabral. Foi deputado federal entre 2015 e 2019 e, no período, chegou a se licenciar para comandar a Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Juventude no governo Luiz Fernando Pezão.


