Por que o eleitor acima de 60 anos virou peça-chave na disputa presidencial

Entenda como o crescimento do eleitorado idoso deve forçar mudanças nas campanhas

Por Ane Catarine Lima
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Atualizado
Por que o eleitor acima de 60 anos virou peça-chave na disputa presidencial

Foto: Agência Brasil/Paulo Pinto

A pouco mais de quatro meses das eleições presidenciais de 2026, um dado merece a atenção dos pré-candidatos ao Palácio do Planalto: apesar de o voto não ser obrigatório para essa faixa etária, o número de pessoas com 60 anos ou mais aptas a votar no Brasil aumentou 74% desde o pleito de 2010, segundo mostra um levantamento da Nexus.

Um exemplo desse perfil de eleitor é o militar aposentado Alcimar Souza, de 61 anos. Gaúcho e morador de Salvador, ele não perde uma eleição desde que voltou a votar durante a redemocratização do país.

“Como eu não vou votar? É um direito de todo cidadão brasileiro e, a partir do meu voto, tenho a oportunidade de contribuir com a escolha do melhor projeto para governar o Brasil. Quando é ano de eleição, fico atento a tudo para no dia exercer o meu papel na democracia”, afirmou.

O crescimento desse eleitorado muda o cálculo político das eleições deste ano porque amplia o peso de um grupo que já costuma registrar alta participação nas urnas e maior fidelidade eleitoral.

Em um cenário de disputa polarizada, como o desenhado atualmente entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), esse fator pode representar a diferença entre vencer e perder.

A avaliação é do cientista político João Vitor Vilas Boas, ouvido pelo portal Farol da Bahia.

“Enquanto o restante da população se afasta das urnas, o eleitorado com idade igual ou superior a 60 anos deixa de ser apenas relevante e passa a ser decisivo. Em eleições apertadas, como foi a de 2022, quem comparece mais pesa mais. E hoje, o eleitor mais velho é justamente aquele que menos falta às urnas”, alertou.

Foto: Ricardo Stuckert/PR | Waldemir Barreto/Agência Senado

O especialista afirmou ainda que outro fator importante é a capilaridade desse perfil de eleitor, muitas vezes inserido no que chamou de “redes muito concretas”.

“Estamos falando de um eleitor inserido em família, igreja e comunidade, o que faz com que sua decisão de voto não seja individualizada, mas compartilhada e, muitas vezes, multiplicada dentro do próprio núcleo social.”

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Campanhas terão de mudar estratégia

Na prática, o crescimento do eleitorado idoso significa que os candidatos terão de adaptar discurso, programa e formas de comunicação para dialogar mais diretamente com o envelhecimento da população brasileira.

Isso, no entanto, ainda ocorre de forma tímida. De acordo com o cientista político ouvido pela reportagem, os candidatos sabem da importância desse eleitor, mas ainda o tratam de forma superficial e erram ao repetir temas como aposentadoria e acesso a medicamentos sem aprofundar propostas.

“Os políticos sabem que o idoso é um público que comparece às urnas e pode decidir eleição apertada. Por isso, dão atenção, mas, ao meu ver, ainda de forma limitada. As propostas até chegam, principalmente em temas como aposentadoria e saúde, só que quase sempre no básico e repetitivo, o que é um erro”, afirmou.

WhatsApp ganha força nas campanhas

Ao contrário do Instagram e do TikTok, que concentram público mais jovem, uma das estratégias apontadas como mais eficazes por João Vilas Boas é a concentração de conteúdo eleitoral no WhatsApp.

“As campanhas já entenderam que o público de 60 anos ou mais está mais concentrado no WhatsApp, onde a informação circula entre pessoas de confiança, como família e grupos próximos”, disse.

O que realmente conquista o eleitor acima de 60 anos

Para entender melhor o que uma campanha precisa fazer hoje para conquistar o eleitor acima de 60 anos, além de promessas sobre aposentadoria e saúde, a reportagem também ouviu o estrategista de marketing político Paulo Maneira.

Segundo ele, esse eleitorado não quer ser tratado apenas como aposentado ou paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) e o candidato que entender isso tende a sair na frente.

“O eleitor acima de 60 anos quer ser tratado como alguém que ainda sustenta famílias, influencia decisões e carrega memória política e afetiva do país. A campanha que conseguir transmitir respeito, estabilidade, pertencimento e escuta ativa terá enorme vantagem num Brasil que envelhece rapidamente”, afirmou o especialista.

Alerta: TV, Facebook e YouTube ainda têm peso

Além da forte presença no WhatsApp já citada, Paulo Maneira também destacou que o eleitorado mais velho mantém a TV, o Facebook e o YouTube como importantes fontes de informação política.

Na avaliação do estrategista, esse comportamento obriga as campanhas a manter presença tanto nas mídias tradicionais quanto nas plataformas digitais mais utilizadas por esse público.

Nas Eleições de 2026, a propaganda eleitoral começa oficialmente no dia 16 de agosto.

Enquanto eleitorado idoso cresce, participação de adolescentes cai

O Brasil caminha para registrar o menor índice de participação de adolescentes de 16 e 17 anos em uma eleição presidencial desde, ao menos, 2014.

Em 2022, mais de 2,5 milhões de jovens dessa faixa etária haviam solicitado a emissão do título de eleitor até maio. Já em 2026, uma projeção do Instituto Lamparina e do movimento Girl Up Brasil, indica que entre 1,44 milhão e 1,6 milhão de adolescentes devem emitir o documento até o fim do prazo, encerrado na última quarta-feira (6).

O número representa cerca de 27,6% da população brasileira de 16 e 17 anos, percentual abaixo do registrado em 2014 (33,7%), 2018 (31%) e 2022 (41,2%).
 

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