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Progresso ou ameaça? Teleférico no Subúrbio gera dilema sobre possível impacto ambiental

Moradores relataram à reportagem não saber da construção do novo transporte; outros duvidam que resolverá os problemas de mobilidade

Por Maiane Ferreira
Às

Atualizado
Progresso ou ameaça? Teleférico no Subúrbio gera dilema sobre possível impacto ambiental

Foto: Farol da Bahia | Divulgação/Fundação Mário Leal

A Prefeitura de Salvador anunciou, em maio de 2025, um novo projeto para a mobilidade urbana da cidade: a construção de um teleférico no Subúrbio Ferroviário. Em meio a dificuldade enfrentada por moradores da região para chegar ao centro da cidade, o novo modal promete encurtar o tempo de viagem até a BR-324, estações de metrô e o futuro VLT. O teleférico terá quatro estações: Praia Grande, Mané Dendê (Rio Sena), Campinas de Pirajá e Pirajá, com 4,3 km de extensão, com 27 torres de sustentação.

Em contrapartida, a promessa de um transporte que facilite a vida da população pode se tornar um problema para as comunidades locais, com consequências negativas no contexto ambiental e cultural.

No coração de onde será construído o modal, fica o Parque São Bartolomeu, uma Área de Proteção Ambiental (APP), considerado patrimônio histórico, cultural e religioso. O Parque abriga uma das principais áreas remanescentes de Mata Atlântica em zona urbana, e é cortado pelo Rio do Cobre, o último Rio vivo de Salvador, que corre e forma três cachoeiras: Nanã, Oxum e Oxumaré. Na parte superior do Parque, próximo ao bairro de Pirajá, está situada a barragem do Cobre. 

Para custear essa e outras obras na cidade de Salvador, o prefeito Bruno Reis (União) assinou no dia 03 de abril um contrato de empréstimo de US$ 125 milhões com o Banco CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe. O projeto urbanístico do modal está sendo conduzido pela Fundação Mário Leal Ferreira, que ficará responsável por criar uma programação para minimizar impactos ambientais e sociais. 

Um estudo preliminar, único encontrado na Biblioteca da Fundação MLF, aponta que o percurso será dividido em dois trechos principais: Trecho 1: 2.172,92 metros e Trecho 2: 1.679,80 metros totalizando pouco mais 4 km de extensão. Uma foto estampada no estudo mostra o trajeto do teleférico e por quais regiões as torres podem ser instaladas. 

 Reprodução/ acervo FMLF

Ao ser procurada pelo Farol da Bahia, a Fundação Mário Leal Ferreira afirmou que ainda não há estudos que digam onde serão instaladas as torres e que os únicos materiais disponíveis são os que estão na biblioteca da Fundação. 

Licença e comunicação social

Em novembro de 2025, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur) concedeu a licença prévia para a Fundação Mário Leal -  um “sinal verde” que antecede a licença de instalação.  

A licença foi concedida sob algumas condições, como: Estudo de Médio Impacto (EMI), Plano de Controle Ambiental (PCA), Recuperação de Áreas e Proteção da Fauna. Ainda de acordo com a Portaria, a Fundação não está autorizada a intervir na vegetação nativa ou a instalação das estruturas sem a licença necessária para isso. A Sedur também estabelece que deve ser feito um plano de mobilização social com suporte às comunidades afetadas por meio de reuniões e plantões sociais.

Entretanto, vários questionamentos são levantados por alguns moradores da região. Alguns deles relatam à reportagem não terem sido informados sobre o novo modal, e apontam que o teleférico pode ser apenas uma ferramenta turística, sem finalidade de resolver problemas de mobilidade. Os residentes do entorno do Parque dizem que resistem ao projeto, que poderá impactar regiões importantes de preservação.

Washington Oliveira, morador do bairro da Terezinha, relata que poucos moradores têm conhecimento da construção, e que parte da comunidade mais próxima do Parque, não concordam com a construção do modal.  “Eu acho que o grande objetivo é atrair turistas, né? Porque pra quem é morador, não faz nem sentido, e algumas movimentações que vi aqui no Parque, as pessoas têm pensamento contrário, porque um dos pilares do teleférico vai afetar uma das cachoeiras, a que é própria pra banho ”, relata. 

Gutemberg França, morador do bairro de Mirantes, também relata que o modal é novidade para quem pega transporte no subúrbio.  “Eu acredito que não saibam mesmo. Infelizmente, nem eu estou sabendo. Novidade para mim”, ele ainda conta que concorda com obras que facilitem a viabilidade do transporte urbano nessas regiões, mas que muitos detalhes precisam ser considerados, como o pouco alcance que o teleférico tem com bairros afastados da suburbana. “Tem viabilidade no teleférico ou é uma coisa mais turística? Tem viabilidade econômica para a população que mora na parte de cima? E é por isso que eles não divulgaram, ficaram com o pé atrás ", conta.

Outros moradores do subúrbio acreditam que o projeto pode ser interessante para agregar valor na localidade, mas que tem que ser feito de forma técnica para não atingir locais de preservação. Lucas Lírio, de 28 anos, é morador do bairro de Periperi, considera que o modal pode ajudar na redução dos engarrafamentos da Avenida Afrânio Peixoto, principal via do subúrbio, mas prega cautela para que isso não se torne um problema ambiental.

“É muita coisa que precisa entender, olhar o projeto e ver como funciona. Mas, a princípio, olhando a questão da mobilidade urbana, eu acho a possibilidade interessante. Mas, olhando a parte a ambiental precisa entender  quanto isso pode ser invasivo”, disse. 

Procurada pelo reportagem, a Sedur não respondeu, até o momento, aos questionamentos a respeito da fiscalização das condições aplicadas na licença. 

Desapropriação

No dia 17 de abril deste ano, a Prefeitura deu mais um passo à frente para início das obras, anunciou  por meio do Decreto nº 41.631, a desapropriação de dois terrenos no Subúrbio. O primeiro terreno está situado no bairro de Praia Grande e possui 4.409,31 m2. O Segundo terreno fica na Rua Pajussara, no bairro do Rio Sena, com 12.879,22 m2. 


Possíveis impactos para o ecossistema 

Apesar da licença da Sedur impor condições para que a área de preservação não sofra impactos negativos, uma construção dessa magnitude pode alternar de forma significativa na região, atingindo as espécies que vivem no local. 

É o que explica o Biólogo Gutemberg Ferreira, professor e mestre em zoologia. Ele aponta que apesar dos estudos para contenção de danos, a construção de torres no Parque pode gerar impactos diretos e indiretos, como supressão da vegetação nativa e reduzir a conexão ecológica e compactação do solo, alterando a dinâmica hídrica do local. O conjunto de possíveis impactos, também causa a perturbação da fauna, gerando o que a biologia chama de “efeito de borda”,  que é como se fosse a diminuição do raio onde estão as áreas de preservação. 

“Do ponto de vista ecológico, essa obra compromete o funcionamento do ecossistema, porque essa área atua como refúgio da diversidade em ambiente urbano. Os impactos cumulativos, a gente vai ter perda progressiva da qualidade ambiental”, diz o biólogo. 

Fauna e recursos hídricos

Ao ser questionado sobre os possíveis riscos às espécies do Parque Gutemberg disse que os animais ali presentes são oriundos da Mata Atlântica, que tem um papel importante para os solos e a ecologia, até espécies que estão em risco de extinção. 

“A gente vai ter muitas espécies de aves, répteis, anfíbios, pequenos mamíferos como os micos, por exemplo: Invertebrados de uma maneira geral que tem um papel importante na decomposição do solo. Além de sapos, rãs importantes. A gente vai ter répteis como cobras do tipo sucuri, jiboia e  borboletas que podem estar em risco de extinção.  A gente pode ter aranhas, escorpiões. Tudo aí são animais que fazem parte da fauna e da flora”, relata. 

O Parque São Bartolomeu também abarca grandes recursos hídricos, que além da importância ambiental, possui grande valor para as religiões de matriz africana: as cachoeiras de Oxum, Nanã e Oxumaré, todas designadas pelo Rio do Cobre, e no interior do Parque, chegando ao bairro de Pirajá, a Barragem do Cobre. “A gente tem a questão do assoreamento, a contaminação da água por conta dos resíduos, provocando o assoreamento que transforma o rio em um rio menor, reduzindo a qualidade da água”. 

Gutemberg alerta que esses recursos hídricos  podem ser contaminados por conta dos resíduos da obra, como óleo e combustível, comprometendo o curso das cachoeiras que também abrigam espécies da fauna aquática. “ Então, falando de ecologia, sistemas aquáticos, eles são altamente sensíveis, pequenas alterações no entorno podem gerar esses efeitos em cadeia em todo o sistema do parque”, disse.
 

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