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Projeto do artista visual Jorge Feitosa leva ao Mata Lab obras autorais e um acervo formado ao longo de 20 anos em antiquários e feiras de antiguidades!

Aos detalhes...

Por Michel Telles
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Atualizado
Projeto do artista visual Jorge Feitosa leva ao Mata Lab obras autorais e um acervo formado ao longo de 20 anos em antiquários e feiras de antiguidades!

Foto: Divulgação

Uma bandeja de cobre do século XIX com cena de caça em relevo. Um vaso em cristal azul-cobalto das extintas Cristalleries de Nancy, na França. Uma cornucópia de cerâmica brasileira dos anos 1960 encontrada em um antiquário nos Estados Unidos e posteriormente “repatriada”. Fragmentos de história como esses compõem o Acervo Jorge Feitosa, agora em exibição e venda no Mata Lab. Mais do que objetos decorativos, as peças reunidas pelo artista e por seu marido, o executivo Fábio Garcia, ao longo de duas décadas de viagens pelo Brasil, Europa, Ásia e Estados Unidos compartilham uma mesma premissa: a de que a matéria guarda memória.O convite para ocupar o espaço partiu dos diretores do Mata Lab, Carolina Friedmann, diretora executiva e Tunico de Castro Filho, diretor criativo e curador, após se identificarem com o olhar apurado do casal — percebido tanto na produção artística de Jorge quanto nas visitas à residência da dupla em Vinhedo, interior de São Paulo. A curadoria do acervo é guiada pelo que o artista define como Memória da Matéria, conceito que atravessa sua produção artística e sua relação com objetos históricos:

“O que define a memória da matéria é compreender que os objetos não são inanimados. Eles retêm os rastros do tempo, as mãos que os tocaram e as histórias que sobreviveram ao esquecimento. Nesse processo trabalho com três pilares: a arqueologia afetiva, que investiga o que foi descartado para reencontrar sua dignidade; a salvaguarda, que protege o objeto da erosão do tempo e da indiferença; e a ressignificação, que reconhece que a matéria possui memória e que, ao acolhê-la, preservamos também um fragmento da nossa identidade coletiva”, explica Jorge.

Essa perspectiva dialoga, segundo ele, com a filosofia japonesa do Wabi-Sabi, que valoriza a beleza da imperfeição e do incompleto: “Enquanto o mundo contemporâneo nos treina a ver o novo como único e perfeito, busco refúgio na beleza do que já existiu. Um desgaste não é um defeito, é biografia”, defende o artista.

Para Fábio, cujo início no universo do colecionismo foi sua coleção de bolsas masculinas  — atualmente com mais de 300 peças  —   o processo também representou uma transformação:

“Aprendi com o Jorge que criar um acervo é também imprimir identidade e construir um legado de curadoria. Nossas viagens se tornaram um aprendizado mútuo, aprofundado em anos de observação, seleção e entendimento do que realmente tem valor.” A formação do acervo sempre aconteceu de maneira orgânica, movida pela curiosidade do casal por antiquários e feiras de antiguidades nas cidades que visitam. Um dos capítulos mais marcantes dessa trajetória ocorreu recentemente no Oregon, durante um roteiro pelas vinícolas do Vale do Willamette.

Entre uma visita e outra, Jorge se encantou por um vaso de cerâmica Jaru em um tom de verde vibrante, mas, como as malas já estavam cheias, a peça acabou ficando para trás. O destino do objeto mudou quando Fábio compartilhou o registro da descoberta em suas redes sociais; o post chamou a atenção de Tunico, curador do Mata Lab, que respondeu à publicação, fazendo o convite para expansão do projeto indo além das obras de arte do Jorge. A conexão com a peça foi tão simbólica que Fábio retornou aos Estados Unidos exclusivamente para resgatá-la. Para sua surpresa, não apenas reencontrou o vaso original, mas também uma segunda peça semelhante. Ambas foram trazidas para o Brasil e agora estão disponíveis no Mata Lab, servindo como testemunhas físicas do momento em que o acervo deixou de ser uma coleção particular para se tornar uma narrativa pública

O que encontrar no Acervo Jorge Feitosa

No Mata Lab, o público encontra obras recentes do artista — quadros, cerâmicas e aquarelas, algumas recém-chegadas de uma exposição em Paris realizada no âmbito do Ano do Brasil na França — além de peças de design em madeira que podem funcionar tanto como elementos decorativos quanto como mobiliário. A produção autoral convive com uma seleção de objetos históricos, cada um acompanhado de uma “ficha de curadoria” que revela sua proveniência e os motivos de sua escolha.

Entre os destaques está um vaso em Cristal Doublé azul-cobalto, manufaturado pelas extintas Cristalleries de Nancy entre 1920 e 1935. Sua raridade é ampliada pelo fechamento da fábrica após a crise de 1929, o que transformou a peça em item cobiçado em leilões e coleções particulares. “Esta peça personifica o que chamamos de ‘Memória da Matéria’. Ela carrega a vibração de uma era de otimismo estético e o silêncio de artesãos cujas vozes foram interrompidas pela história”, descreve a ficha de curadoria.

Outro exemplar de valor documental é o par de castiçais em cristal de chumbo da Cristallerie du Val Saint Lambert, da Bélgica, registrados no catálogo oficial da maison de 1956. De geometria escultural e base facetada, representam o auge da manufatura belga. Também destaque no acervo, as terrinas em faiança majólica da Maison GÉO (Georges Foucault), dos anos 1970, unem funcionalidade e prestígio artístico. Inspiradas na tradição Barbotine, as peças pintadas à mão serviam originalmente como embalagens colecionáveis para patês premium, transformando um item de consumo em um objeto de luxo duradouro. Figuras expressivas como o icônico pato não apenas indicavam o conteúdo do alimento, mas permanecem até hoje como símbolos de sofisticação e afeto gastronômico

As taças da coleção Golden Zuzana (1956), agora no acervo de Jorge Feitosa, são ícones atemporais do design de cristal europeu. Criadas pelo tchecoslovaco Jozef Stanik, estas verdadeiras "joias funcionais" destacam-se pela alta complexidade de suas exclusivas esferas de ouro encapsuladas no fuste. Comprovando sua relevância histórica e diplomática, peças deste design foram escolhidas como presente de casamento para o Príncipe Charles e Lady Diana (1981) e para a cosmonauta Valentina Tereshkova (1963). Para o curador, a coleção é a expressão máxima da "Memória da Matéria", unindo o clássico ao vanguardista.

A curadoria também apresenta peças raríssimas de porcelana vintage da Yves Saint Laurent, produzidas no Japão entre as décadas de 1980 e 1990 em uma colaboração estratégica com a renomada fabricante Yamaka International. Preservados em estado impecável de Deadstock e New Old Stock (estoques antigos intactos em suas caixas originais), os achados incluem desde conjuntos de café minimalistas que evocam a precisão zen japonesa em tons de cinza suave, até vibrantes conjuntos de louça com o padrão floral "Lily", que reinterpretam o movimento Art Déco. Estes itens de colecionador representam uma cápsula do tempo da era em que a maison francesa expandiu sua visão para o "Total Design", levando a sofisticação e a alta-costura das passarelas parisienses diretamente para os rituais domésticos

A produção brasileira também marca presença com peças de grande relevância histórica, como o par de castiçais de 43 centímetros em bronze maciço folheado a prata, fabricado pela Metalúrgica Abramo Eberle, do Rio Grande do Sul, por volta de 1930. A obra reflete o auge da ourivesaria nacional, período em que a empresa se consolidava como fornecedora de artigos de luxo para embaixadas, igrejas e residências da aristocracia brasileira.

Completam a seleção diversos exemplares da cerâmica vintage brasileira das décadas de 1950 a 1970 — vasos florais, cachepots em estilo rocaille, cornucópias texturizadas e castiçais com relevos botânicos — que evidenciam a capacidade dos ateliês nacionais de traduzir influências do modernismo europeu em linguagem própria.

Muitos objetos carregam histórias de descobertas inesperadas — e, em alguns casos, de redescoberta. Fábio cita o exemplo de um jogo de gamão adquirido na Turquia:

“Quando compramos, não sabíamos a procedência. Depois, pesquisando para as fichas de curadoria, descobrimos que é do antigo Irã, feito em madeira com cortes de um centímetro e com osso de camelo na composição. Esse processo de pesquisa tem sido uma redescoberta. Estamos reescrevendo a história das peças.”

Outro caso emblemático é o de uma cornucópia de cerâmica brasileira dos anos 1960 adquirida por Jorge nos Estados Unidos no início dos anos 2000. A peça retorna agora ao Brasil para integrar a coleção:

“Identificar uma peça nacional em outro país e trazê-la de volta é um resgate não apenas do objeto, mas de um fragmento da nossa história”, afirma o artista.

Legado e continuidade

A chegada do Acervo Jorge Feitosa ao Mata Lab dialoga com uma tendência crescente no universo do luxo contemporâneo: a valorização do autoral, do histórico e do consumo circular. Como resume a assinatura curatorial que acompanha cada item: “O verdadeiro luxo não reside na novidade, mas na narrativa que o objeto carrega para dentro do seu espaço”. Para Fábio, a parceria também representa a possibilidade de compartilhar um legado construído ao longo de duas décadas:

“Fico feliz em ver que as peças que adquirimos ao longo dos anos fizeram sentido para Tunico e Carolina Friedmann. Pelo repertório e pela competência de ambos, estar nesse hub de criatividade é um lastro importante para essa nova trajetória.”

Jorge conclui com a perspectiva que une sua prática artística e curatorial:

“O acervo não é sobre revenda comercial. É sobre continuidade. É conectar objetos que têm história a novos lares. No fundo, não somos donos dessas peças — somos apenas guardiões temporários da história que elas carregam.” Sobre Jorge Feitosa

Jorge Feitosa nasceu em 1969 na cidade de Porto Velho, capital de Rondônia. Filho de pai marceneiro e mãe costureira, aos 17 anos veio para São Paulo. Em 2009 obteve formação livre em fotografia pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), onde atuou junto a um coletivo de fotógrafos no livro Luz Marginal Procura Corpo Vago, e em 2013 se graduou em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Utiliza como linguagens a performance, a fotografia e o vídeo. Sua pesquisa trata de questões ligadas à identidade, deslocamento, enraizamento e morte, o indivíduo contemporâneo e sua relação com a natureza e com a cultura.  Em 2016, realizou sua primeira individual NAVEGAR ES PRECISO no Centro Provincial de Artes Plástica y Diseño de La Habana, Cuba. Com seu trabalho de performance, participou das seguintes mostras: Verbo 2022 - Mostra de Performance Arte (16ª edição), na Galeria Vermelho; Presença Permeável, no Paço das Artes; #MOVIMENTA2, na Galeria Mezanino; Festival La Plataformance - Resistência em Rede e Documento Vivo, na Oficina Cultural Oswald de Andrade; e Performa-Projetos Curados, na SP-Arte. Participou, ainda, das coletivas Foto-Performance, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, e Mappa Dell'arte Nuova – Imago, na Fondazione Giorgio Cini, na Itália. Seu trabalho também integra os acervos do MUna - Museu Universitário de Artes do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia (IARTE/UFU) e do MAR - Museu de arte do Rio (Rio de Janeiro/RJ).Sobre o Mata Lab

Inaugurado em dezembro de 2025, o Mata Lab é um espaço de 3 mil m² localizado no complexo Cidade Matarazzo, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Explorando o conceito de "laboratório vivo", o espaço criado por Tunico e Carolina Friedmann une moda, beleza e design e comportamento, abrigando mais de 200 marcas, alternando entre nomes consagrados e talentos do design autoral e artesanal.

SERVIÇO

Acervo Jorge Feitosa no Mata Lab

Alameda Rio Claro, 260 - Bela Vista, São Paulo (dentro do complexo Cidade Matarazzo)

Funcionamento: De segunda a sábado, das 10h às 22h; aos domingos, das 14h às 20h

Para mais informações, acesse: acervojorgefeitosa.com/

Siga o Acervo Jorge Feitosa: @acervo.jorgefeitosa

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