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Quando Ilé-Ifẹ̀ reverenciou a Bahia: diplomacia do povo tradicional, participação e os desafios da relação entre África e diáspora

"Uma civilização permanece viva porque preserva o passado e porque reconhece aqueles que continuam a construí-la." - Janete Lis

Por Da Redação
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Atualizado
Quando Ilé-Ifẹ̀ reverenciou a Bahia: diplomacia do povo tradicional, participação e os desafios da relação entre África e diáspora

Foto: Paula Fróes/GovBa

Nas últimas décadas, a Bahia consolidou-se como um dos mais importantes territórios de continuidade da cultura iorubá fora da África. Essa condição resulta do trabalho histórico de centenas de terreiros, famílias, sacerdotes, sacerdotisas, intelectuais e comunidades tradicionais brasileiros, diga-se de passagem, que preservaram saberes, práticas religiosas e formas de organização social herdadas dos povos escravizados no Brasil.

Nesse contexto, a visita do Oòni de Ilé-Ifẹ̀, Adeyeye Enitan Ogunwusi (Ojaja II), em 2018, e a visita do Aláàfin de Òyó, Oba Akeem Abimbola Owoade I, em 2026, constituem acontecimentos marcantes para as relações entre África e diáspora. Ambas foram recebidas com grande expectativa e apresentadas como oportunidades para fortalecer laços religiosos, históricos, culturais, acadêmicos, comerciais e institucionais.

Os dois eventos compartilharam objetivos convergentes: valorizar a ancestralidade comum, ampliar intercâmbios culturais e reafirmar a importância do patrimônio, material e imaterial, preservado pelas comunidades afro-brasileiras. Ainda assim, cada visita gerou percepções distintas em função dos modelos de organização e mediação adotados.

O aspecto central desta análise reside justamente na forma de construção dessas agendas. A questão principal encontra-se menos no prestígio das autoridades visitantes, ambos de altíssimo prestígio junto à população afro-brasileira, e mais na capacidade de mobilizar, ouvir e integrar os diversos segmentos da diáspora brasileira no processo de recepção e intercâmbio.

Quem organiza uma visita internacional define prioridades, constrói narrativas, seleciona interlocutores e estabelece formas de reconhecimento. Por essa razão, a qualidade de qualquer mediação institucional possui impacto direto sobre os resultados culturais e simbólicos de cada missão.

A reflexão proposta neste artigo parte de uma premissa simples: as relações entre autoridades tradicionais africanas e a diáspora brasileira alcançam maior potência quando se estruturam por meio de processos amplos, participativos e transparentes. O patrimônio cultural iorubá preservado no Brasil pertence a uma vasta rede de brasileiros, sejam eles pertencentes a comunidades de terreiro, pesquisadores, instituições culturais, universidades e lideranças religiosas. Consequentemente, sua representação exige pluralidade de vozes e participação coletiva. Ainda que tais visitas possuam natureza cultural e tradicional, seu significado público é profundo. As casas de terreiro, as lideranças religiosas e a sociedade brasileira merecem integrar esses processos como protagonistas legítimos de uma história construída ao longo de séculos.

A diáspora brasileira ocupa hoje uma posição de destaque na continuidade da civilização iorubá. Esse reconhecimento constitui o ponto de partida para uma diplomacia cultural contemporânea baseada no respeito mútuo, na reciprocidade e na participação democrática.

Com isso em mente, passemos à análise reflexiva sobre o evento da visita do Ooni de Ifé em 2018 e do Alaafin em 2026. Dois modelos de organização, com protocolos, mediação e produção dos eventos distintos. 

A visita do Oòni de Ilé-Ifẹ̀, em 2018, tornou-se um marco por combinar relevância simbólica, planejamento institucional e ampla articulação social. Sua preparação reuniu órgãos públicos, universidades, pesquisadores, lideranças comunitárias e diferentes representantes da diáspora, criando um ambiente favorável ao diálogo e ao reconhecimento mútuo. A agenda apresentou objetivos claros, programação estruturada e canais definidos de interlocução. Dessa forma, a visita transcendeu o campo cerimonial e assumiu o caráter de uma verdadeira ação de diplomacia cultural. O momento de maior repercussão ocorreu quando o Oòni declarou a Bahia como Capital Iorubana das Américas.

O alcance desse gesto ultrapassou a dimensão protocolar. A declaração reconheceu a contribuição histórica das comunidades afro-brasileiras para a preservação e renovação da herança iorubá. Ao fazê-lo, projetou a Bahia como um espaço contemporâneo de continuidade civilizatória, conferindo visibilidade internacional ao trabalho desenvolvido por gerações de sacerdotes, sacerdotisas, famílias e comunidades tradicionais.

Um dos aspectos mais relevantes desse reconhecimento foi seu caráter abrangente. A homenagem alcançou o conjunto da diáspora, valorizando a diversidade de experiências que compõem o universo afro-brasileiro. O gesto fortaleceu a percepção de pertencimento coletivo e reafirmou a Bahia como um território de referência para o mundo ioruba, algo fundamental para o fortalecimento do movimento negro brasileiro.

O êxito da visita esteve diretamente associado à capacidade de transformar o protocolo em instrumento de inclusão, valorização institucional e reconhecimento cultural. 

Passemos, então à segunda visita. A visita do Aláàfin de Òyó, em 2026, chegou cercada de expectativas igualmente elevadas. A importância histórica de Òyó, somada ao prestígio da autoridade visitante, criou condições para a realização de um encontro de grande impacto entre África e diáspora.

Ao longo da execução da agenda, contudo, surgiram desafios relacionados à coordenação, à comunicação e à circulação de informações entre os diversos participantes. Alterações de programação, dificuldades de alinhamento e limitações no compartilhamento de decisões produziram percepções de distanciamento entre parte das comunidades envolvidas e a estrutura organizadora. Essas circunstâncias revelam uma questão fundamental: a diplomacia cultural depende tanto da presença das autoridades tradicionais, quanto da qualidade das relações construídas em torno delas.

Comunidades tradicionais mobilizam esforços significativos para acolher visitantes dessa relevância. Organizam recepções, preparam cerimônias, articulam pessoas e investem recursos materiais e simbólicos. É do conhecimento geral que quanto maior o diálogo entre organizadores e anfitriões, maior a capacidade de transformar a visita em uma experiência de reconhecimento recíproco de maior escala. Sabe-se que mais de 20.000 pessoas participaram da visita do Ooni de Ifé. O mesmo não se repetiu na visita do Aláàfin. 

A comparação entre as duas experiências evidencia a importância dos processos participativos. Em 2018, predominou uma percepção de construção compartilhada, sustentada por múltiplos interlocutores institucionais. Em 2026, ganhou destaque o desafio de ampliar canais de participação e fortalecer mecanismos de comunicação com a diversidade das comunidades anfitriãs.

Essa observação aponta para uma questão estratégica. A produção de agendas dessa natureza alcança resultados mais consistentes quando incorpora a pluralidade dos povos de terreiro desde as etapas iniciais de planejamento. Essa participação amplia legitimidades, fortalece vínculos institucionais e distribui oportunidades de representação entre diferentes segmentos da comunidade.

Estamos, portanto, diante de uma discussão sobre democracia cultural dos povos de terreiro brasileiros. Trata-se da construção de modelos de governança capazes de reconhecer os povos de terreiro como sujeitos centrais na elaboração de agendas ligadas ao patrimônio que eles próprios preservaram ao longo dos séculos. A força da diáspora brasileira reside precisamente em sua diversidade. Quanto maior a capacidade de incorporar essa diversidade aos processos de decisão, maior será a capacidade de produzir encontros verdadeiramente históricos entre África e Brasil.

As visitas do Oòni de Ilé-Ifẹ̀ e do Aláàfin de Òyó representam momentos importantes da aproximação contemporânea entre África e diáspora. Ambas demonstram o enorme potencial das autoridades tradicionais africanas para promover intercâmbios culturais, fortalecer identidades e renovar vínculos históricos.

As experiências analisadas também evidenciam que a excelência dessas iniciativas depende da combinação entre representatividade, planejamento institucional, diálogo permanente com as instituições interessadas e participação social.

A principal contribuição da visita do Oòni foi consolidar publicamente o reconhecimento da Bahia como um território legítimo da continuidade da civilização iorubá. Esse gesto valorizou os povos de terreiro e reafirmou seu papel como protagonistas da preservação e da renovação desse patrimônio cultural.

A experiência do Aláàfin, por sua vez, oferece importantes aprendizados para o aprimoramento futuro das relações entre autoridades tradicionais africanas e as comunidades da diáspora. Ela reforça a importância de estruturas organizacionais mais compartilhadas, processos de comunicação mais amplos e formas mais inclusivas de construção das agendas.

O caminho adiante aponta para modelos de articulação capazes de reunir casas de terreiro, associações culturais, universidades, pesquisadores, gestores públicos e lideranças comunitárias em espaços permanentes de diálogo e cooperação. Esse é o grande desafio e, ao mesmo tempo, a grande oportunidade dos próximos anos: transformar a diplomacia tradicional em uma experiência cada vez mais coletiva, representativa e democrática.

A riqueza da civilização iorubá sempre esteve associada à convivência entre diferentes centros de conhecimento, espiritualidade e organização social. Da mesma forma, a força da diáspora brasileira encontra-se em sua extraordinária diversidade de tradições, comunidades e lideranças. As futuras visitas de autoridades africanas encontrarão seu significado mais profundo quando forem construídas sobre essa pluralidade. O reconhecimento da diáspora como parceira estratégica, protagonista cultural e coprotagonista da história iorubá fortalece os laços entre os dois lados do Atlântico e amplia o alcance simbólico desses encontros.

Talvez a principal lição deixada por essas experiências seja que a herança iorubá constitui um patrimônio coletivo. Sua valorização exige participação, escuta, corresponsabilidade e respeito institucional. Quando os povos de terreiro ocupam o lugar de sujeitos da agenda, a diplomacia tradicional alcança sua expressão mais elevada e com maior amplitude. Nesse horizonte, democracia cultural, reconhecimento e participação tornam-se os próprios fundamentos da relação entre África e diáspora no século XXI.
 

Biografia
Janete Lis da Rocha é mestranda em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e desenvolve pesquisas sobre patrimônio cultural, museologia afrocentrada, memória e civilização iorubá.
 

 

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