Rejeição da mãe pode ajudar a explicar a obsessão amorosa de Brigitte em “Quem Ama Cuida”!

Neurocientista Telma Abrahão explica como a falta de vínculo e validação na infância pode influenciar a forma como uma pessoa busca amor, aprovação e pertencimento na vida adulta

Por Michel Telles
Às

Rejeição da mãe pode ajudar a explicar a obsessão amorosa de Brigitte em “Quem Ama Cuida”!

Foto: Redes Sociais.

A personagem Brigitte, interpretada por Tatá Werneck em Quem Ama Cuida, vem chamando atenção não apenas pelas atitudes impulsivas nos relacionamentos, mas pela história emocional que existe por trás de seu comportamento. Filha de Pilar, vivida por Isabel Teixeira, Brigitte cresceu sendo rejeitada pela própria mãe e demonstra uma necessidade constante de ser escolhida, desejada e reconhecida pelos homens por quem se interessa.

A própria Tatá Werneck já explicou que a personagem não foi criada para funcionar como alívio cômico. Segundo a atriz, Brigitte apresenta um transtorno relacionado à dor provocada pela rejeição materna, e o desconforto causado por suas atitudes faz parte da construção dramática da personagem.

Para a neurocientista e analista emocional especialista em traumas,  Telma Abrahão, a história de Brigitte chama atenção para um mecanismo que pode aparecer em pessoas que cresceram sem sentir segurança emocional dentro da própria família: a tentativa de encontrar fora aquilo que faltou na relação com quem deveria oferecer proteção e pertencimento. “Quando uma criança cresce sentindo que não é escolhida, que não é importante ou que precisa disputar o amor da própria mãe, isso pode deixar uma marca profunda na forma como ela passa a enxergar a si mesma e os relacionamentos. Na vida adulta, ela pode buscar desesperadamente no outro a confirmação de que é amada, desejada e importante”, explica Telma.

No caso de Brigitte, a busca por um relacionamento parece ultrapassar o desejo de viver uma relação afetiva. Ela precisa ser escolhida. Quando isso não acontece, a rejeição ganha uma dimensão muito maior e pode desencadear comportamentos impulsivos, insistentes e desproporcionais à situação. Ao longo da novela, a personagem já passou por diferentes interesses amorosos e teve dificuldade em aceitar o fim de relações ou a falta de reciprocidade. “Uma pessoa que carrega uma ferida de rejeição pode interpretar um ‘não’ atual como uma confirmação de algo que já acredita sobre si mesma: ‘eu não sou suficiente’, ‘ninguém vai ficar comigo’, ‘novamente estou sendo abandonada’. Por isso, algumas reações podem parecer exageradas para quem observa de fora, mas, internamente, aquela situação pode estar ativando uma dor muito mais antiga”, afirma a especialista.

A trama também coloca em evidência um comportamento conhecido como erotomania, associado a uma crença ou convicção intensa de que existe uma relação amorosa, mesmo quando não há reciprocidade. Reportagens sobre a personagem apontaram ainda a presença de características associadas ao transtorno de personalidade borderline.

Telma ressalta, porém, que rejeição materna não deve ser tratada como causa isolada de um transtorno. “Trauma não funciona como uma equação simples em que uma experiência necessariamente produz determinado transtorno. Existem vários fatores envolvidos, como predisposição individual, ambiente, experiências posteriores e a maneira como aquela criança conseguiu ou não elaborar o que viveu. O que sabemos é que experiências repetidas de rejeição podem influenciar profundamente a autoestima, a percepção de pertencimento e a maneira como os vínculos são construídos”, explica.

Para a especialista, esse é justamente o ponto que torna a trajetória de Brigitte interessante para além da novela: o comportamento que incomoda ou até provoca risadas pode esconder uma necessidade emocional bastante séria. “Por trás de uma pessoa que parece excessivamente carente, ciumenta ou insistente, muitas vezes existe alguém tentando provar para si mesma que finalmente será escolhida. O problema é que nenhuma relação consegue reparar sozinha uma ferida emocional construída durante anos. Quando o amor passa a ser utilizado como uma forma de validar o próprio valor, qualquer rejeição pode ser vivida como uma ameaça à própria identidade”, afirma Telma.

A trajetória de Brigitte ganha, assim, uma leitura diferente. Mais do que uma personagem que não sabe aceitar um “não”, ela representa alguém que aprendeu desde cedo que o amor poderia ser negado e que passou a buscar, nos relacionamentos, a confirmação de que merece ser amada. “Uma das coisas mais importantes quando falamos de traumas relacionais é entender que comportamento é linguagem. Isso não significa justificar atitudes que ultrapassam limites, mas tentar compreender o que existe por trás delas. Quando uma pessoa repete determinados padrões afetivos, vale perguntar não apenas ‘por que ela faz isso?’, mas também ‘que dor ela está tentando não sentir?’”, conclui Telma.

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