Superendividamento reduz em 40% o impacto da alta da renda sobre o consumo, diz estudo
Consumo das famílias teria crescido 3 pontos percentuais a mais sem o superendividamento desde 2023

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
MAELI PRADO - O superendividamento que o Brasil vive hoje reduz o impacto positivo da alta da renda sobre o consumo das famílias quase pela metade, segundo um estudo do banco Daycoval.
O levantamento mostra que, quando o endividamento está relativamente baixo, cada 1 ponto a mais de crescimento da massa salarial (soma de todos os salários do país) tem como consequência uma alta de 0,29 ponto percentual no consumo das famílias.
Quando o endividamento está alto e, portanto, comprometendo mais a renda, esse efeito se reduz para uma expansão menor, de 0,17 ponto percentual a mais no consumo das famílias, uma queda de cerca de 40% em relação ao primeiro cenário.
Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao fazer um modelo econométrico para medir em que momento o superendividamento passa a reduzir o efeito da alta da massa salarial sobre o consumo.
O resultado foi que esse patamar é alcançado quando o endividamento das famílias está pouco acima de 39% da renda o indicador saiu de 17%, em 2005, para quase 50% em 2025, segundo o estudo.
"Quando o endividamento se eleva acima desse patamar, a massa de renda passa a ter menos efeito no consumo e o crédito para a pessoa física ganha importância", afirma Antonio Ricciardi, economista do Daycoval.
Se não fosse o superendividamento, o consumo das famílias, que cresceu 7,8% de 2023 para cá, teria avançado 3 pontos percentuais a mais (10,8%), de acordo com o levantamento. Quando se considera apenas o ano de 2025, a alta do consumo teria sido 3,6 pontos percentuais maior.
"Apesar do mercado de trabalho e da renda crescentes, o consumo das famílias tem respondido cada vez menos. Isso nos levou a fazer esse levantamento", diz o economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso.
O estudo também estimou o impacto das concessões de crédito sobre o consumo das famílias em períodos de baixo e alto endividamento, e concluiu que as famílias recorrem mais ao crédito como forma de sustentar seu padrão de consumo em períodos de superendividamento.
O levantamento destaca ainda que uma parte significativa da alta do endividamento nos últimos 20 anos veio da expansão do crédito imobiliário. "O crédito habitacional teve um boom entre 2010 e 2015, e a partir de 2021 também houve uma alta forte", diz Ricciardi.
Para o Daycoval, a perspectiva futura depende de uma série de medidas que permitam a redução dos débitos das famílias. "Com a queda dos juros, o serviço da dívida tende a ser mais baixo, mas isso não necessariamente indica que o endividamento cai para um patamar mais baixo. Teria que haver um movimento conjunto de medidas", diz Ricciardi.


